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Crônicas Econômicas

A crise é grave e a saída distante

By | Crônicas Econômicas

O IBRE/FGV promoveu o seminário A Agenda de Crescimento do Brasil nos dias 6 e 7 de agosto com um objetivo bastante claro: encontrar uma [ou algumas] saída[s] para as crises [política e econômica] que estamos vivendo. Ontem, já no final de mesas repletas de economistas e cientistas políticos de reconhecida grandeza, minha impressão era que o objetivo estava ainda distante de ser alcançado. A despeito do diagnóstico sobre as causas da atual crise econômica ser claro e da solução ser aparentemente conhecida, o ambiente político parece travar qualquer trajetória de recuperação. Vivemos a ressaca do contrato social estabelecido pela Constituição de 88, em uma economia que não consegue ser mais produtiva. A saída para esse impasse parece distante.

Pode ser um olhar pessimista desse escriba, sempre, claro, há essa possibilidade, mas os fatos não parecem facilitar outra abordagem. Do diagnóstico do economista Paes de Barros de que o aumento da escolaridade dos mais jovens não gerou um aumento da produtividade até a postura contundente do cientista político Carlos Pereira de que "precisamos passar pelo processo de impeachment o quanto antes", as mesas possibilitaram algumas reflexões interessantes. Salvo o economista Braúlio Borges, da LCA, para quem a crise internacional é responsável principal pelas dificuldades que passamos, parece haver consenso que fatores internos nos guiaram, de forma segura, até aqui. Compreendido esse ponto, portanto, o que fazer para sair do atual estágio de prostração?

A agenda de reformas microeconômicas parece se impor não de hoje, mas já há bastante tempo. Melhorar a regulação, permitir que estrangeiros possam aumentar a participação em setores como audiovisual e aviação civil, simplificar o recolhimento de impostos, construir um marco regulatório para investimentos privados em infraestrutura, etc, parecem indicar que o caminho passa por melhorar o inóspito ambiente de negócios brasileiro. Em outros termos, leitor, a saída para a atual crise econômica é conhecida: precisamos passar para um modelo onde a produtividade e o investimento sejam os líderes da retomada. Conseguiremos?

O diabo é que para que essa transição ocorra, devemos construir toda a sorte de consensos políticos. Hoje, infelizmente, isso não se mostra uma agenda possível na Câmara ou no Senado. E, um detalhe importante, na possibilidade remota que consigamos aprovar essa agenda de reformas microeconômicas, seu impacto sobre o nível de atividade não será instantâneo. Dada a deterioração macro, é possível que se perca no horizonte. É como se estivéssemos querendo abastecer um 747 em pleno voo, tentando impedir que ele caia por falta de combustível. Pouco provável que consigamos, acaso nada seja feito.

E o que pode ser feito? Carlos Pereira indica o caminho: períodos pós-impeachment são seguidos de estabilidade econômica e política, segundo a evidência empírica. Os custos de um processo de impeachment, alega o cientista político, geralmente são superestimados. Daí, segue-se que, o melhor é fazer logo, para que possamos dar de encontro com a saída do atual estado de coisas. Mas, questiono, é garantido?

Provavelmente não, dada a variável "lava-jato". O enredo da operação icônica segue para seu clímax político, com figuras proeminentes da vida pública nacional sendo constrangidos pelas investigações. Inclui-se aí os presidentes do Senado e da Câmara. Logo, leitor, feito o impeachment, nada garante que a estabilidade política virá por gravidade. O mais provável é que ainda tenhamos muitos meses de enormes desafios nessa esfera, antes que consensos sejam estabelecidos em direção das reformas necessárias para que o país possa voltar a crescer.

E a economia? Vai piorar muito, antes de melhorar. As projeções do economista Mansueto de Almeida para o primário nos próximos anos, complementada pela expectativa em relação ao crescimento e aos juros implícitos, indicam mesmo uma dívida bruta na casa dos 70% em 2016. Com efeito, o rebaixamento da nota de crédito parece cada vez mais um dado, o que retroalimenta de forma potencialmente destrutiva o ambiente econômico. Em outras palavras, a trajetória da economia é desastrosa. Pode mudar?

Feito o impeachment, presos os políticos, empreiteiros, operadores e demais envolvidos, é o momento do organismo social, político e econômico se recompor. O tecido social, esguiçado diante de tantos golpes, irá sim se reencontrar. Não se sabe, porém, quando e nem por quais mãos. Se aparecerá um novo líder, um novo partido, uma coalização de forças dos políticos que restarem após o término da "lava-jato", não é possível definir. O certo é que o país recuperará em algum momento o caminho de volta ao crescimento. A boa notícia? Fará isso de forma democrática, com instituições funcionando a plena carga. É possível, portanto, que a atual crise seja grave, a mais grave da república, mas que lavada a roupa suja, o país acorde melhor no dia seguinte. Ainda que não saibamos, nem de longe, que dia será esse.

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Ensino heterodoxo: notas de uma testemunha.

By | Crônicas Econômicas, Ensino de Economia

Foi com o entusiasmo de uma criança que encarei a primeira semana de aulas no Instituto de Economia da UFRJ, no campus da Praia Vermelha, há muitos anos. Lembro, com bastante nitidez, das "boas vindas" feitas pelo diretor do IE e pelo coordenador da graduação, ambos ainda professores de lá. Mais precisamente, lembro da palavra plural: "o IE se orgulha de ser uma instituição plural". Hoje, já escaldado pelo significado da expressão, rio de forma silenciosa toda vez que alguém repete o lema. À época, entretanto, o meu entusiasmo em ter passado para uma faculdade estatal - e receber, de bom grado, admito, o subsídio do Erário que vinha combinado com o feito - me impediu de perceber onde estava me metendo. Tive que aprender na prática  o que o tal pluralismo significava.

O pluralismo a que tanto o diretor quanto o coordenador se referiam refletia-se em quase todas as aulas. Um gato, afinal, pode ser preto, branco ou cinza, a depender do gosto de quem está vendo. E assim, em macroeconomia I, matéria que vem logo depois de introdução à macroeconomia, um mix de visões foi dado sobre como lidar com os diferentes problemas macroeconômicos. Em particular, muitas aulas foram gastas, em debates acalorados, diga-se, sobre a tal neutralidade da moeda. Tema, aliás, que seria explorado em muitas outras disciplinas [como economia monetária I e II] e que causaria a estranha sensação de que nós alunos deveríamos aprender a repetir um mantra do tipo "a moeda não é neutra, palavras do Senhor". Ademais, era preciso compreender que os modelos neoclássicos nada tinham a acrescentar ao debate sério sobre política monetária.

Era esse o pluralismo?

O pluralismo na apresentação das inúmeras maneiras de ver e lidar com problemas macroeconômicos era, assim, temperado de forma sutil ou não - a depender do professor - com o ensino do aperto de mão secreto. Professores pós-keynesianos, por exemplo, se esforçavam para que o aluno aprendesse o tal PDE, princípio da demanda efetiva, outro mantra profissional. E assim, modelos de inspiração mais mainstream eram confrontados com o tal PDE. Sem o devido julgamento, sem amplo direito à defesa, tais modelos eram sumariamente rejeitados. Antes ou depois da apresentação das premissas, a depender do gosto do professor.

Para um técnico de telecomunicações, que já trabalhava há alguns anos com o pragmatismo das centrais telefônicas de grande porte, essa forma de apresentar a disciplina foi meio que um balde de água fria. Na escola técnica, afinal, somos treinados a encontrar soluções para problemas reais. Dei-me um problema que te dou uma solução, dizia um simpático professor de sistemas de televisão, em uma relação careta, baseada em fundamentos técnicos bem azeitados.

Já no IE, a relação entre problemas e soluções, em geral, violava a lei mais básica das funções. Ademais, as ditas soluções não eram tão efetivas assim, posto que eram baseadas mais em abstrações e menos em testes empíricos. A academia, assim, ia me parecendo uma torre de Marfim, protegida das dificuldades do mundo real. Parecia repetir o surrado bordão que impera em nossas faculdades de pedagogia: é preciso formar o cidadão crítico. O ensino das quatro operações ou, no caso da economia, dos últimos avanços da profissão, fica ao largo nesse processo...

O desalento era grande quando terminei as três cadeiras obrigatórias de macroeconomia [introdução, macro I e macro II]. Até que me matriculei em curso optativo titulado Teoria da Política Monetária - Análise Macroeconômica III. Olhando pelo retrovisor, não entendo como um curso daqueles poderia ser optativo e não obrigatório, mas, enfim, pode ser apenas o entusiasmo desse escriba...

O professor, Antônio Luis Licha, um argentino radicalizado no Brasil, com o currículo mais "plural" que já conheci: com especialização em matemática feita na sua terra e doutorado em economia na Unicamp, local que já mereceu alguns posts por aqui.

O curso, dividido em 30 aulas, era o ir e vir de modelos. Dadas algumas hipóteses simplificadoras, equações surgiam no quadro negro exibindo relações entre variáveis macroeconômicas. Sistemas eram, com muita musculação, resolvidos, até que uma solução elegante e simples era apresentada. As restrições impostas por aquela solução eram, então, discutidas, assim como suas implicações práticas.

Para um aluno que havia adorado as aulas de eletrônica digital na escola técnica, a derivação de modelos era quase uma festa com direito a open bar. As portas lógicas foram substituídas pelo cálculo diferencial, enquanto as discussões posteriores à construção dos modelos me davam o que não era possível, por questões óbvias, no curso técnico.

Foi pelas mãos de um argentino formado na Unicamp que, enfim, me encontrei na profissão. O curso foi desde as primeiras incursões no mundo da teoria normativa de política monetária aos últimos modelos desenvolvidos nessa área particular da macroeconomia. O uso intensivo de matemática e estatística, temperadas por alguma econometria, era o que faltava para eu poder entrar na macroeconomia de cabeça. Ao invés de todas as visões, queria mesmo era aprender o máximo de modelos possíveis, alavancas sobre as quais iria responder os questionamentos que me fossem apresentados.

O pluralismo a que tanto o diretor quanto o coordenador fizeram questão de ressaltar naquela primeira semana de aulas me foi apenas uma espécie de desculpa para criticar os modelos neoclássicos. Para ser plural, um curso de graduação deve dar uma formação absolutamente convencional aos seus alunos, sem críticas a priori. Como, afinal, formar economistas críticos, sem o devido treinamento sobre modelos mainstream?

As críticas aos modelos neoclássicos, cada vez mais constantes e sem filtro à medida que o curso avançava, iam me parecendo cada vez mais fora de propósito. Elas iam desde as mais canalhas, as que criticavam as tais "hipóteses heróicas" desses modelos, às que exigiam dos modelos o que eles nunca poderiam dar: explicações sobre o sexo dos anjos.

O olhar técnico sobre as coisas da vida e um curso cheio de equações me motivaram a entender tais modelos antes de criticá-los. Só após receber o treinamento adequado, pensava à época, poderia me encaixar em uma das caixinhas, representadas pelos grupos de pesquisa do Instituto. Não sabia eu, entretanto, que depois de ter contato com tais modelos, nenhuma dessas caixas poderia me servir...

E esse, leitor, é o principal conselho que lhe dou, se quer mesmo tornar-se um economista sério: aprenda a teoria econômica mainstream. Depois, se sentir necessidade, busque a crítica. Inverter essa ordem não dá, né? 🙂

pensar

Tempos estranhos

By | Crônicas Econômicas

A sala era mesmo imponente, com objetos de arte circundando todo o espaço. Quadros, vasos chineses, conjunto de chá inglês. A mesa, no centro, harmonizava-se com toda a mobília: de madeira maciça de algumas árvores da Amazônia. O aroma da madeira, inclusive, inundava toda a sala. Completavam o ambiente, luzes indiretas, vindas das paredes. Talvez para não cansar a vista dos tomadores de decisão que por ali passavam duas ou três vezes por semana. Decisões estas que, infelizmente, terão de ser adiadas por um bom tempo...

O carnaval, a essa altura, já tomava conta do Rio de Janeiro. Executivos convertidos em foliões de primeira, segunda ou muitas viagens desciam dos prédios na Rio Branco. Todos se dirigiam para algum barzinho por ali mesmo ou algum bloco pré-carnavalesco na zona sul da cidade. O que se via de uma das duas janelas da sala imponente eram chapéus e mais chapéus típicos de carnaval. Prontamente fornecidos por vendedores que competiam aos berros por seus clientes. Era mais simples assim?

A sala e depois o ir e vir de gente na Rio Branco me entreteram por alguns minutos, enquanto todos os convidados para aquela reunião de emergência se acomodavam à mesa. Conversas paralelas eram entoadas, enquanto não se dava início ao que viria a seguir. Olhares sérios e preocupados só falavam do racionamento, de energia elétrica e água, o duplo choque sobre todos os negócios comandados por aqueles homens e mulheres.

O prólogo veio a calhar, afinal, tudo retrocedeu nas últimas semanas. Foi minha deixa para começar a falar, após uma rápida apresentação. A plateia era composta por investidores de risco, empreendedores, aceleradoras e consultores de tecnologia. Antes que começasse a passar os slides, uma pergunta: há esperança? Antes ou depois da apresentação, respondi. Risos e gargalhadas ecoaram pela sala. Dados os espinhos da economia brasileira, melhor começar assim, leitor.

Um pouco de História para começar a apresentação. Conto como foram os últimos anos. Sendo mais específico, os últimos 20 anos, desde que reconquistamos o privilégio de ter uma moeda. A construção da estabilidade macroeconômica dá mesmo um pouco de paz de espírito a todos os que pensam em sair do Brasil...

Enquanto, aliás, falava do choque cambial de 2002 e da posterior convergência da inflação à meta, olhares esperançosos se colocaram à minha frente. Ali, por suposto, estavam pessoas que dependiam de alguma estabilidade do câmbio para gerar um fluxo de caixa minimamente atrativo para os próximos anos. Ainda que estabilidade e câmbio sejam como água e óleo. Para onde vai o câmbio é, por suposto, uma das perguntas que mais tem sido feita nos últimos tempos.

Só perde para o crescimento. Ele que chegou a ser de 4% entre 2003 e 2010. Hoje, bom, hoje com sorte é de -1% em 2015. Com sorte e sem racionamento, de água e energia. Com isso, bom, há alguns cenários para estudar...

A inflação, que esteve na meta antes da crise, hoje flerta acima de 7%, por conta dos preços administrados, congelados nos últimos anos. Hoje libertos, por força de um déficit primário de 0,6% do PIB. Sem dinheiro para subsidiar energia elétrica, transporte e combustíveis, o jeito é deixar que se ajustem. E devem se ajustar acima de 10%, no conjunto dos 23 preços administrados. A energia elétrica, em particular, acima de 50%.

Voltando ao câmbio, por enquanto, ele ainda termina abaixo de 3 R$/US$ em 2015, mas é difícil prever se isso prevalecerá. Afinal, nas últimas semanas houve rápida deterioração. Os modelos, a propósito, indicam um câmbio médio em contínua deterioração ao longo dos próximos meses, o que impulsiona a necessidade de hedge cambial. E aqui a pergunta mais ouvida: é necessário? Diante do quadro e das perspectivas, sim, infelizmente.

O quadro fiscal, o BNDES, as pedaladas, Levy. Ah, Levy... O cavalheiro da esperança de 10 em cada 10 investidores, hoje, bom, hoje está mais para uma andorinha sozinha não faz... Pois é, estão todos reticentes quanto à capacidade do ministro Levy em conseguir alcançar o superávit primário de 1,2%, saindo de um déficit de 0,6% do PIB. Possível? Cada vez mais difícil, diante de um Congresso hostil e de um governo pouco disposto a cortar gastos. Há, claro, a Lava-Jato como cereja no bolo da paralisia política...

O ir e vir das garçonetes, trocando a água dos participantes, anunciava o que já era previsto. Todos ficam um pouco reticentes com a apresentação de 2015, após o ar esperançoso dos últimos 20 anos. É como aquela parte do filme em que um personagem querido do público falece, alguma tragédia ocorre, um pedaço do roteiro se perde. De fato, os últimos quatro anos...

E os próximos, perguntam os mais ansiosos. Sempre fui um otimista com o Brasil. Já diz o ditado velho e surrado norte-americano que os EUA farão a escolha certa, após tentarem todas as erradas. Talvez se aplique a nós. Afinal, tentamos um monte de coisas sem pé nem cabeça para debelar a inflação, até seguirmos um plano que respeitasse os incentivos econômicos. Coisas [sem pé nem cabeça] essas, diga-se, que voltamos a tentar nos últimos quatro anos, como congelamento de preços. Coisas essas que pareciam sepultadas no cemitério das ideias estapafúrdias. Ademais, tentamos [nós? ou eles?] um monte de incentivos de demanda para gerar crescimento. Será a vez das reformas estruturais para destravar a oferta? Será que, enfim, reformaremos o ambiente de negócios brasileiro?

Voltar ao tripé, permitir as reformas estruturais, dar autonomia às agências reguladoras, melhorar, enfim, o ambiente de negócios brasileiro. Render-se ao capitalismo. Regras claras para o tomador de risco, para o empreendedor, para quem se aventura todos os dias a construir um negócio no Brasil. É isso que irá acontecer?

É o que tem de acontecer, ressalta-se. Mas, para a infelicidade geral da nação, é pouco provável que ocorrerá no horizonte de curto prazo. As consequências da Lava-Jato para a inoperância do governo e do Congresso são imprevisíveis nesse momento. Para 2015/2016, o melhor a fazer é tomar uma postura defensiva: adiar investimentos, se proteger de riscos desnecessários. Nos últimos meses, diga-se, economistas e analistas têm recomendando que se aplique em fundos pós-fixados, atrelados à inflação, que se priorize projetos em outros países, que se aposte em fundos cambiais, etc, etc. Todas, ressalta-se, apostas contra o país.

A sala imponente, a mobília antiga, a luz indireta, a tarde que já virou noite, os olhares reticentes... São tempos estranhos, leitor, não culpe, portanto, o mensageiro. O melhor, nesse momento, é tentar decifrar a mensagem, cobrar reformas, para que as coisas comecem a mudar a partir do próximo ano...

A incômoda independência do banco central

By | Crônicas Econômicas

Um vento gelado tomava conta do Arco do Teles. Apesar disso, todas as cadeiras estavam ocupadas entre as ruelas do espaço, no centro do Rio. Seria assim apenas o início do final de semana, um descanso merecido do trabalho e dos estudos. Seria, não fosse o banco central. A autoridade monetária chegou à mesa pelos lábios de Camila, minha amiga de longa data, que estava de volta à ex-capital, após algumas temporadas em Zurique. Não, Camila não é economista: é designer. De coisas melhores do que bancos centrais independentes: de móveis. Aquelas peças maravilhosas que todo mundo gostaria de ter na sala de estar ou na varanda, para recepcionar os amigos. Camila, entretanto, deixou o trabalho que me dá inveja de lado e lançou a pergunta no ar: o que vocês acham dessa estória de independência do banco central?

Há um prólogo, é claro. Entre um gole e outro de um belo exemplar da uva pinot noir, o papo era animado e todo ele direcionado para a campanha eleitoral. Havia o Marcos, "petista de longa data"; havia a Bia, "marinada pelas circunstâncias"; havia eu, "economista ortodoxo tucano neoliberal que não gosta de crianças"; e havia a Camila, sem partido ou rótulos que possam lhe desmerecer antes mesmo de balbuciar qualquer palavra.

O horário eleitoral entrou na pauta pela Bia, cansada da dicotomia entre PT e PSDB, notadamente a melhor ofensiva dos marinados. Dei de ombro nesse instante porque, simplesmente, estava cansado demais para discutir política àquela altura. E sem economia no meio, tudo fica muito insosso para despertar meu interesse para a política brasileira.

Marcos, então, contra-argumenta pelas vias sociais do governo petista. Lista avanços, ignora retrocessos como o IDEB recém divulgado, se atendo ao nunca antes nesse país. A cereja no bolo é sempre clara: o governo do PT foi muito melhor do que FHC. O roteiro da crítica petista é tão sempre igual que me parece sair de uma cartilha, utilizada por todos os governistas e seus simpatizantes. O governo FHC parece  um porto seguro para o PT, um paraíso sobre o qual tudo, simplesmente tudo, parece ser defensável.  Tudo tão cansativo que preferi olhar o tumulto da sexta-feira, me concentrar no samba de fundo que àquela altura era de uma cadência desconcertantemente graciosa. Até que Camila me olha com ares de reprovação: e você, Vítor, não vai defender o PSDB? 

O verbo defender não deveria ser conjugado nessas circunstâncias. Em uma sexta-feira, no Arco do Teles, por que cargas d´água eu, logo eu, deveria defender o governo FHC? Porque você é o único tucano entre nós, ora, questiona Camila. Tucano, eu? Ué, não é? Não, só apoio um possível governo Aécio. E isso não é ser tucano? Que eu saiba, não.

Camila manda eu parar de enrolar e defender logo o PSDB. Não o faço, porque o rumo da prosa iria por vias desgastantes. Eu mostraria os benefícios das reformas feitas nos anos 90. Argumentaria que elas não tinham nada de neoliberais. Ousaria em prever que fosse quem fosse o social democrata eleito, as reformas teriam sido realizadas, afinal, a economia brasileira tornou-se tão planificada ao longo do período 1930-1980, que mais parecia uma economia socialista. Para importar o pinot que estávamos tomando, por exemplo, seriam necessários alguns formulários e uma dose de dor de cabeça, antes que qualquer gota do vinho fosse apreciada pelas papilas degustativas!

A defesa, entretanto, seria ignorada por Marcos e por Bia porque, afinal, eles já têm seu voto definido e ignoram solenemente qualquer defesa do governo FHC. Se há algo indefensável para eles, esse algo é o governo FHC. Marcos, então, citaria o desemprego, as greves, a insatisfação popular da época. Falaria que o país quebrou três vezes, um slogan que parece estar na tal cartilha. E Bia provaria seu argumento sem argumentar, após a intervenção de Marcos, que por isso voto em Marina: não aguento mais essa dicotomia entre PT e PSDB. 

E ao pensar em tudo isso, dou um sorriso leve para Camila e peço para ela contar como foi a estadia na Suíça. Estórias dos Alpes são melhores narrativas para uma sexta-feira à noite. Ela não cede, mesmo que tenha muita coisa para dizer sobre seus longos sete anos por lá. Dividida entre o grupo no whatsapp e a conversa do Arco do Teles, propõe que discutamos a independência do banco central. Queria entender melhor o assunto, ao que parece uma desculpa para interceder na conversa do whatsapp: novos tempos em que podemos estar em lugares múltiplos...

Marcos é o primeiro a dar uma opinião. Seca, sem direito à réplica e curiosamente convergente a sua tese: sou contra porque é antidemocrática. Ora, diz ele, não elegemos o presidente do banco central, porque cargas d´água ele deveria ser independente para fazer o que quiser? 

A palavra antidemocrática ressoou pela mesa. Tempo de eu ir ao banheiro; afinal, depois dessa, o melhor a fazer é pedir um tempo ao juiz, para recobrar os sentidos. Opiniões como essa me deixam em uma encruzilhada. Fico entre perder o amigo ou perder a piada. Ao voltar, entretanto, Bia me salva e diz: antidemocrática? Ué, o poder judiciário, pela sua análise, também o é, não? Não, diz Marcos, o judiciário é outra coisa, tem a ver com independência do executivo, com a técnica do direito, que nem todos são obrigados a conhecer. Camila, então, questiona: mas se é assim, por que o banco central não deveria ser independente do Palácio do Planalto? As pessoas sabem mais economia do que direito?

 Marcos vai para a moral: o conceito de independência é imoral, porque as pessoas elegem um governante para que ele dê cabo de suas preferências. E questiona: por que as pessoas não deveriam escolher juros mais baixos? Por que a decisão sobre juros deve ficar sob a responsabilidade de um banqueiro central independente? Ora, questiona novamente Camila, da mesma forma que você usa a "técnica do direito" deve existir uma "técnica da economia" para justificar isso daí que você está falando, não é Vítor?

Pois é, não escapei. E como explicar um tema tão complexo como esse, autonomia/independência do banco central, saboreando um bom vinho em pleno Arco do Teles?

Digo complexo porque nem mesmo todos os economistas conhecem o tema. Apenas os economistas especializados em teoria monetária têm alguma opinião séria, baseada em evidências concretas, para defender uma ou outra posição - independência ou não do banco central. Significa dizer que mesmo que você ouça algum economista sobre o tema, isso não significa que ele conheça, de fato, sobre o que está falando. Logo, se entre economistas o assunto não é lá muito conhecido, o que dizer entre pessoas que não têm a menor obrigação de estudar isso? Como tornar algo didático o suficiente para atingir pessoas que, em geral, não se interessariam por isso? Como não se deixar levar pela propaganda partidária e entender que o assunto é dos mais sérios em se tratando de política econômica?

- Camila, me responda uma coisa: você entregaria o controle do vírus Ebola a um economista? - pergunto, com segundas intenções.

- Claro que não! A um médico especializado no assunto, provavelmente. - ela responde em tom enfático.

- E o controle da inflação, você entregaria a quem? - continuo com segundas intenções.

- Controle da inflação? Mas não estávamos falando de independência do banco central? - questiona, um pouco confusa.

- E continuamos falando sobre isso, afinal ser contra a independência do banco central é ser contra o controle da inflação, o único imposto que pode ser criado sem maiores ruídos. - inicio o argumento.

Bia fica intrigada e me questiona com um "como assim". Marcos está distante a essa altura, provavelmente ouve o samba e presta atenção em duas gringas que arriscam alguns passos há três mesas de distância. Parece mesmo ser melhor sambar para espantar o frio do que tecer comentários sobre assunto dos mais complexos. Mas já que estamos aqui, explico a Bia e a Camila o porquê dos bancos centrais terem, necessariamente, de ser independentes dentro do regime de metas de inflação.

- Vocês concordam que deve existir uma meta de inflação? - questiono as duas.

- Sim - elas respondem em uníssono.

- Imagine, então, que eu lhe dou uma meta no seu trabalho, mas não lhe dou autonomia para persegui-la, ou seja, que você possa usar os recursos de que dispõe para alcançar essa meta, o que vai acontecer, provavelmente?

- Provavelmente não vou conseguir entregar essa meta! - dispara Bia.

- Ora, se ao banco central cabe perseguir uma meta de inflação, ele não deveria ter autonomia para isso? De usar os instrumentos de que dispõe para controlar a liquidez da economia? Equilibrar a quantidade de meios de pagamentos com as necessidades comerciais e financeiras da economia? Elevar o preço do dinheiro toda vez que ele estiver sendo utilizado em excesso, causando inflação? É apenas disso que a independência do banco central trata: de dar liberdade ao banco central para que ele cumpra a meta de inflação. Agora, isso não tem nada de antidemocrático, dado que quem define a meta de inflação é a sociedade, via políticos democraticamente eleitos. E também não é um conceito moral: ele é técnico. A independência apenas evita que o governo utilize de forma irresponsável os juros, causando inevitavelmente mais inflação para a economia. Exatamente o que acontece nesse momento. Em agosto de 2011, por exemplo, o governo interviu no banco central, fazendo-o reduzir os juros de forma artificial, para tentar reanimar a economia que se mostrava em queda desde o final de 2010. Em abril de 2013 não só foi necessário voltar a subir os juros, como a inflação vai fechar o quarto ano longe da meta. Sem independência, o banco central está sujeito aos desmandos do governo eleito. Não me parece ser um bom negócio, logo, repito, ser contra a independência do banco central é ser contra o controle da inflação, o único imposto que você pode criar sem maiores ruídos da sociedade. Quando se percebe o estrago que ele faz, em geral, já é tarde demais...

Bia e Camila se entreolharam em silêncio, concordando com as explicações, enquanto eu apreciava a intensidade do bom pinot. O restante da noite, leitor, foi dedicado às aventuras de Camila em Zurique, um assunto bem melhor para se discutir em uma sexta-feira à noite, não é mesmo? 🙂

 

Os tolos da esquerda

By | Crônicas Econômicas

O título me renderá censura automática, eu sei, mas peço que persevere, só um pouco. Criticar a esquerda no Brasil é como ser contra os pobres, a favor da "injustiça social" (sic), das desigualdades etc. Nada mais tosco, de saída. Bem como nem todos no lado de cá são tão esclarecidos assim, há no lado de lá muita gente que ainda não aprendeu a usar o excel. Não vou me ater aqui, alerto, aos que (ainda, meu Deus!) querem romper com o FMI e querem moratóra da dívida pública. Esses, realmente, têm que sair da adolescência. Tentarei, do contrário, nesse breve post, "falar" dos que querem tudo, mas nunca dizem como chegar lá. Como apontei em post recente, não sou contra, a priori, políticas sociais: como social-liberal sou a favor de políticas públicas que possibilitem maior igualdade de oportunidades. A questão relevante, nesse aspecto, é como pagar a conta desses bens e serviços públicos a serem ofertados pelo Estado?

Há na esquerda um grupo de pessoas que ainda não entendeu que todo gasto tem que ser financiado: via tributos, via emissão de títulos ou emissão de moeda. Cada uma dessas formas de financiamento retira renda da sociedade - mesmo a última, não se iluda. Desse modo, a esquerda, se quer participar de um debate sério, deve sempre se perguntar como pagar a conta de sua agenda social. Novamente, não sou, a priori, contra o sonho da Constituição "cidadã" de 1988. O que devemos pensar é: i) como podemos construir uma economia que consiga gerar renda suficiente para pagar por essa agenda; ii) como podemos tornar o Estado eficiente, para que ele tribute de um lado, mas consiga retornar esses impostos em oferta de bens e serviços de qualidade. São coisas difíceis, não se engane.

Você, afinal, pode incluir o que quiser nessa sua agenda social: previdência, segurança, saúde, educação, renda mínima (bolsa família), habitação etc. Pense em tudo o que promoveria maior igualdade de oportunidades entre as pessoas, isto é, que minimizaria as desigualdades geradas por uma economia de mercado, pelo tal capitalismo. Pensou? Bacana: agora eu lhe pergunto como vamos pagar por tudo isso? Você tem que lembrar o seguinte: o Estado brasileiro hoje já arrecada 37% da renda gerada anualmente pela sociedade. Com esse dinheiro, ele oferta os bens e serviços que você tem notícia. A qualidade, bem, ela é ruim para a maioria deles. Então, se você quer aumentar a quantidade desses bens e serviços ofertados pelo Estado - e não falamos da qualidade - você tem que me dizer como vai financiar isso. Novamente: via aumento daqueles 37%, aumento da dívida pública (que alguns de vocês querem decretar moratória) ou emissão de moeda. Por partes.

Aumentar a arrecadação via impostos é relativamente fácil se o governo tiver maioria no Congresso. A atual presidente já manifestou, por exemplo, o interesse em elevar tributos esse ano, para cumprir a meta de superávit primário. Mas você acha mesmo que aquele povo que foi às ruas em junho/julho vai topar pagar, por exemplo, 50% de tributos para bancar a expansão dessa agenda social?

Outra forma de financiar essa agenda social é aumentando a dívida pública, isto é, emitindo títulos. Essa forma, entretanto, envolve dois problemas, ao menos. Em primeiro lugar, se você aumenta a dívida pública, usa poupança privada, que poderia financiar investimentos privados e, portanto, aumentar a oferta de bens e serviços. Ademais, dívida pública maior hoje implica em maiores pagamentos futuros, acaso você não seja daqueles que querem moratória, não é mesmo?  Logo, você fará, nesse caso, um "saque" sobre a renda das gerações futuras, seus filhos e netos. Será que eles estão de acordo?

A outra forma corriqueira de financiar uma ampla agenda social é simplesmente mandar a Casa da Moeda trabalhar em três turnos. Ou seja, emitir mais dinheiro. Tem gente que ainda acha essa opção interessante, então a coloquei. O problema de emitir mais moeda é que você vai gerar mais inflação, isto é, afetará o poder de compra dessa nota de 100 no seu bolso. Não é um conceito simples, a inflação, mas imagine que se ela é de 3% ao mês - como na Argentina hoje - é como se no mês que vem você tivesse apenas 97 reais no seu bolso. E assim o poder de compra da sua moeda iria lenta ou rapidamente para o ralo.

Aumentar gasto social, leitor, envolve essas três formas clássicas de financiamento. Você deve escolher uma delas. Suponhamos que você escolha aumentar impostos, vou imaginar que você seja um cara de boa fé. Então, lembre-se o seguinte: ao aumentar os impostos no Brasil de hoje, você reduzirá ainda mais a competitividade da economia brasileira. Hoje somos o 116º país, pelo Banco Mundial - aquele mesmo que alguns de vocês desprezam -, em competitividade. Mais impostos para arrecadar, em uma das burocracias mais retrógradas do mundo, afastará ainda mais investidores e empreendedores. E isso tornará os preços mais elevados, dada a oferta menor e a demanda crescente - lembre-se do aumento de transferências e da renda mínima para as famílias mais pobres, por exemplo. Em outros termos, você aumentou impostos e elevou os preços, de uma tacada só! Bom programa você tem hein, rapaz!

A esquerda tola quer ir à Glória, mas não quer pagar o bonde. Aumentos de gastos sociais concomitantes com maior eficiência do Estado e aumento da competitividade das empresas exigem uma agenda positiva. Aquele papo de neoliberal de privatizar a infraestrutura - que o governo tem feito, diga-se -, implementar reformas estruturais (tributária, jurídica, política, trabalhista, do ambiente de negócios...), melhorar a gestão da máquina pública e conduzir as políticas monetária e fiscal com parcimônia são pré-requisitos para que se construa uma agenda social. Do contrário, aumentar gastos sociais sem a contrapartida da melhoria do ambiente de negócios é sinônimo de fracasso retumbante. É o caminho mais curto para se tornar a próxima Argentina ou, pior, a próxima Venezuela. De outra forma, é possível implementar uma economia social de mercado, que trate tanto de igualdade de oportunidades para seus cidadãos como elevação da competitividade das empresas. Basta você parar com sua ideologia torpe que as coisas poderiam ser melhores.

Pare com esse discurso tosco de querer um monte de bens e serviços públicos sem se preocupar em como pagar por eles. Pare de querer reivindicar passe livre sem se preocupar que se não é na tarifa, é no imposto que você vai pagar. Não acredite nesses partidos grotescos de esquerda que prometem o reino dos céus na Terra, mas nunca mostram o caminho até lá. Há, afinal, tolos nos dois lados, uns que querem Estado mínimo e não se preocupam com igualdade de oportunidades, outros que querem Estado máximo e não se preocupam em como pagar por isso. A discussão relevante, desse modo, é convergir os dois lados para o ponto onde a igualdade de oportunidades é máxima, sujeita, claro, ao orçamento público equilibrado e a maior competitividade das empresas. Só assim conseguiremos tornar o Brasil um país mais desenvolvido, no sentido amplo do termo.

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