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crise econômica Archives - Análise Macro

Uma recessão nunca antes vista na História desse país

By | PIB

Os dados divulgados ontem pelo IBGE sobre o Produto Interno Bruto no quarto trimestre de 2016 (2016T4) não deixam de ser assustadores. Por qualquer métrica que se vê, a recessão da economia brasileira é de proporções inéditas. A perda de produto chega a 7,2% em dois anos. O investimento, por seu turno, caiu 22,9% nesse período e 25,9% em três anos. Significa dizer que entre 2014-2016 perdemos um quarto da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF)! Se compararmos esses números à série disponível pelo IBGE, que retroage à decada de 40 do século passado, é a pior recessão da nossa História.  A tabela ao lado resume a variação marginal (contra o trimestre imediatamente anterior), trimestral (contra o mesmo trimestre do ano anterior), anual (acumulada em quatro trimestres) e de dois anos (variação acumulada em dois anos). Nesse post, fazemos um balanço dos números. Membros do Clube do Código, como sempre, receberão apresentação completa com a análise feita no R. Se você ainda não é membro, corre lá!

Variação dos Componentes do PIB (%)
Margem Trimestral Anual 2 anos
Agro 1,0 -5,0 -6,6 -3,2
Ind -0,7 -2,4 -3,8 -9,9
Serv -0,8 -2,4 -2,7 -5,3
PIB -0,9 -2,5 -3,6 -7,2
Consumo -0,6 -2,9 -4,2 -8,0
Governo 0,1 -0,1 -0,6 -1,6
FBCF -1,6 -5,4 -10,2 -22,7
Exportação -1,8 -7,6 1,9 8,3
Importação 3,2 -1,1 -10,3 -22,9

Como se pode observar pela tabela, na margem o PIB caiu quase 1% no quarto trimestre, a FBCF caiu 1,6% e a Indústria 0,7%. Nessa métrica, os únicos que se salvaram foram a Agropecuária, com avanço de 1%, o Consumo do Governo, com 0,1% e as Importações com 3,2%. Abaixo um gráfico que detalha o avanço na margem dos componentes do PIB pelo lado da oferta e da demanda ao longo do tempo.

Na comparação interanual, por seu turno, não há salvação. O PIB caiu 2,5% se comparado ao último trimestre de 2015, o Consumo das Famílias caiu 2,9% e os Serviços, que representaram pouco mais de 63% do PIB no quarto trimestre de 2016, cairam 2,4%. Abaixo os gráficos dos componentes do PIB nessa métrica.

Já no acumulado em quatro trimestres, o PIB encolheu 3,6% no ano passado. A FBCF, por sua vez, caiu mais de 10% e até mesmo a Agropecuária, que vinha sendo uma espécie de ilha em meio à turbulência, também experimentou forte queda de 6,6%. Abaixo os gráficos dessa métrica.

Herança Estatística negativa para 2017 e um longo caminho para a recuperação

Diante de dados tão ruins, é de se perguntar o que será de 2017. Pela análise do quadro geral, não se pode dizer que o pior já passou. A despeito de alguns indicadores antecedentes apontarem algum alívio no primeiro trimestre desse ano, ainda é muito cedo para dizer alguma coisa sobre 2017T1. Ademais, se calcularmos a herança estatística de 2016, isto é, o quanto a economia vai crescer se ao longo do ano o crescimento entre os trimestres for nulo, ela fica em -1,1%. Olhando por outra ótica, se crescermos 0,5% em cada um dos trimestres, na comparação com o trimestre imediatamente anterior, o crescimento em 2017 será de 0,2%.

O problema, entretanto, é bem mais expressivo do que apenas a herança estatística negativa para esse ano. Em termos de nível, voltamos ao patamar de 2010, como pode ser visto no gráfico abaixo. Significa dizer que a economia brasileira encontra-se hoje no mesmo nível que estava em 2010. Recuperar essa perda de produto requererá anos a fio de muito trabalho, fazendo as coisas certas, deixando de lado ideias equivocadas de política econômica e intervenção microeconômica.

Contas Econômicas Integradas

Pela ótica das Contas Econômicas Integradas, em termos anuais, o PIB atingiu R$ 6,2 trilhões em 2016. O PNB, por seu turno, aquele que desconta a Renda Líquida Enviada ao Exterior, ficou em R$ 6,1 trilhões, pouco inferior à Renda Nacional Disponível - aquela que desconta transferências correntes. Da Renda Nacional Disponível, que feitos os descontos representou 98,05% do PIB, 84,19 p.p. foram destinados ao Consumo e apenas 13,86 p.p. à Poupança. Como a Formação Bruta de Capital foi de 15,45% do PIB, tivemos que fazer uso de poupança externa no montante de 1,59% do PIB. Se há algo de positivo nas Contas Nacionais, aliás, é que esse número vem caindo: ele foi de 4,54% em 2014T4. O gráfico abaixo mostra a evolução da Poupança Bruta e da Formação Bruta de Capital ao longo do tempo.

E abaixo temos o uso de poupança externa...

Conclusões

A recessão atual é assustadora, com perda de renda em termos per capita e perda de capacidade produtiva, pela queda recorde da Formação Bruta de Capital Fixo e pelo imenso estoque de desempregados. Demoraremos muitos anos para apenas recuperar tudo o que foi perdido ao longo dessa recessão. Será necessário uma espécie de "Nova Década de 90", com amplo conjunto de reformas estruturais e recuperação da credibilidade macroeconômica. E, o pior, assim como lá, não faltarão os críticos de sempre, com seu discurso caduco contra abertura do mercado e privatização de empresas estatais, por exemplo.

Se há, portanto, uma lição que podemos tirar dessa recessão é avisar aos quatro cantos o quanto o choque heterodoxo representado pela "Nova Matriz Econômica" foi pernicioso. Nesse espaço, a propósito, tenho denunciado desde o início de 2011 o quanto ideias heterodoxas são prejudiciais ao crescimento econômico e ao controle da inflação. O que nos resta, diante do tamanho do estrago, é conscientizar as gerações mais jovens sobre os perigos de colocar em prática uma agenda de intervenção estatal na microeconomia e discricionalidade na macroeconomia. Os dados, afinal, não deixam dúvidas... 🙁

A crise é grave e a saída distante

By | Crônicas Econômicas

O IBRE/FGV promoveu o seminário A Agenda de Crescimento do Brasil nos dias 6 e 7 de agosto com um objetivo bastante claro: encontrar uma [ou algumas] saída[s] para as crises [política e econômica] que estamos vivendo. Ontem, já no final de mesas repletas de economistas e cientistas políticos de reconhecida grandeza, minha impressão era que o objetivo estava ainda distante de ser alcançado. A despeito do diagnóstico sobre as causas da atual crise econômica ser claro e da solução ser aparentemente conhecida, o ambiente político parece travar qualquer trajetória de recuperação. Vivemos a ressaca do contrato social estabelecido pela Constituição de 88, em uma economia que não consegue ser mais produtiva. A saída para esse impasse parece distante.

Pode ser um olhar pessimista desse escriba, sempre, claro, há essa possibilidade, mas os fatos não parecem facilitar outra abordagem. Do diagnóstico do economista Paes de Barros de que o aumento da escolaridade dos mais jovens não gerou um aumento da produtividade até a postura contundente do cientista político Carlos Pereira de que "precisamos passar pelo processo de impeachment o quanto antes", as mesas possibilitaram algumas reflexões interessantes. Salvo o economista Braúlio Borges, da LCA, para quem a crise internacional é responsável principal pelas dificuldades que passamos, parece haver consenso que fatores internos nos guiaram, de forma segura, até aqui. Compreendido esse ponto, portanto, o que fazer para sair do atual estágio de prostração?

A agenda de reformas microeconômicas parece se impor não de hoje, mas já há bastante tempo. Melhorar a regulação, permitir que estrangeiros possam aumentar a participação em setores como audiovisual e aviação civil, simplificar o recolhimento de impostos, construir um marco regulatório para investimentos privados em infraestrutura, etc, parecem indicar que o caminho passa por melhorar o inóspito ambiente de negócios brasileiro. Em outros termos, leitor, a saída para a atual crise econômica é conhecida: precisamos passar para um modelo onde a produtividade e o investimento sejam os líderes da retomada. Conseguiremos?

O diabo é que para que essa transição ocorra, devemos construir toda a sorte de consensos políticos. Hoje, infelizmente, isso não se mostra uma agenda possível na Câmara ou no Senado. E, um detalhe importante, na possibilidade remota que consigamos aprovar essa agenda de reformas microeconômicas, seu impacto sobre o nível de atividade não será instantâneo. Dada a deterioração macro, é possível que se perca no horizonte. É como se estivéssemos querendo abastecer um 747 em pleno voo, tentando impedir que ele caia por falta de combustível. Pouco provável que consigamos, acaso nada seja feito.

E o que pode ser feito? Carlos Pereira indica o caminho: períodos pós-impeachment são seguidos de estabilidade econômica e política, segundo a evidência empírica. Os custos de um processo de impeachment, alega o cientista político, geralmente são superestimados. Daí, segue-se que, o melhor é fazer logo, para que possamos dar de encontro com a saída do atual estado de coisas. Mas, questiono, é garantido?

Provavelmente não, dada a variável "lava-jato". O enredo da operação icônica segue para seu clímax político, com figuras proeminentes da vida pública nacional sendo constrangidos pelas investigações. Inclui-se aí os presidentes do Senado e da Câmara. Logo, leitor, feito o impeachment, nada garante que a estabilidade política virá por gravidade. O mais provável é que ainda tenhamos muitos meses de enormes desafios nessa esfera, antes que consensos sejam estabelecidos em direção das reformas necessárias para que o país possa voltar a crescer.

E a economia? Vai piorar muito, antes de melhorar. As projeções do economista Mansueto de Almeida para o primário nos próximos anos, complementada pela expectativa em relação ao crescimento e aos juros implícitos, indicam mesmo uma dívida bruta na casa dos 70% em 2016. Com efeito, o rebaixamento da nota de crédito parece cada vez mais um dado, o que retroalimenta de forma potencialmente destrutiva o ambiente econômico. Em outras palavras, a trajetória da economia é desastrosa. Pode mudar?

Feito o impeachment, presos os políticos, empreiteiros, operadores e demais envolvidos, é o momento do organismo social, político e econômico se recompor. O tecido social, esguiçado diante de tantos golpes, irá sim se reencontrar. Não se sabe, porém, quando e nem por quais mãos. Se aparecerá um novo líder, um novo partido, uma coalização de forças dos políticos que restarem após o término da "lava-jato", não é possível definir. O certo é que o país recuperará em algum momento o caminho de volta ao crescimento. A boa notícia? Fará isso de forma democrática, com instituições funcionando a plena carga. É possível, portanto, que a atual crise seja grave, a mais grave da república, mas que lavada a roupa suja, o país acorde melhor no dia seguinte. Ainda que não saibamos, nem de longe, que dia será esse.

brasil

No Dia do Trabalho, vamos falar de desemprego?

By | Macroeconometria, Mercado de Trabalho

Eu sei, é chato. Economistas, em geral, gostam de falar de coisas chatas nos momentos mais inapropriados. É o cara chato que alerta para o fim do chope, ou pior: quer tirar o chope no melhor da festa. Chato, simplesmente chato. Mas, é o trabalho que alguém tem que fazer, não é mesmo? Pois é. Cá estamos nós para fazer o trabalho que ninguém gostaria de fazer nesse feriado de primeiro de maio: Dia do Trabalho. Um feriado internacional que celebra uma das relações mais consagradas de uma economia de mercado. E, então, vamos falar de desemprego, no Brasil, em 2015? Chato, eu sei, mas alguém tem que lidar com isso...

Direto do front, as notícias não são boas, leitor, infelizmente. A última publicação sobre desemprego nesse espaço foi essa aqui, utilizando R, o que se ainda não é, vai virar praxe nesse espaço - sim, ainda usamos Eviews vez ou outra, mas não nos condene! À época, a média dos dois modelos que rodamos situava o desemprego médio entre 5,2% e 5,6% da PEA em 2015, com dados até dezembro de 2014. O desemprego no primeiro trimestre do ano ficou em 5,8%, 0,8 pontos percentuais acima do mesmo período de 2014, o que nos faz ser um pouco mais pessimistas do que estávamos até então.

Os modelos utilizam como variáveis exógenas o crescimento interanual da PEA [População Economicamente Ativa] e PO [População Ocupada]. Para efeitos de previsões, de abril a dezembro do corrente ano, utilizamos a média dos últimos cinco anos para cada mês para a PEA e dados do CAGED [Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho] para a PO. Em outros termos, consideramos que a PEA manterá o crescimento visto nos últimos anos enquanto a população ocupada refletirá o desempenho mais desfavorável dos últimos meses, que tem sido demonstrado pelos dados do Ministério do Trabalho no CAGED.

Ressaltamos que essa é uma hipótese conservadora, dado que com a redução do crescimento dos salários, membros da família que até então não estavam procurando emprego, podem passar a procurá-lo. Em outras palavras, a procura por emprego [o crescimento da PEA] pode aumentar em 2015, o que piora a projeção do desemprego. Desse modo, nossas previsões, leitor, infelizmente, estão otimistas, em relação às projeções do mercado.

Os modelos foram estimados para uma amostra entre março de 2003 a março de 2015, totalizando 145 observações. O modelo 1 é um auto.arima, do pacote forecast, enquanto o modelo 2 foi baseado na análise das funções acf pacf, como detalhado no trabalho anterior. A tabela abaixo resume nossas previsões para o período de abril a dezembro de 2015. É preciso considerar o comportamento sazonal da taxa de desemprego ao longo do ano. Nosso interesse principal está na média do desemprego ao longo do ano, representada pela última linha da tabela, que inclui as observações do primeiro trimestre.

prevdesemprego2

Para lembrar, leitor, o desemprego médio de 2014 foi de 4,8% da PEA. Pela média dos nossos dois modelos, o desemprego esse ano aumenta, então, 0,9 pontos percentuais. Em relação à nossa última previsão, com dados da PME-IBGE até dezembro de 2014, houve uma piora de 0,3 p.p. E, novamente ressaltamos, estamos sendo otimistas, ao não considerar um aumento extraordinário da procura por emprego.

Por fim, a inovação desse post, que será recorrentemente vista no blog nos próximos meses, e que deu muito trabalho para um dos integrantes [Ricardo Lima], o gráfico da projeção do desemprego ao longo do ano, considerando os intervalos de confiança de 50%, 75% e 90%. A inspiração? O Banco Central Sueco, que faça chuva, sol ou neve, mantém a inflação abaixo da meta - que lá é de incríveis 2% a.a. - e, portanto, nem expectativas [de inflação] os agentes têm. Para quê, não é mesmo leitor?  Anyway, o gráfico da projeção do desemprego...

modelo01

modelo02

Gostou do gráfico? Pois é, ficou bem legal, após muito trabalho. Ele mostra que existe uma probabilidade não desprezível de que a tendência de queda do desemprego, vista nos últimos anos, seja, no mínimo, interrompida em 2015. Observe, a propósito, que o desemprego aumenta no primeiro semestre e cai no segundo, de acordo com o comportamento da produção. O comportamento sazonal do desemprego deve ser levado em consideração ao se olhar para o gráfico. Tendo em vista isso, um terceiro modelo, usando a série do desemprego dessazonalizado foi estimado via função auto.arima, bem como uma previsão para o mesmo período - abril a dezembro desse ano - foi feita. O gráfico é colocado abaixo.

modelo03

É possível ver que nos próximos meses o desemprego dessazonalizado irá oscilar e cair um pouco no final do ano. Mesmo assim, fechará dezembro em 5,5% da PEA, 0,4 pontos percentuais acima do que fechou no mesmo mês de 2014. No ano passado, o desemprego médio dessazonalizado ficou em 4,9%, enquanto a projeção do modelo 03 para esse ano indica um desemprego médio de 5,6%. Em outros termos, ainda que não seja possível verificar uma piora muito forte no desemprego - lembre-se que estamos sendo otimistas! - é possível verificar que a tendência de queda dos últimos anos tem uma probabilidade considerável de ser, no mínimo, interrompida - a reversão dependerá, basicamente, de um aumento na procura por emprego. A tabela abaixo resume as projeções para o dado dessazonalizado nos próximos meses.

Desemprego Dessazonalizado (% PEA)
Mínimo Médio Máximo
Abr/15 5,50 5,60 5,70
Mai/15 5,60 5,80 5,90
Jun/15 5,30 5,40 5,60
Jul/15 5,70 5,80 6
Ago/15 5,50 5,70 5,90
Set/15 5,40 5,60 5,80
Out/15 5,20 5,50 5,70
Nov/15 5,20 5,40 5,70
Dez/15 5,30 5,50 5,80

Economistas chatos, leitor, aproveitam o Dia do Trabalho para dizer que o desemprego irá aumentar em 2015, é mole? E nossas previsões estão, infelizmente, otimistas em relação ao mercado. Já vimos [por aí] projeções próximas a 6,5% da PEA para o ano. A conta chegou, leitor, e ela atingirá muitos trabalhadores, melhor então se preparar, não é mesmo?

Esperamos que, apesar de tudo, tenham gostado do post e do gráfico, ele será usado rotineiramente por aqui, para fazer projeção de câmbio, juros, inflação, pib e outras coisas... Semana que vem tem Raio-X da inflação, por que afinal ela está tão alta? Até!

A culpa não é dos economistas

By | Indicação de Leitura Econômica

Hoje fui acusado, injustamente, de não ter divulgado de forma suficiente os motivos pelos quais as pessoas não deveriam ter votado na presidente Dilma Rousseff nas últimas eleições. Escrevi diversos posts e artigos, dei entrevistas e elaborei podcasts sobre os motivos pelos quais era melhor ter escolhido a oposição. Diversos economistas fizeram o mesmo. A culpa, desse modo, por ela ter sido eleita e por estarmos vivendo o que estamos vivendo não é dos economistas. Desculpem. Uma lista não exaustiva de motivos pode ser vista aqui. 🙁

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