O ciclo de análise de dados: um roteiro para resolver problemas

O ciclo de análise de dados organiza um projeto em seis etapas: objetivo, dados, exploração, modelagem, validação e implantação. Percorremos cada uma delas com um caso de queda de engajamento, mostrando o que cada fase entrega e quais ferramentas usa.


O ciclo de análise de dados separa um projeto em seis etapas, cada uma com uma entrega própria: objetivo, dados, exploração, modelagem, validação e implantação. Só passamos para a seguinte quando a anterior produz o que a próxima precisa: sem o objetivo definido não sabemos que dado buscar, e sem a tabela pronta não há o que modelar.

Neste artigo percorremos as seis etapas uma a uma: o que cada uma entrega, quais habilidades exige e com que ferramentas se trabalha. O fio condutor é um caso de queda de engajamento numa empresa de streaming, retomado em todas as etapas.

Diagrama do ciclo de análise de dados com as seis etapas: objetivo, dados, exploração, modelagem, validação e implantação
O ciclo de análise de dados e suas seis etapas. Elaboração: Análise Macro.

As setas do diagrama voltam da validação para os dados, e é isso que faz do método um ciclo. Quando a solução testada não resolve o problema, refazemos o percurso sabendo qual variável faltou ou qual modelo não serviu.

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As seis etapas do ciclo aplicadas a um problema real, do objetivo à implantação.

Por que trabalhar com um ciclo

Analisar dados envolve idas e vindas. Tentamos uma abordagem, ela não funciona, e voltamos alguns passos sabendo algo que antes não sabíamos. Com as etapas nomeadas, conseguimos dizer em qual delas o projeto parou e o que já foi descartado.

Os obstáculos de um projeto de dados cabem em quatro categorias: dados indisponíveis, dados incorretos, dados ausentes e objetivos mal definidos. Os três primeiros são técnicos: buscamos outra fonte, corrigimos o registro ou tratamos o campo vazio.

O quarto sai mais caro porque só se revela na entrega. Uma análise tecnicamente impecável pode responder a pergunta errada, e quem percebe é quem recebe o resultado, com o trabalho já pago. É por isso que o ciclo começa pelo objetivo e não pelos dados.

Etapa 1: objetivo

Etapa de objetivo no ciclo de análise de dados: definição do problema
A primeira etapa define o problema a ser resolvido. Elaboração: Análise Macro.

A primeira etapa transforma uma queixa da área de negócio numa pergunta que os dados conseguem responder. O trabalho aqui é de conversa, não de código: quem convive com o problema sabe o que já foi tentado e o que a empresa considera um resultado aceitável.

No nosso exemplo, o setor que monitora o engajamento de uma empresa de streaming percebe queda no tempo de uso e no número de títulos assistidos. O problema é a queda de engajamento, e o objetivo passa a ser aumentá-lo para evitar cancelamentos de assinatura.

Esse enunciado já restringe o que vem depois. Ele fixa a variável que queremos mover, o tempo de uso, e o resultado que mede o sucesso do projeto, a assinatura mantida.

O que a etapa cobra é conhecimento do negócio e clareza na conversa. Sem confirmar com a área o que significa engajamento e qual queda preocupa, corremos o risco de entregar, três semanas depois, a resposta de outra pergunta.

Etapa 2: dados

Etapa de dados no ciclo de análise de dados: identificação e coleta com R, Python e SQL
A segunda etapa identifica e coleta os dados úteis ao problema. Elaboração: Análise Macro.

Com o problema definido, identificamos quais dados podem respondê-lo e como obtê-los. Os internos exigem acesso aos bancos da empresa e permissão para usá-los; os externos exigem encontrar uma fonte pública confiável e aceitar o recorte que ela oferece.

Internamente, o exemplo do streaming pede o histórico de tempo de uso, horas assistidas, categorias e temas dos títulos, elenco e direção, além de dados de região, idioma e faixa etária dos usuários. Externamente, dados dos concorrentes ajudam a testar se o engajamento migrou para outro serviço.

A programação entra pela primeira vez aqui. Consultar bancos de dados, chamar APIs e ler arquivos são as tarefas da coleta, feitas com R, Python e SQL.

O SQL é a linguagem de consulta com que pedimos dados a um banco relacional, aquele que guarda a informação em tabelas ligadas entre si. Mostramos o essencial dela em Entendendo o basicão de SQL para usuários de Python.

A coleta também falha, e nem sempre com uma mensagem de erro: uma série que muda de unidade no meio do período, um endpoint que devolve resposta vazia e código de sucesso. Tratamos desses casos em Como lidar com erros de coleta de dados.

Etapa 3: exploração

Etapa de exploração no ciclo de análise de dados: processamentos e análise exploratória
A terceira etapa organiza os dados e procura padrões. Elaboração: Análise Macro.

A exploração descreve o que há nos dados antes de qualquer modelo: como cada variável se distribui, quais se movem juntas e quais observações destoam das demais. Uma variável que se move junto com o alvo é candidata a entrar no modelo; uma que não varia nunca pode sair.

Antes disso, os dados brutos precisam virar uma tabela em que cada linha é uma unidade de observação e cada coluna é uma variável. No exemplo do streaming, cada linha é um assinante e as colunas são o tempo de uso, as categorias assistidas e a idade da conta.

Essa tabela tem nome próprio, Tabela Analítica Base, e é a entrada tanto dos gráficos quanto dos modelos que vêm depois.

No caso do streaming, a etapa envolve limpar e cruzar tabelas, olhar a distribuição das variáveis, identificar a variável-alvo (aquela que o modelo vai prever) e examinar correlações, tendências e sazonalidades.

Os valores ausentes e os extremos exigem uma decisão explícita: descartar a linha reduz a amostra, imputar inventa um valor plausível, e manter deixa o extremo puxar a estimativa. Mostramos as alternativas em Pré-processamento: lidando com valores extremos e valores ausentes.

O tratamento depende do tipo de cada variável: as contínuas assumem qualquer valor num intervalo, enquanto as categóricas classificam a observação em grupos. Detalhamos essa distinção em Variáveis Contínuas vs Variáveis Categóricas.

Pular a exploração sai caro. Uma série que troca de unidade, um campo vazio ou um valor mil vezes maior que os demais são achados desta etapa, e o que não encontramos aqui segue para a estimação: no melhor caso ela falha e percebemos, no pior devolve um número plausível e errado.

Aplicamos a etapa inteira a séries econômicas em Análise exploratória e seleção de séries temporais econômicas para modelagem.

As ferramentas da etapa organizam tabelas e desenham gráficos: tidyverse e ggplot2 no R, pandas e plotnine no Python.

Etapa 4: modelagem

Etapa de modelagem no ciclo de análise de dados: estatística, econometria e machine learning
A quarta etapa experimenta soluções baseadas em dados. Elaboração: Análise Macro.

A modelagem levanta e testa soluções para o problema. Nem toda solução precisa de um algoritmo: às vezes a resposta está numa contagem bem feita.

Uma consulta SQL que agrega e sumariza dados já responde perguntas descritivas, do tipo quanto e quantos. Testes de hipótese e regressão medem se uma diferença observada se sustenta. Modelos econométricos estimam o efeito de uma variável sobre outra. E o machine learning entra quando importa acertar a previsão, mesmo sem explicação clara do mecanismo.

No exemplo do streaming, uma solução seria reduzir o churn, o cancelamento de assinaturas. Identificamos o perfil de quem cancelou e estimamos a probabilidade de cancelamento de cada usuário, o que permite agir antes que ele saia.

Tecnicamente, é um modelo supervisionado de classificação, que aprende com casos passados a separar quem cancela de quem fica. A regressão logística costuma ser o ponto de partida nesse tipo de problema.

A escolha da técnica sai da definição do problema e dos dados disponíveis. Um modelo mais complexo só se justifica quando o ganho de acerto compensa o que ele cobra depois: mais tempo até entrar no ar e mais custo de manutenção todo mês.

  • Consulta e agregação. SQL para sumarizar dados e responder perguntas descritivas.
  • Estatística e econometria. Testes de hipótese e regressão para medir relações e produzir inferência.
  • Machine learning. Classificação e regressão preditiva quando o objetivo é acertar a previsão.

Etapa 5: validação

Etapa de validação no ciclo de análise de dados: o problema foi resolvido?
A quinta etapa pergunta se a solução resolve o problema original. Elaboração: Análise Macro.

A validação responde se a solução resolve o problema que motivou o projeto. No caso do streaming, a pergunta não é se o modelo acerta muito, e sim se ele identifica a tempo quem vai cancelar.

No exemplo, estimamos o modelo numa parte dos assinantes, a amostra de treino, e medimos o acerto na parte que ficou de fora, a amostra de teste.

Um modelo que acerta muito nos dados com que aprendeu, mas erra nos que nunca viu, ajustou-se ao ruído daquela amostra em vez de captar o padrão que se repete, situação conhecida como sobreajuste.

A validação cruzada existe para tornar essa avaliação mais confiável, repetindo o teste em várias divisões dos dados em vez de confiar em uma só. Tratamos das técnicas, inclusive as específicas para dados ordenados no tempo, em Validação Cruzada [R e Python].

A etapa exige também independência de quem avalia. Descartar um modelo depois de semanas trabalhando nele é decisão difícil, e por isso o critério de aceite precisa estar definido antes de a estimação começar.

Etapa 6: implantação

Etapa de implantação no ciclo de análise de dados: tomada de decisão e deploy
A sexta etapa entrega o resultado para quem decide. Elaboração: Análise Macro.

A última etapa leva o resultado até quem toma decisão. A forma varia com a frequência do uso: uma apresentação basta quando a decisão é tomada uma vez, e o uso diário pede um painel que se atualiza sozinho ou um modelo rodando em produção.

No exemplo do streaming, o analista leva aos gestores a lista de assinantes com maior risco de cancelar e o que eles têm em comum. O modelo de classificação também pode ir para produção e recomendar títulos ou oferecer desconto automaticamente a quem tem alta probabilidade de cancelar.

A decisão só muda quando o resultado chega a quem decide, e é essa entrega que a etapa precisa garantir. Quando a entrega é uma apresentação, o que pesa é a argumentação; quando é um modelo em produção, o que pesa é a infraestrutura que o mantém no ar.

Quando a entrega precisa se repetir, o caminho é automatizar o percurso inteiro, da coleta ao painel. Mostramos como planejar isso em Como planejar um pipeline de previsão macroeconômica.

O que cada etapa entrega

Etapa O que entrega Habilidades e ferramentas
Objetivo O problema formulado como pergunta respondível Conhecimento da área e comunicação
Dados Os dados internos e externos coletados R, Python, SQL, APIs
Exploração Tabela organizada e os padrões encontrados Estatística, tidyverse, pandas, visualização
Modelagem A solução candidata, do SQL ao machine learning Econometria, machine learning, programação
Validação A evidência de que a solução funciona Amostragem, validação cruzada, interpretação
Implantação O resultado nas mãos de quem decide Comunicação, nuvem, automação

As seis etapas do ciclo de análise de dados. Elaboração: Análise Macro.

Onde o ciclo aparece na prática

O exemplo do streaming é didático, mas o mesmo percurso se repete em problemas bem diferentes.

Numa área de crédito, o objetivo é reduzir a inadimplência. Os dados são o histórico de pagamento e o cadastro do cliente, o modelo estima a probabilidade de calote, e a implantação é o sistema que aprova ou nega a proposta no momento do pedido.

Numa consultoria macroeconômica, o objetivo é projetar a inflação. Os dados vêm das APIs do IBGE e do Banco Central, a modelagem é econométrica, e a entrega é um relatório que se atualiza sozinho a cada divulgação.

Num time de produto, o objetivo é entender por que os usuários abandonam um cadastro. A exploração dos eventos de navegação costuma mostrar em qual campo eles param, e o ciclo termina aí: encerrar sem modelar também é um resultado.

O que muda entre os casos é o dado e a técnica. A sequência das perguntas é a mesma.

Considerações finais

O ciclo de análise de dados dá ordem a um trabalho que, sem método, avança por tentativa e erro. As idas e vindas continuam existindo, e o que muda é conseguirmos dizer em qual etapa o projeto travou e o que já foi descartado.

Percorrer o ciclo inteiro exige habilidades que vão da conversa com a área de negócio até o modelo em produção. R e Python cobrem as quatro etapas técnicas do meio, da coleta à visualização, sem trocar de ferramenta a cada passo.

O mesmo caminho aparece em quase todo problema resolvido com dados, e o que muda de uma profissão para outra é a aplicação:

  • Analista de dados: estrutura o projeto desde a pergunta até o painel entregue, sem pular a exploração.
  • Economista: vai da coleta em APIs públicas ao relatório de conjuntura que se atualiza sozinho.
  • Gestor: sabe em que etapa o projeto está e o que cobrar de cada uma delas.
  • Profissional de risco: aplica a validação com o rigor que a decisão de crédito ou de capital exige.

Em todos esses casos, saber programar permite executar as seis etapas sem depender de terceiros a cada passo.

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