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plano real Archives - Análise Macro

As três grandes desinflações do Plano Real

By | Inflação

A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) terminou 2017 em 2,95%, a segunda menor desde a implantação do Plano Real, em 1994. Ela encerra também um dos três grandes processos de desinflação desde o advento do plano. A primeira ocorreu entre 1994 e 1998, quando a inflação saiu de inacreditáveis 916,46% no acumulado em doze meses até dezembro de 1994 e terminou em dezembro de 1998 em 1,65%. A segunda ocorreu entre 2002 e 2006, quando a inflação saiu de 12,53% para 3,14%. Nesse último, a inflação foi a 10,67% em 2015, retornando a patamares civilizados em dezembro último. O código e o gráfico abaixo ilustram esses três períodos.


library(ggplot2)
library(scales)
library(BETS)
library(TStools)

infanual = BETS.get(13522, from='1994-12-01')

seas = seasplot(infanual, trend=F, outplot = 3)

dezembro = as.numeric(seas$season[,12])

dezembro = dezembro[-length(dezembro)]

time = seq(as.Date('1995-01-01'), as.Date('2017-01-01'), by='1 year')

df1 = data.frame(time=time, dezembro=dezembro)

# Gráfico
ggplot(df1, aes(time, dezembro))+
 annotate("rect", fill = "orange", alpha = 0.2, 
 xmin = as.Date('1994-06-01'), 
 xmax = as.Date('1998-06-01'),
 ymin = -Inf, ymax = Inf)+
 annotate("rect", fill = "red", alpha = 0.2, 
 xmin = as.Date('2001-06-01'), 
 xmax = as.Date('2006-06-01'),
 ymin = -Inf, ymax = Inf)+
 annotate("rect", fill = "blue", alpha = 0.2, 
 xmin = as.Date('2014-06-01'), 
 xmax = as.Date('2017-06-01'),
 ymin = -Inf, ymax = Inf)+
 geom_bar(stat='identity', fill='darkblue', width = 200)+
 geom_text(aes(label=round(dezembro,2)), colour='red', 
 vjust=ifelse(dezembro \>= 0, -0.4, 1),
 size=3)+
 xlab('')+ylab('% a.a.')+
 labs(title='Inflação anual medida pelo IPCA',
 caption='Fonte: analisemacro.com.br com dados do IBGE.')+
 scale_x_date(breaks = date_breaks("1 years"),
 labels = date_format("%Y"))+
 theme(axis.text.x=element_text(angle=45, hjust=1))

Tomare que não precisemos de um quarto grande processo desinflacionário, não é mesmo, leitor? 🙂

22 anos de Real: de volta aos princípios.

By | Inflação, Política Monetária

Eu pretendia escrever um post um pouco mais elaborado nessa semana sobre os 22 anos do Real. Seria o momento de fazer algo que sempre gosto, que é falar sobre política monetária e sobre inflação. Pegar um pouco de dados, mostrar para o leitor as dificuldades que vivemos na década de 80, falar sobre o aumento da inércia nos últimos anos, a desancoragem das expectativas de inflação, etc. Infelizmente, entretanto, a semana foi bastante dura, como aliás tem sido uma rotina e, hoje, sexta-feira, não estou muito no clima para escrever algo muito longo. Para não passar em branco, entretanto, resolvi fazer esse breve post de comemoração pelo Real, uma moeda que tem resistido a inúmeros testes de stress e que mesmo com fraturas expostas, ainda continua de pé.

grafico01

O gráfico acima é para nos lembrarmos do que o Real nos retirou, de uma hiperinflação. Mas para ficarmos alertas, entretanto, é preciso dar um zoom nos últimos anos, como faço abaixo.

grafico02

Em junho de 1999, adotamos formalmente o regime de metas para inflação. Nele, o Banco Central calibra a taxa de juros nominal de modo que a taxa de juros real fique próxima da taxa neutra. Isso garante que a política monetária não gere pressão sobre o hiato do produto, bem como mantenha as expectativas de inflação ancoradas à meta. Infelizmente, como sabe o leitor, nada disso faz parte da realidade brasileira há alguns anos. Em outras palavras, abandonamos o regime.

Logo, fica a lição: é preciso voltar aos princípios, recuperando a meta e as outras duas pernas do que ficou conhecido como tripé macroeconômico, o superávit primário e o câmbio flutuante. Não é condição suficiente para o país voltar a crescer, mas extremamente necessária. Tomare que consigamos!

Vida longa, Real! 🙂

Feitiço do tempo: 20 anos de plano Real.

By | Artigos de Economia

No último dia 1º de julho o Real completou 20 anos de existência. Fruto de engenhosidade técnica e empenho político, a reconstrução da moeda era um primeiro passo para tornar a economia brasileira normal. A partir da estabilidade seria possível enfrentar o desafio do crescimento econômico sustentável. Duas décadas depois, conseguimos avançar? Ou, pelo contrário, continuamos presos ao “Dia D”?

Reconstruir a instituição da moeda passa por recuperar suas três funções: meio de troca, reserva de valor e unidade de conta. Para isso, primeiro era preciso “zerar” a memória inflacionária dos agentes. Segundo, era necessário conduzir a política econômica por meio de regras e aprovar reformas estruturais que tornassem a economia mais competitiva, como amplamente documentado pela evidência empírica. Aquele foi alcançado com a URV; estes, entretanto, foram alcançados apenas parcialmente.

Entre julho de 1994 e maio de 2014 a inflação brasileira acumulada foi de 360%, medida pelo nosso principal índice, o IPCA. Muito ou pouco? Se comparada aos 916% de inflação em 1994, ela é pouca. Mas se comparada à inflação acumulada de 60% nos Estados Unidos, no período total, a nossa é seis vezes maior. Ou seja, leitor, nossa inflação ainda é bastante elevada, para os atuais padrões vigentes no mundo. Muito em função do eterno debate sobre como melhor conduzir a política econômica ou se as reformas são mesmo necessárias.

Você pode comprovar isso lendo os cadernos de economia dos jornais. Estará lá, faça chuva ou sol, alguém apresentando teoria alternativa sobre a inflação. O debate sobre as causas e as diversas formas de manter a inflação sob controle continua a empolgar um bom contingente de analistas. Passadas duas décadas da criação do Real. Por quê?

Ainda que haja reconhecimento sobre o engenho que representou o plano, diversos são os analistas contrários à política econômica que se seguiu. Em particular, o tripé macroeconômico (superávit primário, regime de metas e câmbio flutuante) foi exaustivamente criticado, não apenas por economistas, mas também por industriais e sindicatos de trabalhadores. Alegava-se, dentre outras coisas, que os juros eram altos apenas por convenção e essa era a causa maior para o baixo crescimento da economia brasileira.

Esse diagnóstico levou o atual governo a constituir a “nova matriz econômica”. Dentre outras coisas, esse conjunto de intenções fez cair a taxa básica de juros para sua mínima histórica e manteve o câmbio administrado em uma banda ao longo de boa parte de 2012 e retomado desde agosto do ano passado com os leilões de swap. O resultado concreto já era antevisto no livro-texto: a nova matriz gerou menos crescimento e mais inflação. Por quê?

A resposta é de uma ingenuidade desconcertante: o crescimento econômico deriva de outras coisas que não a política econômica. A despeito disso, há muitos analistas se comportando como o personagem de Bill Murray, no clássico “Feitiço do Tempo”, presos a questões que deveriam ter ficado para trás, com a hiperinflação. Justamente por isso, avançamos muito pouco na agenda que se impunha com a estabilidade: condução da política econômica por meio de regras e, principalmente, a continuação das reformas estruturais.

O crescimento econômico depende de outras coisas que não a política econômica, tais como acumulação de capital, aumento da produtividade da economia e incremento de mão de obra qualificada no processo produtivo. Derrotada a hiperinflação, essas deveriam ser as preocupações principais dos analistas. Ao invés disso, nos vinte anos do plano, há ainda os que debatem sobre as causas da inflação e sobre o melhor jeito de controlá-la. Até quando uma parte de nós estará presa ao “dia da marmota”?

(*) Publicado em 02/07/2014.

O PIB crescerá abaixo de 4% em 2011

By | PIB

O IBGE divulgou hoje a Produção Industrial Mensal referente ao mês de março. Abaixo segue uma tabela com o resumo dos cinco números-índices divulgados, tanto para fevereiro quanto para o último dado.

O IBGE chamou atenção no seu "comunicado à imprensa" que no acumulado de três meses o índice mensal dessazonalizado registrou uma alta de 2,8%. Para o instituto isso evidenciaria uma "aceleração no ritmo produtivo", dado que em janeiro a aceleração frente à dezembro foi de 0,3% e em fevereiro foi de 2%, frente a janeiro. Como nesse ano o carnaval caiu em março, o número de 0,5% na margem deve ser relativizado. Em outras palavras, a expansão da indústria estaria se consolidando, após um 2010 de franca diminuição do ritmo - novamente na margem.

Entretanto, se a gente olha o acumulado em 12 meses (vide gráfico abaixo) nota-se uma diminuição de ritmo, pontuada desde outubro do ano passado - fenômeno igualmente observado pelo IBGE. O que parece estar ocorrendo com esse índice é que dada a base fraca do período anterior (por conta da crise), o acumulado aumenta até outubro, se estabiliza, e começa a diminuir a partir de então, refletindo uma base de comparação maior. Isso já estava precificado pelo mercado, dado que os aumentos verificados anteriormente refletem um uso da capacidade ociosa deixada pela crise. A continuação de crescimento daqui para frente dependeria de novos investimentos em aumento da capacidade instalada. E isso só ocorrerá com expectativas positivas para o cenário futuro.

O Banco Central apontou, tanto no Relatório de Inflação quanto na própria ata divulgada semana passada, que o crescimento brasileiro se encaminha para "patamares mais compatíveis" com o produto potencial. Não necessariamente, portanto, estaria ocorrendo uma desaceleração mais profunda do nível de atividade, mas apenas uma acomodação a patamares mais adequados. O índice que mede o acumulado no ano, mês a mês, também indica uma tendência de declínio das taxas de crescimento, refletindo a mesma tendência apontada no parágrafo acima.

Como o mês de março foi muito contaminado pelo período festivo, o número de 0,5% não é um bom indicativo se na margem estaria ocorrendo ou não uma "aceleração do crescimento". Justamente por isso o IBGE pontuou o acumulado no trimestre do índice dessazonalizado: 2,8% seria um número respeitável. Desse modo, o que se vê é que de fato a produção industrial parece não se arrefecer frente aos problemas mais estruturais provocados pela taxa de câmbio sobreapreciada. Isso é um dado positivo a ser retirado da pesquisa.

Entretanto, ainda não se pode concluir que a desaceleração da economia não é um fato preocupante. A projeção de 4,5% do Banco Central - contida ainda no (problemático) Relatório de Inflação divulgado em março - me parece um pouco "otimista demais", dado que está muito influenciado por quatro coisas: i) o cumprimento integral do superávit primário; ii) "sobrevalorização" das medidas prudenciais; iii) peso elevado ao choque de oferta externo; iv) menor ritmo de elevação da taxa básica de juros.

Como pode ser lido na ata do COPOM divulgada na semana passada, "o ajuste total da taxa básica de juros será suficientemente prolongado". E, não tenha dúvidas leitor, isso terá impacto nos índices de confiança dos empresários. Dada a defasagem embutida nos mecanismo de transmissão da política monetária, é possível prever que a desaceleração da economia brasileira irá além do previsto inicialmente pela autoridade monetária. Trocando em miúdos: dificilmente cresceremos a 4,5% em 2011. O mais provável é que o PIB fique mesmo entre 3% e 4%, como já admite, por exemplo, o quase sempre otimista grupo de conjuntura do IE/UFRJ. Vale concluir, portanto, que uma vez mais se repetirá a correlação estreita entre ciclos de aperto monetário e redução de crescimento do PIB no Plano Real.

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