Repasse cambial no R: quanto um choque do câmbio afeta a inflação

Quanto um choque do dólar move a inflação brasileira? Este tutorial mostra como medir o repasse cambial no R com um modelo VAR e funções impulso-resposta, usando dados públicos do Banco Central e do IBGE. O efeito atinge o pico por volta do terceiro trimestre e se dissipa em cerca de um ano.

Repasse cambial no R: como um choque do dólar afeta a inflação

Um choque cambial no Brasil eleva a inflação de preços livres em cerca de 0,25 ponto percentual no seu pico, por volta do terceiro trimestre, e o efeito se esgota em cerca de um ano. Neste tutorial mostramos como medir o repasse cambial no R, estimando um modelo VAR e as funções impulso-resposta com dados públicos do Banco Central e do IBGE.

O que segue é o passo a passo do método: como coletar as séries, tratar os dados, testar a especificação e ler a resposta da inflação a um choque no câmbio. A amostra é trimestral e vai de 2003 ao 2º trimestre de 2026, montada só com dados que qualquer pessoa baixa do Banco Central e do IBGE.

Função impulso-resposta do repasse cambial no R: resposta da inflação de preços livres do IPCA a um choque de um desvio-padrão no câmbio, com pico de 0,25 p.p. no terceiro trimestre
Resposta da inflação de preços livres a um choque de um desvio-padrão no câmbio, com intervalo de 95%. Fontes: BCB e IBGE.

O gráfico da impulso-resposta acima resume o resultado: o repasse não é imediato, cresce até o terceiro trimestre e depois volta para perto de zero. O tutorial abaixo mostra como construir cada etapa até chegar a esse gráfico.

Quer reproduzir este gráfico?

O script completo em R (coleta as séries do BCB e do IBGE, roda os testes de estacionariedade, estima o VAR em nível e gera a impulso-resposta) vai para os assinantes do Boletim AM. Assine, é gratuito, e receba no seu e-mail o código pronto para rodar.

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O que é o repasse cambial

O repasse cambial, ou pass-through, é a parcela de uma variação do câmbio que chega aos preços ao consumidor. Quando o real se desvaloriza, insumos e bens importados encarecem, e parte desse custo é repassada à cesta do IPCA nos meses seguintes.

Esse repasse costuma ser parcial e defasado. Parcial porque nem todo aumento de custo vira preço final; defasado porque leva tempo para percorrer a cadeia de produção até a prateleira. Medir o tamanho e a velocidade desse repasse permite ao Banco Central antecipar a pressão inflacionária de uma alta do dólar.

O que é o modelo VAR

Um modelo VAR (Vetor Autorregressivo) explica várias séries ao mesmo tempo, cada uma em função dos próprios valores passados e dos valores passados das outras. Essa estrutura faz sentido porque, na economia, câmbio, inflação, expectativas e atividade se influenciam mutuamente, e impor uma única direção de causa seria irreal.

Aqui o VAR reúne cinco variáveis: a inflação de preços livres, a inflação cheia do IPCA, a expectativa de inflação do Boletim Focus, a variação do câmbio e o hiato do produto (o quanto a economia opera acima ou abaixo do seu potencial). O câmbio é a variável que recebe o choque; os preços livres, a variável cuja resposta observamos.

📥

Coletar
IPCA, câmbio e expectativas do Banco Central; hiato do produto do Relatório de Inflação; tudo trimestralizado.
🧪

Testar
Testes de estacionariedade (ADF, PP, KPSS) para definir a especificação certa do modelo.
⚙️

Modelar
Estimar o VAR em nível, verificar a estabilidade e checar os resíduos com diagnósticos.
📈

Visualizar
Dar o choque no câmbio e gerar a função impulso-resposta com intervalo por bootstrap.

As séries que entram no modelo

O primeiro passo é reunir e olhar as cinco séries. Todas vêm de fontes públicas: o IPCA de preços livres, o IPCA cheio e o câmbio saem do Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central; a expectativa de inflação vem do Boletim Focus; e o hiato do produto é publicado numa planilha anexa ao Relatório de Inflação.

As cinco séries trimestrais do modelo VAR de repasse cambial no R: IPCA preços livres, expectativa de inflação, IPCA cheio, variação do câmbio e hiato do produto, de 2003 a 2026
As cinco séries do modelo, em frequência trimestral desde 2003. Fontes: BCB e IBGE.

O gráfico já antecipa a modelagem: o hiato do produto (a forte queda de 2020 reflete os efeitos da pandemia) varia mais lentamente e aparenta não ser estacionário, enquanto as demais séries oscilam em torno de médias estáveis. Os testes formais confirmam esse diagnóstico e definem o tratamento adequado.

Estacionariedade: o teste que define a especificação

Uma série é estacionária quando sua média e variância não mudam ao longo do tempo. A teoria do VAR pressupõe essa estabilidade: juntar séries de comportamentos diferentes sem cuidado produz relações espúrias, que parecem existir mas não existem.

Os testes (ADF, PP e KPSS) mostram que quatro das cinco séries já são estacionárias; apenas o hiato do produto é não estacionário. Essa ordem de integração determina qual modelo estimar, seguindo uma regra de decisão econométrica bem estabelecida.

Quando todas as séries relevantes são estacionárias, a especificação correta é o VAR em nível (Sims, 1980). O VECM (Vetor de Correção de Erros) só entra quando há cointegração, e cointegração exige pelo menos duas séries não estacionárias que caminhem juntas no longo prazo. Como aqui só uma série é não estacionária, não há sistema de cointegração a estimar. Estimamos, então, o VAR em nível diretamente, e confirmamos que ele é estável antes de seguir.

A resposta da inflação, trimestre a trimestre

Com o modelo estimado, damos um choque de um desvio-padrão na variação do câmbio e lemos a resposta da inflação de preços livres nos oito trimestres seguintes. A tabela abaixo traz o efeito em cada trimestre e o intervalo de confiança de 95% (gerado por bootstrap, uma reamostragem que estima a incerteza). Quando o intervalo não cruza o zero, o efeito é estatisticamente significativo.

Trimestres após o choque Resposta do IPCA livres (p.p.) Intervalo de 95% Significativo?
1 (choque) 0,000 0,000 a 0,000
2 0,055 −0,058 a 0,160 Não
3 0,247 0,099 a 0,344 Sim
4 0,181 0,057 a 0,253 Sim
5 0,100 −0,004 a 0,167 Não
6 0,042 −0,045 a 0,095 Não
7 −0,001 −0,074 a 0,050 Não
8 −0,024 −0,090 a 0,026 Não

Resposta da inflação de preços livres a um choque cambial de um desvio-padrão. Fontes: BCB e IBGE.

Somando o efeito de cada trimestre, chega-se ao repasse acumulado. Ele mede o quanto o choque adiciona à inflação no total, não período a período.

Resposta acumulada do repasse cambial no R: efeito somado de um choque do câmbio sobre a inflação de preços livres do IPCA, que estabiliza perto de 0,6 ponto percentual no sexto trimestre
Resposta acumulada da inflação de preços livres ao choque cambial, com intervalo de 95%. Fontes: BCB e IBGE.

O efeito acumulado sobe até se estabilizar em torno de 0,6 p.p. por volta do sexto trimestre, e depois recua de leve. É a leitura de quanto um choque cambial soma à inflação de preços livres no total.

Dois detalhes importam nessa curva. No horizonte de oito trimestres, o efeito acumulado não volta ao nível anterior ao choque: ele estabiliza no platô e recua só um pouco, sem retornar a zero na janela do exercício. Uma vez incorporado aos preços, o repasse persiste.

O modelo também não inclui a função de reação da política monetária (a taxa Selic). Sem o juro respondendo ao choque cambial, falta o mecanismo que traria a inflação de volta mais rápido, e por isso a queda do IPCA após o pico é mais lenta do que seria com o Banco Central reagindo. O exercício mede o repasse antes da resposta do juro.

As ferramentas por trás

Logo da linguagem R
R — a linguagem que reúne, num só fluxo, a coleta dos dados, os testes econométricos, a estimação do modelo e o gráfico final.
Logo do Banco Central do Brasil
Banco Central do Brasil — fonte do IPCA de preços livres, do câmbio, das expectativas do Focus e do hiato do produto.
Logo do IBGE
IBGE — instituto responsável pela apuração do IPCA, o índice oficial de inflação usado no exercício.

O que o resultado revela sobre o repasse

  • O repasse não é instantâneo. No trimestre do choque a resposta é praticamente nula; o custo leva tempo para percorrer a cadeia de preços.
  • O pico vem no terceiro trimestre. A inflação de preços livres sobe cerca de 0,25 p.p., e o efeito é significativo nos trimestres 3 e 4.
  • O impulso se dissipa em cerca de um ano. A partir do quinto trimestre o intervalo volta a englobar o zero, e a resposta perde significância.
  • O repasse é parcial, não de um para um. Um choque no câmbio não se transfere integralmente aos preços; parte é absorvida na cadeia — por isso desvalorizações persistentes preocupam mais que picos pontuais do dólar.

Considerações finais

A econometria de séries temporais faz aqui o que ela tem de mais útil: pega a intuição de que "o dólar sobe e a inflação vem atrás" e devolve um número que dá para interpretar e defender, com fonte pública e método explícito.

O R é a ferramenta certa para isso porque reúne, num único ambiente, a coleta direta das séries do Banco Central e do IBGE, os testes econométricos, a estimação do modelo e o gráfico de qualidade de publicação. É o mesmo caminho — coletar, tratar, modelar, visualizar — que se repete em quase todo problema aplicado de macroeconomia e finanças.

O alcance vai além do câmbio e da inflação. Muda apenas a aplicação:

  • Economista: quantifica repasses, elasticidades e o efeito de choques sobre variáveis de interesse.
  • Analista de mercado: antecipa pressões de inflação e juros a partir de movimentos do câmbio.
  • Gestor de risco: traduz cenários de estresse cambial em impacto esperado sobre preços e carteiras.
  • Pesquisador e estudante: reproduz, a partir de fontes públicas, um resultado antes restrito a relatórios de banco central.

Dominar a linguagem abre a porta para todas essas frentes.

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