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poupança Archives - Análise Macro

Poupança, Investimento e Balanço de Pagamentos

By | Comentário de Conjuntura

No Comentário de Conjuntura da semana passada, eu falei sobre a baixa taxa de poupança brasileira e a relação disso com o juro de equilíbrio da economia. Hoje, quero continuar no tema da poupança, mas relacionando a mesma à taxa de investimento e ao balanço de pagamentos. Relações importantes que ensino no nosso Curso de Teoria Macroeconômica. Para começar, devemos carregar alguns pacotes do R.


library(tidyverse)
library(sidrar)
library(scales)
library(png)
library(grid)
library(zoo)
library(rbcb)
library(gridExtra)

Na sequência, eu pego os dados de poupança, Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) e PIB do SIDRA/IBGE.


## Pegar dados de Poupança vs. Investimento
tab1 = get_sidra(api='/t/2072/n1/all/v/933,940/p/all')
pib = tab1$Valor[tab1$`Variável (Código)`==933]
poupanca = tab1$Valor[tab1$`Variável (Código)`==940]
fbcf = get_sidra(api='/t/1846/n1/all/v/all/p/all/c11255/93406/d/v585%200')$Valor

A seguir, coloco as séries no mesmo tibble, já acumuladas em 4 trimestres e normalizadas pelo PIB.


dates_1 = seq(as.Date('1996-01-01'), as.Date('2019-09-01'), by='3 month')
dates_2 = seq(as.Date('2000-01-01'), as.Date('2019-09-01'), by='3 month')

df1 = tibble(dates=dates_1, fbcf=fbcf)
df2 = tibble(dates=dates_2, pib=pib, poupanca=poupanca)

data = inner_join(df1, df2, by='dates') %>%
mutate(tx_poupanca = (poupanca+lag(poupanca,1)+lag(poupanca,2)+
lag(poupanca,3))/(pib+lag(pib,1)+lag(pib,2)+lag(pib,3))*100) %>%
mutate(tx_investimento = (fbcf+lag(fbcf,1)+lag(fbcf,2)+
lag(fbcf,3))/(pib+lag(pib,1)+lag(pib,2)+lag(pib,3))*100) %>%
transform(dates = as.yearqtr(dates))

O gráfico a seguir ilustra o comportamento da taxa de poupança e da taxa de investimento (em bases trimestres) ao longo do tempo.

Como se vê, há um gap entre poupança e investimento. Aquela é menor do esta. Macroeconomicamente, essa diferença é fechada através de um déficit na conta corrente do balanço de pagamentos que é igual à poupança externa positiva. O saldo das transações correntes pode ser baixado através do sistema de séries temporais do Banco Central como abaixo.


stct = get_series(23081, start_date='2000-01-01')

Também pegamos, pelo lado da conta financeira do balanço de pagamentos, o investimento estrangeiro direto no país e o investimento em carteira.


iedt = get_series(23265, start_date='2000-01-01')
ict = get_series(23285, start_date='2000-01-01')

A seguir tratamos e juntamos os dados, de modo a torná-los comparáveis com o gráfico que fizemos acima.


data2 = inner_join(stct, iedt, by='date') %>%
inner_join(ict, by='date') %>%
mutate(tx_stc = -(stct$`23081`+lag(stct$`23081`,1)+lag(stct$`23081`,2)+
lag(stct$`23081`,3))/(pib+lag(pib,1)+lag(pib,2)+lag(pib,3))*100) %>%
mutate(tx_ied = (iedt$`23265`+lag(iedt$`23265`,1)+lag(iedt$`23265`,2)+
lag(iedt$`23265`,3))/(pib+lag(pib,1)+lag(pib,2)+lag(pib,3))*100) %>%
mutate(tx_ic = (ict$`23285`+lag(ict$`23285`,1)+lag(ict$`23285`,2)+
lag(ict$`23285`,3))/(pib+lag(pib,1)+lag(pib,2)+lag(pib,3))*100) %>%
transform(date = as.yearqtr(date)) %>%
as_tibble()

Na sequência, plotamos um gráfico como abaixo.

O Brasil é historicamente um usuário de poupança externa. Na série antiga do balanço de pagamentos do Banco Central, apenas em 12 anos tivemos saldo em conta corrente positiva. Isso significa que esse déficit em conta corrente deve ser financiado. A conta financeira do balanço de pagamento é a responsável por esse financiamento.

Grosso modo, podemos financiar o déficit em conta corrente com investimento direto ou com investimento em carteira. Aquele, teoricamente, é alocado no aumento da capacidade produtiva do país, enquanto esse seria apenas alocado em ativos financeiros, como ações e títulos públicos. Como é possível ver no gráfico, o país mantém um IED acima do déficit em conta corrente, o que é suficiente, portanto, para financiá-lo integralmente. Não obstante a queda de juros e a fuga recente dos estrangeiros do mercado de capitais, há ainda também saldo positivo no investimento em carteira.

Isso posto, aquela diferença entre poupança e investimento domésticas está sendo financiada, basicamente, via IED, o que é salutar para a economia brasileira. Aumentar o fluxo de IED ao longo do tempo, obviamente, vai depender da continuação da agenda de reformas, melhorando, por exemplo, o marco regulatório da infraestrutura.

O déficit em conta corrente, portanto, pode continuar existindo, desde que o país não o financie com hot money, o capital volátil que vem aqui apenas para arbitrar juros, por exemplo. Para isso, é preciso que o país dê continuidade à melhoria do ambiente de negócios. Por todos os lados que se olha, você verá a necessidade da agenda de reformas. Parece que só bicho grilo, político populista e economista heterodoxo não conseguem enxergar isso... 🙂

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(*) O script completo do Comentário estará disponível logo mais no Clube do Código.

Poupança, modelo "clássico" e modelo keynesiano: notas didáticas.

By | Ensino de Economia

Ontem, em aula sobre o modelo neoclássico pré-keynesiano (geralmente chamado de modelo clássico) eu fiz uma alusão a poupança. Como se sabe, nesse modelo, a taxa de juros é determinada no mercado de fundos emprestáveis, sendo o preço que equilibra a oferta (poupança dos indivíduos) e a demanda (investimento de firmas e déficit público do governo) por fundos emprestáveis. Em assim sendo, a poupança dos indivíduos, dada as preferências intertemporais entre consumo presente e futuro, é relevante para explicar o incremento de investimento ao longo de vários períodos, o que faz aumentar o nível de estoque de capital. Essa posição teórica confronta-se com a visão keynesiana, onde não se obtém uma "função poupança", dado que a decisão relevante é a de investimento, sendo a poupança um resíduo obtido ex-post o processo produtivo. Na minha concepção pessoal, essa oposição entre um e outro modelo é facilmente resolvida quando se olha para a contabilidade social. Vejamos por quê.

Se existe ou não uma decisão individual de poupança, o fato concreto é que o não incremento da poupança agregada de uma economia faz com que se aumente o déficit em conta corrente. Em outros termos, se a economia investe mais do que poupa domesticamente, deverá fazer uso de poupança externa, visando financiar esse delta de investimento. No limite, dada a ausência desse financiamento, o investimento fica comprometido, e consequentemente, o próprio crescimento da economia. Aumentar a poupança, nesse aspecto, torna-se uma implicação simples das contas nacionais, caso se queira elevar a taxa de investimento da economia.

Eu acredito que essa forma de ensinar a importância da poupança agregada é muito mais simples do que fazer a oposição entre modelos, com concepções teóricas distintas quanto ao objeto em questão. Para o aluno, ao invés de se apegar a essa esquizofrenia que são as tais "escolas de pensamento", torna-se uma obrigação lógica fornecida pela contabilidade nacional a preocupação com a poupança. Isto porque, mesmo no modelo keynesiano, ainda que a poupança seja uma variável obtida ex-post o processo produtivo, ela é importante para gerar funding nos períodos seguintes. Esse fato, entretanto, geralmente passa desapercebido para o aluno, dado que a decisão relevante é a de investimento.

Cria-se, nesse aspecto, um vácuo para o economista em formação, como se o funding para o investimento caisse do céu no modelo keynesiano, algo bem distante da verdade, para dizer o mínimo. Acredito que a posição das contas nacionais cubra essa lacuna e forme policymakers melhores. Enfim, acredito que seja um ponto relevante. 🙂

Por que estamos crescendo tão pouco?

By | Artigos de Economia

O crescimento de 0,9% no terceiro trimestre (acumulado em 12 meses) decepcionou a maioria dos analistas. Na comparação com os demais Brics, foi a menor taxa de crescimento. Isso levanta a questão de que não se trata apenas de uma contaminação da crise internacional. De fato, o pífio crescimento brasileiro no biênio 2011-2012, hoje projetado em 1,9%, está diretamente ligado ao ambiente doméstico. No presente artigo tentamos entender os motivos pelos quais estamos crescendo tão pouco.

Para responder a essa pergunta, é necessário primeiro compreender os determinantes do crescimento no período 2000-2010. Neste, o consumo das famílias manteve um crescimento médio de 3,7%, no acumulado em 12 meses. Isso, causado pelo aumento estupendo da relação crédito/PIB, que saiu de 23,9% em janeiro de 2003 para quase 45% em dezembro de 2010. Ressalto essa expansão do consumo, impulsionada pelo aumento de crédito, dado que o mesmo representou no período considerado mais de 60% do PIB; ou seja, seu aumento foi um forte indutor do crescimento da oferta agregada.

Nesse contexto, o crescimento econômico sustentável depende basicamente de três coisas: estoque de capital, mão de obra qualificada e produtividade. Para o primeiro, quanto maior o fluxo de investimento, maior o estoque de capital, logo maior a capacidade produtiva. Novamente, no período 2000-2010, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) cresceu a uma média de quase 4,6%, respondendo assim ao aumento do consumo. Com isto, foi possível incorporar mão de obra: a taxa de desemprego caiu de 12,9% em março de 2002 para 5,3% em dezembro de 2010 – número muito próximo da mínima histórica. Ademais, como calculam Regis Bonelli e Edmar L. Bacha (em Crescimento econômico brasileiro revisitado, TD nº 22, Instituto de Estudos de Política Econômica), a produtividade total dos fatores (PTF) cresceu a 1,1% no período 2000-2010, principalmente devido às reformas da década de 90 e à estabilização da economia.

Feita essa breve retrospectiva, um último ponto a ser analisado, antes de focar no baixo crescimento recente, diz respeito aos excessos da política econômica anticíclica no pós-falência do Lehman Brothers. O governo brasileiro usou e abusou de incentivos fiscais e monetários. A taxa básica de juros caiu 500 pontos-base, saindo de 13,75% em dezembro de 2008 para 8,75% em julho de 2009. Ademais, houve redução de impostos sobre automóveis e produtos da linha branca, além de elevação dos repasses do Tesouro Nacional ao BNDES. Nesse último, impressiona que o repasse acumulado foi de R$ 40 bilhões em janeiro de 2009, passando para mais de R$ 330 bilhões em agosto de 2012.

O efeito direto desses incentivos foi um aumento médio de 6,1% do consumo no biênio 2010-2011 (acumulado em 12 meses) e de impressionantes 12,1% na formação bruta. Relativizado o fato de que o PIB caiu -0,3% em 2009, ainda assim houve um excesso de estímulos de política econômica no período, possibilitando um crescimento médio trimestral de 5,1% do PIB no período 2010-2011.

Já no biênio 2011-2012, o comportamento do investimento tem sido raquítico, muito em função dos excessos do período imediatamente anterior – e não necessariamente pelos problemas externos. Nos últimos sete trimestres a taxa média foi de -0,5% na margem, fazendo com que a FBCF situe-se abaixo de 19% do PIB. Some-se a isso um mercado de trabalho rodando com uma média de desocupação de 5,3%, considerada por muitos analistas uma taxa menor do que aquela condizente com o pleno emprego. Esses dois fatores, somado aos problemas de produtividade da economia brasileira, explicam por que a oferta não tem reagido aos contínuos estímulos monetários, fiscais, creditícios e agora cambiais do governo federal.

Nesse aspecto, é claro, é preciso ponderar que o canal de crédito anda contaminado pelo excesso de endividamento das famílias – rodando acima de 40% da renda acumulada em 12 meses – e, consequentemente, pelo elevado grau de inadimplência. Entretanto, mesmo que haja um recuo desses dados específicos, o crescimento brasileiro não nos parece ser nada demais no próximo ano.

Isto porque, supondo a abordagem da função de produção para o cálculo do PIB potencial, teríamos que ter uma taxa de investimento de 20% e um crescimento da PTF rodando acima de 2% a.a. para vislumbrar um crescimento sustentável da ordem de 3,8%. Como temos um mercado de trabalho em pleno emprego, ou insistimos nas reformas estruturais que promovam aumento da produtividade, ou estaremos nos condenando a um crescimento bem inferior a esses 3,8%, dado que a FBCF não parece querer ir muito além dos 18%.

 

O problema da baixa poupança

By | Indicação de Leitura Econômica

Falar em poupança no Brasil é quase como cometer algum tipo de "crime intelectual". A panacéia é que basta que o Investimento cresça e que a Poupança aumentará ex-post. Daí que o importante é incentivar a demanda e que tudo estará resolvido. É sério, leitor: tem muita gente que acredita nesse tipo de raciocínio simples e pretensamente keynesiano. Mas há, é claro, o outro lado: o pessoal que pensa nos determinantes da oferta. Entre estes, uma boa carta do IBRE aqui e um bom post do Mansueto aqui. Acho que passou da hora de alguém em Brasília verificar que é preciso cuidar de outras coisas que não apenas de instrumentos fiscais, monetários e cambiais para incentivar a indústria - essa locomotiva tão potente para o crescimento sustentável! 🙂

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