O Banco Central e a turbulência externa

A próxima reunião do Cômite de Política Monetária (o COPOM) está agendada para 30 e 31 de agosto e será marcada pelos últimos acontecimentos na Europa e nos EUA. A pergunta que o mercado está se fazendo nesse momento: a Selic para de subir ou sobe mais 0,25%?

Pelo que já escrevi aqui, e pelo que muitos já escreveram sobre o assunto, a ideia de um aumento de 0,25% está sendo desfeita dia após dia. Mesmo antes da "segunda-feira negra" já havia a sensação no mercado de que o Copom faria a "parada técnica" a partir da reunião de agosto. E, nesse momento, com a inversão na inclinação da Estrutura a Termo, direcionando os juros para baixo, essa é a "aposta" mais razoável do mercado. E, diga-se, não apenas de parada, mas de redução a partir do início de 2012, caso as coisas continuem tensas no cenário internacional.

É claro que é preciso alertar o leitor da volatilidade presente na Curva de Juros. É possível que na próxima semana essa tendência se inverta, caso as coisas se acalmem no mercado externo e entenda-se que o "nervosismo" era maior do que os fatos. O cenário mais provável é que os EUA consigam se acertar, após muita discussão entre republicanos e democratas. O grande problema [que ficará mais claro daqui para frente] é a necessidade de estruturar uma união fiscal na Europa, dado que isso depende de negociações políticas muito complexas.

Nesse contexto, a reunião do Copom será feita tendo como pano de fundo a encruzilhada na Europa - e muito menos o problema americano. A assimetria de crescimento que ocorria no Velho Mundo [e que foi apontada em diversas atas da autoridade monetária brasileira] parece convergir para um baixo crescimento. Em outros termos, mesmo a Alemanha, que vinha bem a despeito dos problemas caseiros, já dá sinais de acomodação da atividade. Isso é ruim para o Brasil, porque reduz nosso mercado para exportações e pode provocar mudanças no fluxo de capital.

Além disso, existe o problema básico: a inflação de serviços. Baseada em um mercado de trabalho aquecido e oferta de crédito ainda em crescimento. No primeiro caso é nítido que uma hora a pressão irá diminuir, dado que as empresas já estão investindo menos na margem. Menos investimento, menos produção, menos contratação e, no limite, demissão, farão com que o mercado de trabalho fique menos pressionado, aliviando os índices de inflação. Já no caso do crédito, os bancos já estão sendo mais cautelosos em relação aos empréstimos, dadas as medidas macroprudenciais implementadas em dezembro último. E, além disso, o aumento da inadimplência sugere melhor avaliação de futuros tomadores de empréstimo.

Em outros termos, o cenário para a inflação [como posto pelo BACEN em sua última ata e também no último relatório de inflação] é benigno a partir do quarto trimestre. Com uma piora do cenário externo, seria imprudente aumentar a Selic em 0,25% nessa próxima reunião. O mais sensato é fazer a "parada técnica" agora, dadas as defasagens da política monetária. Vamos esperar o que acontece de fato.

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