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No país de um salário mínimo e meio, quem quer mudança?

By | Eleições 2014

salariominimoOntem tive uma conversa para lá de interessante com um grande amigo. O leitor desse espaço percebeu que tenho escrito muito sobre mercado de trabalho. Não é uma fixação solitária desse escriba: a maior parte dos economistas de mercado tenta entender o fenômeno do baixo crescimento com baixo desemprego. Há alguns dias, porém, eu olho para um gráfico em especial: esse daí ao lado. Ele é uma pequena foto de como está a geração de emprego no país, controlada pelos salários. Repare o leitor que a geração de empregos de até 1,5 salário mínimo ainda é positiva, a despeito da tendência de queda, enquanto a geração acima desse nível já está em terreno negativo - o uso da média móvel é apenas para tratar a sazonalidade das séries. Minha motivação inicial ao fazer esse gráfico era entender por que a candidata Dilma Rousseff tem mais de 40% se a economia vai mal e a inflação está alta. Meu amigo Sergio Cunha, então, parece ter formado uma hipótese que vai de acordo com o enredo contado por esse gráfico.

A estória principal que o gráfico conta é que não importa a quantidade de salários: a geração líquida de empregos (empregados menos desempregados) está em tendência de queda. Ocorre que se levarmos em conta os salários, os empregos que pagam melhor já são muito mais escassos do que os que pagam menos. Isso deriva, precisamente, do desequilíbrio que marcou a conjuntura brasileira nos últimos anos: enquanto o setor de serviços se aproveitou dos incentivos de política econômica, a indústria está estagnada. Isso ocorreu porque o setor de serviços é insensível à concorrência externa - afinal, você não vai a Londres cortar seu cabelo, ok? -, coisa bem distinta no caso da indústria. Essa é a trama que se desenvolve se olharmos para a economia em termos desagregados.

O setor de serviços cresceu enormemente nos últimos anos beneficiado pelos incentivos ao consumo. Não é por outro motivo que a inflação de serviços está acima de 8% há mais de quatro anos. A indústria, entretanto, apesar de toda a sorte de subsídios focalizados e dos incentivos de política econômica, sofre com a infraestrutura e o caos burocrático, não resistindo à competição com produtos que vem de fora com custo bem menor.

O setor de serviços, nesse contexto, é quem vem segurando a geração de vagas agregada ainda em terreno positivo, enquanto a indústria demite há algum tempo. Aquele, porém, paga salários menores do que este, o que explica o descompasso visto no gráfico acima: enquanto a geração de empregos de até um salário mínimo e meio ainda está em terreno positivo, acima desse nível as coisas já são negativas. Ambas as séries mostram com bastante transparência que as coisas não vão bem, dada a tendência de queda. Porém, o quadro é bem pior na indústria - que paga salários mais elevados - do que no setor de serviços. Aquela já está em recessão, esse ainda passa pelo purgatório da estagnação.

Esse descompasso na geração de empregos, se considerarmos os salários, se adequa à hipótese do meu amigo. Sergio acha que uma parte do eleitorado não é sensível ao argumento da mudança, que marcou as candidaturas oposicionistas. Para estes, mudar significa arrochar salários, fazer ajuste, reduzir o emprego, acabar com programas sociais, etc. Algo completamente distinto do que eles percebem nesse momento: afinal a geração de empregos de até 1,5 salário mínimo ainda está em terreno positivo. Haveria, assim, uma correlação entre o eleitorado governista e a geração de empregos de até 1,5 salário mínimo.

A despeito da tendência de ambas as séries ser a mesma, a velocidade delas é diferente: os empregos de até 1,5 salário mínimo ainda estão preservados, enquanto acima disso, não. Sendo os eleitores dilmistas parte desse grupo, o discurso da mudança é visto de forma negativa, o que explicaria a aversão à oposição. Mudança aqui é acabar com os empregos!

Se essa hipótese fizer sentido, o candidato da oposição deveria ser mais cuidadoso em sua estratégia de abraçar a "mudança". Particularmente, acho que ele deveria ressaltar a tendência de ambas as séries, enfatizando que o ponto final é o mesmo: recessão. Isso poderia ser feito ilustrando o que está acontecendo com a indústria. Pode ser meio óbvio para economistas ou para pessoas que acompanham economia que as coisas não vão bem: mas para quem trabalha no setor de serviços, será que isso é claro?

Há muitas críticas, eu sei, afinal você pode argumentar comigo: o pessoal odeia o psdb e ponto. Como eu prefiro seguir hipóteses mais criativas, prefiro a do meu amigo! E você, o que acha? Sugestões de como testar isso - base de dados, base de dados! - são muito bem-vindas! 🙂

Mudança

By | Artigos de Economia

Mude é o título de um belo poema atribuído a Clarice Lispector, como tantos e tantos outros, mas de autoria do desconhecido poeta paulista Edson Marques. É comum atribuir à Clarice obras que não são de fato suas, a despeito das tantas e tantas que nos deixou. Umas não fazem jus ao talento da mais brasileira das ucranianas, outras passam. O poema Mude é um desses casos. A despeito de não ter uma métrica rebuscada, é uma dessas poesias que te colocam a pensar, por alguns segundos ou minutos, sobre os dilemas da vida. Pensei nele outro dia ao assistir a mais nova peça televisiva do PT. Em meio ao sentimento coletivo de mudança captado pelas mais recentes pesquisas eleitorais, o partido já há mais de uma década no poder parece querer reprimi-lo. Com uma música fúnebre de fundo, o narrador do comercial alerta para os "fantasmas do passado", que cercam o Palácio do Planalto.

A mudança ensejada pela sociedade brasileira deveria ser encarada como normal, mesmo se tudo estivesse bem. Afinal, só as ditaduras não se acostumaram com a alternância do poder. Nas democracias é normal trocar um partido por outro, de tempos em tempos. O poder é uma dessas substâncias perigosas que se utilizadas durante tempo excessivamente prolongado pode corromper até o melhor dos homens. O que dirá dos piores! Nesse aspecto, a vontade soberana que emerge das urnas de quatro em quatro anos para as eleições presidenciais deve ser entendida e respeitada.

Cabe aos políticos sentados no poder, é claro, tentar inibir essa vontade de trocar a guarda. Se os políticos buscam maximizar votos de eleição em eleição, por que parar agora? Faz igualmente parte do jogo democrático que o partido com a posse da chave que liga a máquina estatal tente se manter por tempo indeterminado por lá. Às oposições a esse desejo cabe compreender a vontade de mudança, propor debates e apontar caminhos. Sentimentos coletivos devem encontrar um representante para que possam estrapolar a intenção, tornando-se realidade.

Mudar, nesse aspecto, é algo absolutamente natural e sadio para as democracias. Mesmo para as já estabelecidas, ainda que tudo esteja bem. Para as não estabelecidas, como a brasileira, dependentes de governantes esclarecidos para se fortalecerem, é absolutamente peremptório que se mude, de tempos em tempos. Ainda que tudo esteja bem. E se estiver mal...

A mudança torna-se não mais uma característica abstrata das democracias e passa a ser absolutamente essencial. Um governante que não governa bem, mas mantém-se no poder, geralmente usa de subterfúgios populistas. O partido agarra-se de tal forma às benesses do posto que acaba confundindo meios e fins. Os fins nobres que julga ter permitem meios questionáveis, para dizer o mínimo. Assim, aumentos pontuais em bolsas de auxílio ou correções no imposto de renda, às vésperas do pleito eleitoral, se justificam. O país está, afinal, a serviço de um bem maior.

Medidas populistas engessam as democracias porque fazem as sociedades acreditarem que tudo pode ser alcançado sem custos. Aumento de despesa, afinal, requer aumento de receitas. Mais gastos sociais requerem mais impostos das sociedades. O mundo gratuito das promessas eleitorais só existe nos discursos fantasiosos dos políticos populistas. No mundo plano a conta acaba se impondo.

Diferentemente do poema Mude, apropriado por Clarice sem que ela quisesse, o partido dos trabalhadores usa as heranças benditas do governo FHC e rejeita os abacaxis. Como qualquer partido, diga-se, como é normal na política rasteira das democracias.  O medo, igualmente tentado por José Serra, do PSDB, em 2002, mudou de lado e agora se atrela a uma peça televisão do PT. Dará certo?

Dilma Rousseff, a comandante em chefe da campanha, tentará atrelar à oposição o emblema do "arrocho salarial", em uma referência ao ajuste na política econômica absolutamente necessário no ano que vem. Se não era claro até aqui para alguns, ficou tão cristalino quanto as águas de Fernando de Noronha. O passado de desemprego a 13% do governo FHC será esmiuçado, como foram as privatizações em 2002, 2006 e 2010. Como hoje sua solitária bandeira no campo macroeconômico é o baixo desemprego, nada mais justo que confronte as elevadas taxas da década de 90. Faz parte do jogo democrático.

Tal qual, entretanto, a crítica rala às privatizações era puramente eleitoral, vide que o próprio governo do partido dos trabalhadores o faz desde o primeiro mandato do presidente Lula, o discurso do "arrocho" também será. Em maior ou menor grau, acaso o PT vença as eleições, ano que vem será tempo de arrumar a casa. Afinal, mais um rebaixamento do rating de crédito e lá se vão os investimentos estrangeiros diretos, absolutamente necessários para financiar os 4% (do PIB) de déficit em conta corrente. Estes criados pela política econômica pró-consumo e pelas robustas importações de combustíveis, dados os problemas no setor elétrico e na petrobras.

Problemas, afinal, chamam problemas e se nada de ajuste for feito ano que vem, salve-se quem puder em 2016. Ano de Olimpíada no Rio de Janeiro, onde o mundo se voltará novamente para nós. Estaremos prontos? Provavelmente não, como não estaremos mês que vem, quando a Copa se iniciar por aqui. Observa-se, nesse sentido, que o discurso do medo não se sustenta quando confrontado com a realidade dos fatos.

O elevado desemprego da década de 90 foi produto de nossos equívocos em décadas anteriores e da conjuntura internacional, bem como o atual baixo desemprego é fruto de menor procura dos jovens por trabalho. A geração de emprego, afinal, está próxima da nulidade, quando confrontada com o ano anterior. As expectativas deterioradas dos consumidores, inundados de dívidas do período de incentivos do próprio governo, bem como dos empresários, descrentes na gestão federal, causam menor crescimento e perspectivas negativas para o horizonte relevante. O desemprego, desse modo, só não aumenta ano que vem por fatores demográficos imperiosos: se não tiver gente disposta a ofertar trabalho. Caso contrário, seja quem for o eleito, ele certamente irá aumentar em alguns pontos percentuais.

Em assim sendo, bem como a esperança venceu o medo em 2002, garantindo à frágil democracia brasileira um virtuoso processo de transição, guardam-se poucos dúvidas no atual pleito. O sentimento coletivo de mudança parece mostrar uma vez mais aos governantes e aos economistas que lhes assessoram que a gravidade existe. Não se pode, afinal, ignorar leis econômicas simples, como aquela que diz que todo gasto tem que ter uma receita, provida por maior crescimento econômico. Ao menos não por muito tempo, não é mesmo, leitor amigo?

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