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Inflação está próxima ao piso do regime de metas

By | Inflação

O Brasil opera desde 1999 o regime de metas para inflação - conhecido no mundo como Inflation Target -, donde o objetivo explícito do Banco Central é conduzir a política monetária de modo a manter a inflação próxima a uma meta previamente estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. Nesse regime, há uma meta explícita e bandas de tolerânciaque servem para acomodar choques diversos que ocorrem sobre a inflação ao longo do tempo. De modo a ilustrar a operação do regime de metas no Brasil, podemos construir um gráfico com a inflação, os núcleos de inflação, a meta e as bandas de tolerância.

O gráfico acima mostra todas essas variáveis e o último dado disponível para a inflação cheia, que fechou em 2,89% no acumulado em 12 meses até setembro. O piso da meta é de 2,75%, considerando 1,5 pontos percentuais de tolerância para mais ou menos em torno da meta de 4,25% para esse ano. Como se pode ver no gráfico, a inflação cheia flerta nesse momento com o piso do regime de metas.

O caminho para uma taxa básica nominal de juros de 4,5% no final do ano está aberto. Na verdade, não é mais nem um caminho: é uma avenida!

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(*) O código para o gráfico estará disponível logo mais no Clube do Código.

O "centro" da meta e a pobreza do debate sobre inflação

By | Inflação

Uma matéria sobre inflação me chamou atenção nesse final de semana. Publicada no Valor, fazia referência ao termo "centro da meta de inflação". Machado de Assis costumava dizer, quando questionado sobre o ato de escrever, que palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução. Lembro-me do bruxo do Cosme Velho toda vez que ouço alguma declaração dos membros da atual equipe econômica. O "centro", quando referido à meta para inflação, é uma dessas palavras que puxam outras e constroem uma ilusão. Engana muita gente, é verdade, menos talvez aqueles que acompanham os índices e expectativas de inflação todos os dias.

A estória que a palavra "centro" puxa é a que a meta para inflação tem sido regiamente cumprida no país nos últimos dez anos. Nesse período a inflação média foi de 5,53%, com desvio padrão de 1,25 p.p. Como a meta foi a maior parte do tempo de 4,5%, com 2% de tolerância - para mais ou menos - diz-se que ela tem sido cumprida durante todo o tempo. Mas se é assim, pergunta o incauto leitor, por que a credibilidade do governo e do banco central em particular anda tão capenga? Pois é...

Existem várias formas de se medir a credibilidade de um banco central. Todas elas, entretanto, usam a ideia simples de que a credibilidade é maior ou menor se as expectativas desviam menos ou mais da meta. Atualmente, as expectativas estão acima da meta até 2018. Em outras palavras, os agentes não acreditam que ela será alcançada durante todo esse tempo. Isso diz um bocado de coisa sobre como anda a credibilidade da autoridade monetária e o termo "centro da meta" tem muito a ver com isso.

Ora, se existe um centro e um limite superior, o banco central pode a todo o tempo perseguir uma inflação de 6,5%, que ainda assim terá cumprido a meta. O centro de 4,5% é apenas para bancos centrais ortodoxos demais, que querem alcançar uma inflação com o custo de gerar desemprego. Não é isso?

Bom, já sabemos que esse tipo de raciocínio tem efeito direto sobre as expectativas de inflação. Afinal, se o banco central não entrega a meta hoje, os agentes não têm confiança nenhuma de que no futuro isso será feito. Logo esperam uma inflação mais elevada. Mas não é apenas isso.

O limite superior de 2% é na verdade um intervalo de tolerância. Novamente, citando Machado, as palavras têm significado e, portanto, devem ser utilizadas de forma correta para não gerar confusão. Uma inflação de 6,15%, por exemplo, não está na meta, que é 4,5%, mas no intervalo de tolerância. Tolera-se essa inflação porque ela pode ser efeito, por exemplo, de um clima mais seco, que afeta alguns preços da economia. Como o choque é passageiro, não faz muito sentido aumentar juros para contê-lo, logo tolera-se uma inflação momentaneamente acima da meta. É a existência desse intervalo que dá ao regime de metas para inflação flexibilidade, para não gerar custos desnecessários em termos de emprego.

O problema é confundir esse intervalo de tolerância como parte da meta de inflação. Para inflação efetiva sempre no limite superior, o que acontece quando ocorrem choques na economia? Em outras palavras, se a inflação em 12 meses está sempre acima de 6%, o que acontece quando há um problema climático, por exemplo? Nesse caso, corre-se o risco maior de superar o limite superior de 6,5% toda vez que algo inesperado acontece na economia.

A estória que o termo "centro da meta" conta, nesse contexto, é o de uma inflação efetiva persistentemente no limite superior tolerado, de expectativas distantes da meta de 4,5% e de riscos crescentes de superar esse limite a qualquer momento. O centro, quando referido à meta para inflação, é uma dessas formas de tentar dizer que continua fazendo uma coisa, quando já se deixou de fazê-la há algum tempo. É justamente o efeito que tem sobre a existência do regime no Brasil. Hoje ele simplesmente deixou de existir.

A meta existe, afinal, para ancorar as expectativas de inflação dos agentes. Uma vez que os agentes acreditam nos 4,5%, esperam que nos próximos anos a inflação efetiva seja precisamente esse número. Se os agentes não acreditam na meta, esperam que a inflação seja maior do que esse valor. Como esse último cenário é o que ocorre hoje, a meta não mais ancora ou baliza as expectativas e, portanto, não consegue servir de guia para a inflação. Ademais, sendo o regime configurado como uma meta e um intervalo superior em que se tolera, temporariamente, a inflação, perseguir repetidamente o número máximo do intervalo o liquida, na prática.

O "centro da meta" é, no final das contas, uma alegoria para desconstruir o regime de política monetária. Só revela a pobreza do debate sobre inflação no país. Ao invés de discutirmos a redução da meta, que comparada a outros países, é elevada, voltamos a discutir coisas básicas. Como ex-aluno de duas escolas heterodoxas eu sou sempre favorável ao debate, mas acho que ele só avança quando conseguimos estabelecer princípios. Acredito que seja prudente nesse momento parar de dar ouvido a economistas que claramente não entendem o processo inflacionário e dão receitas equivocadas para o problema. Isso só atrapalha a redução da inflação para níveis civilizados. Se, afinal, tivéssemos levado esses economistas a sério, ainda estaríamos lutando contra uma inflação de 90% ao mês.

Em assim sendo, para voltar a ter credibilidade o banco central terá que remover o "centro" do debate e voltar a utilizar o termo meta para a inflação. É saudável para o regime manter intervalos de tolerância, mas dado o desgaste atual, mesmo esse intervalo terá de ser reduzido: para 1%, por exemplo. O firme compromisso com a meta pode ser perseguido, mais facilmente, com a independência do banco em relação ao Palácio do Planalto. O uso político dos juros foi, em última instância, o que causou essa perda de credibilidade da autoridade monetária. Nada mais lógico, portanto, que eliminar essa possibilidade para recuperar a confiança dos agentes. Além é claro de se inspirar em Machado e utilizar palavras que puxem outras estórias: mais benéficas para o país.

(*) A matéria do Valor aqui.

Por que metas de inflação?

By | Política Monetária

A condução da política monetária no Brasil vem sofrendo muitas críticas ao longo dos últimos meses. A comunicação do Banco Central com o público tem sido a principal fonte de distúrbios. Não se sabe ao certo qual a estratégia da autoridade monetária para a taxa de juros no curto prazo. Além disso, é nítida a interferência do Ministério da Fazenda, sugerindo que a estabilidade de preços não seria mais a única meta a ser perseguida. Ao seu lado estaria um intervalo para o câmbio e certo nível de crescimento econômico. Em assim sendo, faz-se necessário relembrar por que o regime de metas de inflação tornou-se relevante na última década.

Em primeiro lugar é preciso lembrar, infelizmente, que ainda há na teoria econômica muita divergência sobre a hipótese de neutralidade da moeda. Isto é, teria a política monetária “poder” para promover crescimento econômico? Há algum consenso sobre a existência de não neutralidade no curto prazo, provocada por rigidez de preços e salários. Os economistas chamam isso de trade-off entre inflação e crescimento (ou desemprego) e expressam tal relação em um plano euclidiano com a abscissa representando o nível de atividade (crescimento, desemprego...) e a ordenada representando o nível geral de preços. O trade-off, claro, é ilustrado por uma curva negativamente inclinada, chamada de Curva de Phillips. O problema (ou dissenso) está no longo termo: para o mainstream da profissão esse trade-off desaparece, tornando a curva uma reta vertical. Em outras palavras, no longo termo vale a Teoria Quantitativa da Moeda, que diz que mais emissão de moeda provoca apenas aumento de preços.

O mainstream da profissão considera que o trade-off existe porque há rigidez de preços e salários. Logo, se estes se tornam flexíveis à medida que o tempo passa, é natural pensar que mais moeda não cause menos desemprego ou mais crescimento e sim mais inflação. Ao leitor interessado na crítica, recomendo uma leitura da posição keynesiana e o conceito de demanda efetiva. Dito isto, passemos à segunda questão. Dado que existe um trade-off de curto prazo entre inflação e nível de atividade, o problema passa a ser como conduzir a política monetária. Isto é, como controlar a liquidez da economia?

Sob esse aspecto existem duas formas básicas: por meio de regras ou de forma discricionária. Esse é um debate antigo e a meu ver superado no interior da macroeconomia, apesar de muitos economistas ainda advogarem pela condução discricionária – o leitor interessado em história do pensamento macroeconômico pode conferir o interessante artigo “Rules, Discretion and Reputation in a model of monetary policy”, de Robert Barro e David Gordon. Regras formais têm mostrado ao longo das últimas décadas resultados muito superiores, seja em termos de estabilidade de preços, seja em termos de crescimento econômico. Não irei mais longe do que isso na defesa de regras de condução da política monetária.

Nesse contexto, dado que regras se mostraram melhores do que uma condução discricionária existe ao menos três formas de regimes monetários: metas cambiais, metas monetárias e metas de inflação. Antes de exaltar as características do último, tratemos das deficiências dos primeiros, sempre tendo em mente que o objetivo de qualquer regime monetário é o controle da liquidez de uma economia e, consequentemente, do nível geral de preços. Dado isto, é sabido que ter uma meta de câmbio – seja pontual ou intervalar – é deveras cansativo e mesmo improdutivo. Isto porque, a autoridade monetária tem que acumular uma quantidade não desprezível – e custosa – de reservas internacionais, visando manter a taxa de câmbio pretendida. Nesse regime os agentes estão a todo tempo testando o Banco Central, visando auferir ganhos de arbitragem entre os mercados spot e futuro. E geralmente eles vencem.

Além disso, vale dizer, a autoridade monetária perde o grau de liberdade na condução da política doméstica. Dado que o objetivo do regime cambial é importar o nível de preços externo, todo o gerenciamento de liquidez é orientado para suportar um nível de câmbio, o que deixa o Banco Central de mãos atadas frente a choques de demanda ou de oferta. Um mau negócio, portanto, leitor.

O segundo regime, o de metas monetárias, implica em tentar controlar a expansão dos agregados monetários. Em outros termos, a autoridade monetária se vê obrigada a tentar controlar não apenas a base monetária (papel moeda em poder do público mais reservas bancárias), mas todos os demais agregados, dado que os mesmos podem se tornar papel moeda (ou depósitos à vista) e, portanto, demanda a qualquer tempo. O leitor já percebe que diante do contínuo aperfeiçoamento do mercado financeiro e a ampla liquidez promovida pela existência de mercados secundários organizados de títulos públicos e privados, essa é uma tarefa no mínimo inglória. Para não dizer impossível nos tempos atuais.

O regime de metas de inflação (IT) surge assim meio que por eliminação, dadas as desvantagens inconciliáveis dos demais. Mas ele também contém suas vantagens, como veremos a seguir. No modelo de IT o papel primordial do Banco Central é servir como balizador de expectativas. Isto é, ele atua junto ao mercado para que uma determinada meta de inflação seja atingida. O Banco Central tem uma meta operacional – a taxa nominal de juros de curto prazo – e a utiliza visando influenciar os mecanismos de transmissão da política monetária. Se tudo correr bem, a taxa nominal de juros se transforma em taxa de juros real, dadas as expectativas de inflação. É essa taxa que ao fim e ao cabo das defasagens temporais gerará um nível de atividade condizente com a meta de inflação previamente estipulada. Em termos um pouco mais técnicos – e que o leitor pode pular se quiser – o Banco Central busca definir uma taxa nominal de juros, tentando fazer a taxa real convergir para seu valor neutro, aquele compatível com o produto potencial e, portanto, com um nível de preços estável.

O modelo é funcional porque primeiro não amarra as mãos da autoridade monetária frente a choques. Em qualquer regime de metas de inflação, existe um limite inferior e outro superior, visando ajustes a choques de oferta e/ou de demanda. Em segundo lugar, o modelo sugere implicitamente que a política monetária não causa crescimento. Este é dado em última instância pela dotação de fatores de produção da economia, expressa no conceito de PIB potencial; longe, portanto, das mãos dos condutores da política monetária. Em síntese, o modelo permite que a autoridade monetária suavize o ciclo econômico, tornando as recessões mais brandas, mas desaconselha qualquer exploração mais radical do trade-off expresso na Curva de Phillips, dado que isso ao fim e ao cabo só gera mais inflação.

Observe, portanto, leitor para que o modelo funcione é preciso que os agentes acreditem na autoridade monetária. Isto porque o Banco Central não tem o menor controle sobre a meta de inflação. Ele opera via mercado na expectativa de que o mesmo atenda a seus objetivos. Se, portanto, a meta de inflação anunciada não é crível ou se a taxa de juros real encontra-se muito abaixo daquela considerada neutra (condizente com a meta de inflação), os agentes desconfiam e começam a precificar (esperar) uma inflação mais alta no futuro. No limite, sem credibilidade, o regime simplesmente deixa de ser funcional.

Talvez nesse momento o leitor pergunte por que o Banco Central tentaria ir contra o mercado, gerando problemas de comunicação e desvio entre inflação esperada e efetiva. É que ele pode estar tentado a explorar aquele trade-off de curto prazo. E como isso implica em abandonar o regime monetário conduzido via regras, a condução da política monetária passa a gerar maior volatilidade. Os agentes simplesmente não sabem qual será a trajetória de juros praticada pela autoridade monetária. Maior volatilidade, maior incerteza, menor crescimento, mais expectativa de inflação no futuro. Tudo, portanto, o que um Banco Central não quer. Ao menos os respeitáveis. E, agora talvez fique mais claro ao leitor porque o regime de metas de inflação é sensível a um governo que quer alcançar algo que não está disponível. Parafraseando o ex-presidente do BACEN Gustavo Franco: não é possível ficar com o almoço e com o dinheiro ao mesmo tempo. Infelizmente...

IPCA continua em queda no acumulado de 12 meses

By | Inflação

O IPCA veio 0,64% em abril, acumulando alta de 1,87% em 2012. Destaque para Despesas Pessoais, que avançaram 2,23% [peso de 10% no índice]. Apesar disso, no acumulado de 12 meses, a inflação continua sua trajetória de queda, iniciada em outubro do ano passado, estando agora em 5,1%. Tudo dentro do plano da autoridade monetária, portanto.

Maiores detalhes aqui.

2012: mais um ano decisivo para o Brasil.

By | Resenhas de Conjuntura Econômica

Olhando em retrospectiva, o Brasil tem muito a comemorar. Passamos de um país atrasado, com uma hiperinflação incontrolável para um país macroeconomicamente civilizado, com boas perspectivas de crescimento econômico pela frente. Apesar disso, ainda não conseguimos avançar de forma contundente nas reformas estruturais que o país precisa para ser um país de fato desenvolvido. Nos últimos dez anos não avançamos nem um centímetro, diga-se. O objetivo do presente artigo é fazer uma análise da conjuntura econômica recente e avançar no debate sobre os limitantes do desenvolvimento brasileiro.

O Brasil cresceu a uma média de 3,89% ao ano nos últimos nove anos – supondo crescimento de 3% no ano passado. Um número mais significativo do que o mesmo do período imediatamente anterior – 2,6%. A conseqüência imediata foi uma queda virtuosa na taxa de desemprego aberto: de 13,1% em 2003 para 5,2% em novembro de 2011. Isso, dentre outras coisas, permitiu que cerca de 30 milhões de pessoas ascendessem à classe média; o que acabou por contribuir para solidificar o processo de crescimento econômico. Nesse aspecto, o consumo das famílias apresentou um vigoroso crescimento desde 2003, com médias trimestrais de 5% – comparada ao mesmo trimestre do ano anterior.

Os juros básicos seguiram sua curva de decadência. Eram 26,5% a.a. no início de 2003 e hoje são 11% a.a. A inflação, sempre uma preocupação nacional, se redimiu dos tempos em que eram acachapantes: estiveram em uma média de 5,9% ao ano no mesmo período.

Mas o que causou esse crescimento, leitor? Duas coisas: uma causa principal e outra secundária. Na primeira, o cenário externo excepcional, o melhor desde o imediato pós-guerra. Na segunda, um aumento vigoroso da relação crédito/PIB [de cerca de 20% para quase 50%], proporcionado pelas inovações institucionais [garantia fiduciária e crédito consignado, basicamente] e pelo ambiente externo mais receptivo.

Essa melhoria conjuntural, em conjunto com a política de manutenção dos superávits primários, permitiu ao governo brasileiro reduzir a exposição cambial da Dívida Pública Interna, elevar o nível das reservas internacionais e se tornar credor externo líquido, reduzindo sua exposição aos reveses internacionais. Tudo com um custo, é claro – as reservas internacionais são remuneradas via FED Funds, enquanto os passivos [a Dívida Interna] são remunerados basicamente à taxa Selic. A conseqüência prática dessa estratégia foi a conquista do grau de investimento pelas agências de rating.

A solidez fiscal, entretanto, é assim para inglês ver, leitor. Se reduzimos nossa exposição cambial [que alguns economistas criticam, vejam você!], deterioramos nossa contabilidade fiscal. Usamos de subterfúgios para trazer a valor presente ativos ainda não explorados [isso, falo sobre a mágica de 2010: o caso da Petrobrás], insistimos em manter reservas a um custo muito alto e não atacamos o problema dos gastos correntes.

Em outra perspectiva, para não darmos contornos pessimistas à análise, como exposto acima o desemprego permaneceu em patamares baixos no período recente – apesar dos dados do CAGED demonstrarem um arrefecimento nas contratações na margem. Isso indica que apesar do nível de atividade ter se deteriorado, os empresários estão apostando em uma recuperação já a partir do segundo semestre de 2012, o que os impedem de demitir mão-de-obra. Isso somado ao fato de a economia americana estar demonstrando sinais [mesmo que fracos] de retomada pode elevar o nível de atividade nos próximos trimestres. Mas não muito: crescimento de 5% em 2012, como quer o governo, está descartado pelo mercado – a última sondagem do Focus indica PIB rodando na casa dos 3%.

É claro que não se pode deixar de fora do modelo o fato de em 2012 haver eleições municipais, os projetos para a Copa e Olimpíada terem de ser acelerados, o salário mínimo ter sido reajustado em 14% e o poder da política econômica anticíclica – esta última levou um PIB estagnado em 2009 para o maior crescimento desde 1986 em 2010, de 7,5%. Tudo isso, ceteris paribus as condições externas, pode impulsionar um crescimento mais arrojado em 2012, o que acende o sinal de alerta para a inflação.

Nesse contexto, no acumulado de 12 meses, o IPCA fechou dezembro em 6,5%, no limite máximo permitido pelo regime de metas de inflação. O que preocupa é se os fatores que impulsionam a demanda não refletirão em um aumento do nível de preços já no segundo semestre deste ano. Isso claro se não houver um efeito deflacionário do lado das commodities. A tendência é que o Banco Central acomode as expectativas acima do centro da meta [4,5%], o que indica que convergência mesmo nem tão cedo.

Para que fique claro ao leitor o que estamos discutindo, há uma divisão básica na profissão de economista. Há os economistas da demanda e os da oferta. Para aqueles, tudo [ou quase tudo] se resolve com uma política econômica ativa [fiscal, monetária, cambial e industrial], tornando o mecanismo de mercado mais palatável para o crescimento econômico. Para estes, ao contrário, o mecanismo de preço sinaliza corretamente as informações do mercado e para que funcione plenamente é preciso que o Estado azeite as instituições formais e informais do país, tornando o ambiente de negócios menos rígido.

Essa divisão, leitor, perdura desde ao menos o início do século passado. Desde que Keynes publicou um manifesto a favor da intervenção estatal [ou, ao menos, é o que os economistas da demanda pensam]. De fato, é preciso ter uma política econômica ativa em momentos onde o ciclo econômico é depressivo. Parece ser muito darwinista a posição de alguns economistas da escola austríaca a visão de que o mercado corrigisse automaticamente, digerindo os erros alheios e que no fundo toda a sorte de problemas econômicos é causado unicamente por intervenções mal feitas do Estado na economia.

Mas vamos com calma, leitor amigo. Nem toda intervenção estatal é bem vinda. De fato, para cada problema gerado pelo mercado livre, há ao menos dois problemas causados por uma intervenção estatal. Você pode verificar isso na prática. Basta ver a generalização de risco moral que assolapou a Europa e os Estados Unidos. Mecanismos de cooperação e coordenação, como bem ensina a moderna teoria dos jogos, não são isentos de falhas. Quem garante que as instituições financeiras que erraram no cálculo econômico no passado recente não o farão novamente?

Nesse aspecto, há um fundo de verdade na interpretação austríaca. Todos os envolvidos no crash imobiliário americano [e em todos os outros da História] deveriam ser culpados – inclusive os mutuários! Para ser um pouco mais claro: qualquer perdão aqueles que cometeram erros na atual crise só adia a resolução macro da crise. O organismo econômico está em constante mutação. A política econômica é, nesse sentido, um remédio que ajuda o paciente a se libertar dos efeitos colaterais, mas não ataca o problema de frente. Lida apenas com os sintomas, não com as causas.

O que interfere nas causas, leitor, são as mudanças no lado da oferta. Reformas estruturais que impulsionem o ambiente de negócios, reduzam custos de transações, modelem melhor direitos de propriedade são a cura que qualquer economia precisa em momentos de crash no nível de atividade. Não adianta, portanto, querer insistir [apenas] em uma política econômica de demanda – leia-se juros baixos e aumento de gasto público. Até porque, o leitor sabe, tais políticas são limitadas e inconsistentes no tempo – vide o caso europeu, novamente.

E não precisa citar os modelos mais contemporâneos de política monetária para provar esse fato. Uma boa lida na obra do próprio Keynes já nos dá algumas dicas valiosas a esse respeito. A política econômica serve apenas para cotejar o ciclo econômico. Ela atua pontualmente para manter o PIB efetivo o mais perto possível do potencial de crescimento da economia. Ela não tem [não mesmo] capacidade para elevar o padrão de vida de uma população ad infinitum. Ainda que um grande contingente de economistas pense que isso é verdade. A política econômica pode “causar” mais crescimento apenas no curto prazo. No médio e longo prazos, são os fatores do lado da oferta que comandam. E nenhuma crise, diga-se, acabará com essa lição básica da teoria econômica.

À luz do que foi exposto, o que deve ficar claro para o Brasil nesse momento é que não se deve confundir maças com bananas. Temos, de fato, um background mais elevado em termo de resposta macroeconômica à crise. Mas isso não é suficiente para tornar o país imune aos problemas externos. De fato, a nossa vulnerabilidade aos problemas externos ainda é muito elevada, dado que qualquer redução de capitais gerará um problema crônico de balanço de pagamentos, fazendo com que o Banco Central aumente os juros básicos. Nossas reservas internacionais podem estar elevadas [e custosas, diga-se], mas não podem impedir [por muito tempo] uma deterioração maior das contas externas.

Além disso, na tarefa imaculada de gerenciar expectativas, a autoridade monetária não tem muito o que fazer a não ser dizer [via política monetária] que tudo acabará bem. Lembre-se o leitor que no Relatório de Inflação de dezembro de 2010, a perspectiva do BACEN era de crescimento da ordem de 4,5% em 2011. Cresceremos metade disso, com sorte. O que se vê, portanto, é que em termos de política econômica, ainda temos uma curva de aprendizagem muito grande para percorrer.

O que o governo deveria fazer, caso seu objetivo seja de fato tornar nosso país desenvolvido, seria recorrer à teoria econômica. Nela o que impulsiona o bem-estar da população é a correta mediação na oferta de fatores de produção. Ter uma população melhor educada, com maior acesso a saúde, torna a mão de obra mais produtiva. Ter um sistema judiciário mais eficiente, uma tributação leve e simplificada gera um ambiente de negócios menos burocrático, ajudando a alavancar a acumulação de capital, via aumento no fluxo de investimentos em capital físico. Além disso, com a garantia de direitos de propriedade, os investimentos em inovação são intensificados, fazendo com que a tecnologia de produção avance.

O leitor pode observar que a proliferação de universidades públicas, centros de pesquisa e um sistema nacional de inovação envolvendo inclusive crédito subvencionado [leia-se, sem obrigação de retorno] faça parte dessa cesta de bondades. Mas não, infelizmente. A manutenção de uma universidade estatal gratuita, pelo contrário, compete em bases predatórias com o avanço da universidade privada de ponta. Você pode observar isso na prática, novamente: conte quantas universidades privadas geram pesquisa de ponta no Brasil. Isso não acontece porque os donos dessas instituições são porcos capitalistas. A opção que lhes resta para existir no Brasil é reduzir custos via contratação de professores horistas e praticar preços camaradas para alunos motivados apenas para a conquista do diploma – nada tendo a ver com maior acúmulo de conhecimento.

Nesse aspecto, educação no Brasil tem muito mais a ver com sinalização do que com aumento de produtividade. O término de um ciclo de ensino gera ganhos salariais da ordem de 25%, sendo maior quanto mais elevado for o nível de educação atingido – dado que o estoque de mão de obra educada ainda é muito baixo. A qualidade da educação ficou em segundo plano, infelizmente.

Mas para não nos perder, o que deve ficar claro é que o governo deveria estar investindo em solidez do ambiente de negócios brasileiro. Isso, infelizmente, não é trivial e não dá muitos votos. É preciso enfrentar o problema educacional de frente, redistribuindo recursos do ensino superior para o ensino básico [com muito mais externalidades sociais]. É preciso acabar com o crédito direcionado, reflexo de um clientelismo disfuncional e cancerígeno para a economia nacional. É preciso reestruturar o papel do BNDES, criar um mercado de dívidas privadas de longo prazo. É peremptório extinguir com o processo de indexação, via mudança na remuneração/reajuste de preços e ativos (títulos públicos, poupança, concessões públicas etc.). É preciso, por fim, tornar o judiciário brasileiro menos corporativista, mais eficiente e adepto às novas tecnologias.

Nunca é demais lembrar, leitor amigo, que a virtude está no meio. Salvo alguns marxistas anacrônicos, todo economista de bom senso sabe que nem oito, nem oitenta. Nem as políticas de demanda são a salvação da lavoura, nem a destruição criativa austríaca pode ser levada [muito] a sério. É preciso ficar com um olho no gato e outro no peixe. Ou seja, é preciso administrar o ciclo [sempre melhorando a capacidade de previsão dos modelos da autoridade monetária], mas também é preciso insistir nas reformas estruturais do lado da oferta. Com uma maioria acachapante no Congresso, não será muito difícil para a presidente em exercício. Feliz 2012 a todos e que Deus nos abençoe!

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