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Eleições 2014

O próximo ministro da fazenda

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Na capa do jornal Valor Econômico hoje: "Lula faz três indicações de nomes para a Fazenda". São eles: Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco; Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central; Nelson Barbosa, ex-secretário executivo da Fazenda. São nomes que agradam o mercado porque sinalizam maior racionalidade na condução da política econômica. Possivelmente, inclusive, um ajuste fiscal, mesmo que suave, no próximo ano. Além disso, sinalizaria que a presidente está mesmo disposta a maior diálogo no segundo mandato [ações falam mais do que discurso]. Na ponta oposta, se optar por nomes como Mercadante ou Bresser Pereira, por exemplo, significa que ignorou o ex-presidente Lula e que, portanto, dobrará a aposta na atual política econômica [que segundo o atual ministro, Guido Mantega, foi aprovada pela população]. A conferir.

Momento é de reflexão

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Pois é, terminaram as eleições presidenciais mais disputadas do passado recente. Dos 142,8 milhões de eleitores, 54,5 milhões decidiram pela continuidade e 51,04 pela mudança. 37,2 milhões se abstiveram do processo de escolha. A vitória apertada, com 3,28 pontos percentuais apenas de diferença ou 3,46 milhões de votos, indica que a sociedade brasileira tem preferências mais heterogêneas do que a dos seus vizinhos da América do Sul. Ignorar isso seria o grande equívoco da presidente e de sua equipe. Não acho que irá fazê-lo, dado que isso implicaria em retumbante derrota nas eleições de 2018. As preferências sociais reveladas pela urna, portanto, parecem ser um instrumento atenuante para uma guinada à esquerda mais profunda. Momento é de reflexão, seja do governo, seja da própria oposição. Aos economistas, em particular, cabe a reflexão crítica sobre como o governo irá lidar com os desafios dos próximos anos, diante dos desequilíbrios acumulados até aqui. E isso exigirá muito trabalho. O leitor ficará sabendo por este e outros escribas.

A economista indecisa em um domingo diferente

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salariominimoUm domingo diferente, foi a sensação que tive ao acordar hoje cedo. Dia de mudar o Brasil? Não sou mais tão romântico assim. Já fui, confesso. Hoje, entretanto, fui contaminado pelo vírus do pragmatismo. Um domingo diferente porque era o dia de manifestar o sagrado direito de votar. Mas não apenas isso: era dia de tirar o governo atual do poder. A eleição desse dia 26, afinal, começou há muito tempo para mim. Para ser mais preciso, começou logo após terem se desenhado os dois principais candidatos a presidente da eleição anterior. Afinal, Serra ou Dilma, para um economista, eram a mesma coisa: o início da volta à macroeconomia tropical dos anos 60. Diferenças pontuais teriam se seguido, acaso Serra lá hoje estivesse. Mas teria também minha oposição, como teve Dilma ao longo dos últimos quase quatro anos.

Aliás, foi graças à presidente que decidi voltar a escrever nesse espaço. Em março de 2011, tão logo o governo atual se ajeitava no poder, eu voltei a por a pena entre os dedos. Após toda a sorte de incentivos de política econômica [monetária, fiscal e parafiscal], a economia brasileira crescera 7,5% em 2010. Convenhamos: crescimento desse jeito só se for contra uma base muito fraca [verdade] ou se for anabolizada [também verdade]. Não dá para o país crescer nesse nível sem gerar desequilíbrios [novamente, verdade]. Era, afinal, o que ficaria claro nos anos seguintes: o crescimento de 2010 foi mais um ponto nos ciclos políticos que tanto experimentamos em nosso país.

Desde então tenho analisado a tal macroeconomia tropical do governo Dilma. Nada muito novo, para minha decepção. Um arranjo vintage, foi o que entendi quando fiquei sabendo dos pilares da nova matriz econômica, ao final de 2012. Afinal, quer coisa mais velha do que querer mudar juros e câmbio por decreto? A História brasileira está cheia de episódios como esse, em que a vontade do comandante em chefe parece ser mais importante do que décadas de ciência. Como, desse modo, não ser oposição a tudo isso que está ai?

Não cansarei o leitor, entretanto, de todos os passos de minha oposição a esse governo. Não sou importante a tal ponto e também está tudo documentado nesse espaço, para os que se dispuserem a entender os equívocos dilmistas - é o caso de servirem para uma "cpi da inflação", me disse outro dia amigo de longa data. Para hoje apenas lembrarei da última pergunta do debate da rede Globo. De uma colega de profissão, que estava indecisa sobre quem votar.

Elisabete Costa Timbó, 55 anos, desempregada. Queria saber quais as propostas dos candidatos para que pessoas como ela, na sua idade, mas plenamente qualificadas, pudessem permanecer no mercado de trabalho. Difícil, eu sei. E também não tenho resposta satisfatória, como não tiveram Dilma ou Aécio. Certamente, entretanto, não mandaria Elisabete fazer um curso do pronatec, como fez a atual presidente. Talvez dissesse que o melhor é fazer a economia crescer, meio que concordando com Aécio Neves. Afinal, com a economia crescendo 0%, difícil empregar economistas de qualquer idade, não é mesmo?

O drama de Elisabete, afinal, não é só dela: é de todos os profissionais qualificados que estão desempregados. Como mostra o gráfico que ilustra esse post, a geração líquida de vagas formais está, hoje, concentrada em empregos de 1,5 salário mínimo. A indústria tem demitido ao longo de todo o ano. Só quem contrata no país, ainda, é o comércio e serviços em geral, mas apenas para salários mais baixos. Entende-se, desse modo, porque Elisabete não encontra refúgio no mercado de trabalho. É o caso da colega de profissão mudar de carreira? Fazer um curso no Senac, por exemplo, e ir para alguma área que ainda emprega? Provavelmente não, leitor, seja pelo absurdo evidente da proposta da presidente, seja pela tendência decrescente mostrada no gráfico também para salários menores.

Comércio e serviços mantiveram vigor um pouco maior que a indústria nesses anos, dado que não sofrem a competição externa. Enquanto a indústria compete com produtos de todo o mundo, é difícil ir cortar cabelo ou fazer as compras do mês no exterior, não é mesmo? Esse aspecto dos serviços permitiram que o setor se beneficiasse mais do que a indústria daqueles incentivos de política econômica que citei. Mas, com o aumento do endividamento das famílias e o menor crescimento dos salários, essa proteção contra a competição do exterior não será suficiente para que o setor se mantenha incólume a despeito do baixo crescimento da economia. As pesquisas de alta frequência já indicam que o setor sofre como todos os outros. Logo, em breve e se nada for feito, a geração líquida de emprego no setor também deixará de ser positivo. É precisamente isso que já mostra aquela tendência de queda do gráfico.

Melhor, portanto, é abandonar o atual regime de política econômica. Voltar ao tripé macroeconômico [superávit primário, câmbio flutuante e meta de inflação], aprovar reformas estruturais e reduzir a intervenção do Estado na economia. Isso aumentaria investimento e produtividade, o que em um ambiente com baixa procura por emprego, traria maior crescimento econômico.

Mas isso, leitor, é só o economista, que não está indeciso há muito tempo, falando. Não sei o que o Brasil irá decidir. Se acaso optar por continuar, também continuarei: na crítica ao atual governo. Se optar por mudar, continuarei tentando entender a economia. O importante a ressaltar é que após ler o jornal e tomar um descansado café da manhã, fui votar com absoluta tranquilidade e sem maiores transtornos. Não pude, claro, deixar de lembrar dos irmãos venezuelanos, que ao invés de usarem a biometria para votar, a usam para comprar comida. Mas isso já não é assunto para hoje, não é mesmo? Hoje só comemoro a democracia.

Guido vs. Armínio na Globonews: notas de realismo fantástico.

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Para Guido Mantega, nosso ilustre ex-atual-ministro da fazenda, tudo vai bem e o que não vai bem com a economia brasileira é culpa da crise internacional. Além do mais, sempre é possível lembrar os tempos de FHC quando alguém ousa dizer que nada vai bem. São as frases que me vem à mente toda vez que ouço Guido falar, raciocinar, tecer alguma sobra de comentário econômico. Foi assim nos últimos quase nove anos. O ministro mais longevo da era republicana, afinal, parece habitar outro mundo que não aquele onde a teoria econômica faz sentido. No mundo de Guido Mantega, ao contrário dessa teoria, as coisas fazem outro caminho. 

Guido Mantega foi ao programa da Miriam Leitão conversar com a jornalista e com o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, sobre o tema em que é douto. A primeira pergunta é sobre a inflação: 6,75%. Tem problema, Guido, questiona a jornalista. Passageiro, desse mês, vai voltar para a meta até o final do ano. Aliás, diz Guido, nos últimos 11 anos cumprimos a meta. Espanto, fico: que meta? Não era 4,5%? Será que mudou, penso. Não, não mudou: é que para Guido qualquer coisa abaixo de 6,5% é meta. Mais o que causou esses 6,75%? Guido diz que é culpa da seca e da energia elétrica. Seca? Energia elétrica? Estranho: ao considerar os núcleos de inflação, aquelas medidas chatinhas que só economista gosta, mas que tem o relevante papel de nos informar a tendência da inflação ao longo do tempo, a inflação está em 6,76%. Explica, Guido! Sim, faltou esse questionamento, seja da jornalista, seja do Armínio: poxa, Armínio!

Tudo bem, passa, mas Guido, e o crescimento? Ah, bom, o crescimento é culpa da crise! Crise, que crise, questiona Armínio. E eu cá com meus botões também questiono: que crise, Guido, fala para a gente. Afinal, o mundo irá crescer próximo a 3%, os emergentes próximos a 4% e o Brasil a 0%. Ops: é crise do tipo tropical, só afeta país que realizou copa do mundo?! Ih, esqueceram de perguntar ao ministro: em ano de copa do mundo, cheio de investimento que vocês tinham prometido, tá tendo crise, ministro? Estranho...

E como faz para voltar a crescer? Já estamos com o terreno plantado, é só a crise acabar que dará tudo certo. Plantado? Sim, plantado. Os empréstimos do BNDES, via plano de sustentação do investimento, o pac, as concessões, um sucesso, diz Mantega. Guido, não é bem assim, diz Armínio. Com todos esses programas que você listou, o investimento caiu: caiu, Guido! Mas caiu por causa da crise, da incerteza, o investimento público, esse, subiu: é maior do que era em 2002... E por falar em 2002...

Nos tempos de FHC, o país tava quebrado, os bancos públicos completamente arrasados, os juros eram maiores, a inflação era pior. Foram ao FMI três vezes. Acuado, Guido citava os números dos 12 anos do PT - nunca os 4 anos da Dilma. E aí, Armínio, questiona Miriam: o que você tem a dizer sobre isso?

Sinto que há uma espécie de fetiche com o governo Fernando Henrique. E fala do milagre da estabilização, que entregou os bancos públicos limpinhos. Limpinhos. Estavam quebrados, questiona Miriam novamente. Não, isso é falso, diz Armínio. Completamente falso.

Assisto ao embate com a frustração de quem ia a São Januário na década de 90 - hoje, não, claro que não - esperando por uma goleada sobre um time pequeno. E o danado do time pequeno ficava todo na retranca baixando o cacete em quem ousasse passar pelo meio de campo. Guido citou inúmeros dados sobre a realidade do país, sempre com o confronto contra os anos 90. E Armínio, pouco afeito ao debate político, à espera do embate econômico, só queria discutir o Brasil a partir de 2015. Guido baixou a porrada, Armínio se revoltou e preferiu não jogar. Resultado: a discussão relevante ficou no 0x0.

Pouco se sabe, por exemplo, o que será feito se Dilma se reeleger. Mais do mesmo? O que farão com os preços reprimidos da gasolina e da energia elétrica? Como serão reajustados? De uma só vez ou ao longo de vários anos?

Como serão incorporados os subsídios do BNDES ao orçamento público? Como serão pagos? O ajuste fiscal, necessário para retomar a credibilidade, será feito via aumento de impostos ou redução de gastos? E quais gastos serão cortados?

A inflação, alta há quatro anos, como será controlada? O Banco Central terá liberdade para aumentar juros no ano que vem? Como reagirá frente a iminente subida dos juros norte-americanos? Continuará com o programa de swaps cambiais? Ainda há espaço para isso?

E o crescimento? Com baixo desemprego, será mesmo liderado pela infraestrutura? Como ficará o marco regulatório? É possível aperfeiçoá-lo no curto prazo? Mais estado, via pac, ou mais mercado, via concessões?

A reforma tributária sairá de que forma?

Guido Mantega, repetindo os últimos quase nove anos, não reconhece os equívocos cometidos pelo atual governo. Põe a culpa do baixo crescimento na crise internacional. E compara o pacote de 12 anos com os anos FHC. Diz que a oposição vai controlar a inflação fazendo arrocho salarial. Vai fazer ajuste. Armínio procura se defender, timidamente. Diz que é preciso voltar ao tripé, aprovar reformas, deixar o mercado participar das concessões, liberar os bancos públicos para fazerem investimento em coisas que os bancos privados não fazem. Mas, claro, tudo soa muito vago para um programa cujo oponente não foi lá discutir economia: apenas fazer política. No fantástico mundo de Guido Mantega, afinal, há uma eleição por vencer: depois a gente discute como sair dessa...

No país de um salário mínimo e meio, quem quer mudança?

By | Eleições 2014

salariominimoOntem tive uma conversa para lá de interessante com um grande amigo. O leitor desse espaço percebeu que tenho escrito muito sobre mercado de trabalho. Não é uma fixação solitária desse escriba: a maior parte dos economistas de mercado tenta entender o fenômeno do baixo crescimento com baixo desemprego. Há alguns dias, porém, eu olho para um gráfico em especial: esse daí ao lado. Ele é uma pequena foto de como está a geração de emprego no país, controlada pelos salários. Repare o leitor que a geração de empregos de até 1,5 salário mínimo ainda é positiva, a despeito da tendência de queda, enquanto a geração acima desse nível já está em terreno negativo - o uso da média móvel é apenas para tratar a sazonalidade das séries. Minha motivação inicial ao fazer esse gráfico era entender por que a candidata Dilma Rousseff tem mais de 40% se a economia vai mal e a inflação está alta. Meu amigo Sergio Cunha, então, parece ter formado uma hipótese que vai de acordo com o enredo contado por esse gráfico.

A estória principal que o gráfico conta é que não importa a quantidade de salários: a geração líquida de empregos (empregados menos desempregados) está em tendência de queda. Ocorre que se levarmos em conta os salários, os empregos que pagam melhor já são muito mais escassos do que os que pagam menos. Isso deriva, precisamente, do desequilíbrio que marcou a conjuntura brasileira nos últimos anos: enquanto o setor de serviços se aproveitou dos incentivos de política econômica, a indústria está estagnada. Isso ocorreu porque o setor de serviços é insensível à concorrência externa - afinal, você não vai a Londres cortar seu cabelo, ok? -, coisa bem distinta no caso da indústria. Essa é a trama que se desenvolve se olharmos para a economia em termos desagregados.

O setor de serviços cresceu enormemente nos últimos anos beneficiado pelos incentivos ao consumo. Não é por outro motivo que a inflação de serviços está acima de 8% há mais de quatro anos. A indústria, entretanto, apesar de toda a sorte de subsídios focalizados e dos incentivos de política econômica, sofre com a infraestrutura e o caos burocrático, não resistindo à competição com produtos que vem de fora com custo bem menor.

O setor de serviços, nesse contexto, é quem vem segurando a geração de vagas agregada ainda em terreno positivo, enquanto a indústria demite há algum tempo. Aquele, porém, paga salários menores do que este, o que explica o descompasso visto no gráfico acima: enquanto a geração de empregos de até um salário mínimo e meio ainda está em terreno positivo, acima desse nível as coisas já são negativas. Ambas as séries mostram com bastante transparência que as coisas não vão bem, dada a tendência de queda. Porém, o quadro é bem pior na indústria - que paga salários mais elevados - do que no setor de serviços. Aquela já está em recessão, esse ainda passa pelo purgatório da estagnação.

Esse descompasso na geração de empregos, se considerarmos os salários, se adequa à hipótese do meu amigo. Sergio acha que uma parte do eleitorado não é sensível ao argumento da mudança, que marcou as candidaturas oposicionistas. Para estes, mudar significa arrochar salários, fazer ajuste, reduzir o emprego, acabar com programas sociais, etc. Algo completamente distinto do que eles percebem nesse momento: afinal a geração de empregos de até 1,5 salário mínimo ainda está em terreno positivo. Haveria, assim, uma correlação entre o eleitorado governista e a geração de empregos de até 1,5 salário mínimo.

A despeito da tendência de ambas as séries ser a mesma, a velocidade delas é diferente: os empregos de até 1,5 salário mínimo ainda estão preservados, enquanto acima disso, não. Sendo os eleitores dilmistas parte desse grupo, o discurso da mudança é visto de forma negativa, o que explicaria a aversão à oposição. Mudança aqui é acabar com os empregos!

Se essa hipótese fizer sentido, o candidato da oposição deveria ser mais cuidadoso em sua estratégia de abraçar a "mudança". Particularmente, acho que ele deveria ressaltar a tendência de ambas as séries, enfatizando que o ponto final é o mesmo: recessão. Isso poderia ser feito ilustrando o que está acontecendo com a indústria. Pode ser meio óbvio para economistas ou para pessoas que acompanham economia que as coisas não vão bem: mas para quem trabalha no setor de serviços, será que isso é claro?

Há muitas críticas, eu sei, afinal você pode argumentar comigo: o pessoal odeia o psdb e ponto. Como eu prefiro seguir hipóteses mais criativas, prefiro a do meu amigo! E você, o que acha? Sugestões de como testar isso - base de dados, base de dados! - são muito bem-vindas! 🙂

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