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Artigos de Economia

Como tornar a transição atual sustentável?

By | Artigos de Economia

O Brasil vive atualmente uma transição no campo da política econômica. Após os anos da famigerada Nova Matriz Econômica, o regime de metas de inflação voltou a funcionar, ancorando as expectativas dos agentes, bem como a taxa de câmbio voltou a ser flutuante. O último ponto do tripé, a recuperação dos superávits primários, é a parte mais difícil da transição, porque depende da consolidação das reformas fiscais, que passam pela reforma da previdência e pela desindexação de diversos gastos do governo. O gráfico abaixo, a propósito, ilustra a taxa de crescimento da economia brasileira sob um e outro regime.

 

O gráfico destaca os períodos cobertos pelo tripé macroeconômico e pela Nova Matriz Econômica, separados pela crise de 2008. Para entender essa separação, é preciso primeiro entender que o crescimento econômico depende de três alavancas: da absorção de mão de obra, da taxa de investimento e da produtividade. Dito isso, com o advento da crise de 2008, a reação do governo foi constituir uma política econômica anticíclica, o que fez não apenas o PIB crescer 7,6% em 2010 como fez com que a economia atingisse o pleno emprego.

Uma vez atingido o pleno emprego, para que a economia continuasse a crescer no pós-2010, era necessário acionar as duas outras alavancas, isto é, aumentar a taxa de investimento e/ou a produtividade da economia. Ocorre que essas são sensíveis à previsibilidade (ou falta dela) do ambiente institucional. O pós-2010 foi, por suposto, a antítese da previsibilidade, com diversas interferências do governo na microeconomia e na macroeconomia, no que ficou conhecido como Nova Matriz Econômica. Não é de surpreender que o crescimento só fez cair desde então.

O momento atual, pós-impeachment, é, por suposto, um período de transição. A nova diretoria do Banco Central conseguiu reancorar as expectativas de inflação, o que na prática implica na volta do regime de metas de inflação. A taxa de câmbio voltou a flutuar, após o período de interferência da NME. A parte mais difícil da transição é recuperar a capacidade do setor público de praticar superávits primários, o que deve ficar para o próximo governo.

São duas as conclusões aqui. A primeira é que o país precisa voltar a insistir nas reformas estruturais de modo a melhorar o ambiente de negócios. Só com isso, nós vamos conseguir aumentar a taxa de investimento e a produtividade da economia, tornando o crescimento econômico sustentável. A segunda é que o regime de política econômica não pode ser um ruído, precisa ser guiado por regras claras e simples, como era o tripé macroeconômico.

Em assim sendo, temos a oportunidade de aperfeiçoar o tripé e dar conta das reformas, de modo a garantir que o atual ciclo de recuperação seja sustentável e não mais um voo de galinha...

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Vítor Wilher

Data Scientist

Vítor Wilher é Bacharel e Mestre em Economia, pela Universidade Federal Fluminense, tendo se especializado na construção de modelos macroeconométricos, política monetária e análise da conjuntura macroeconômica doméstica e internacional. Tem, ademais, especialização em Data Science pela Johns Hopkins University. Sua dissertação de mestrado foi na área de política monetária, titulada "Clareza da Comunicação do Banco Central e Expectativas de Inflação: evidências para o Brasil", defendida perante banca composta pelos professores Gustavo H. B. Franco (PUC-RJ), Gabriel Montes Caldas (UFF), Carlos Enrique Guanziroli (UFF) e Luciano Vereda Oliveira (UFF). Já trabalhou em grandes empresas, nas áreas de telecomunicações, energia elétrica, consultoria financeira e consultoria macroeconômica. É o criador da Análise Macro, startup especializada em treinamento e consultoria em linguagens de programação voltadas para data analysis, sócio da MacroLab Consultoria, empresa especializada em cenários e previsões e fundador do hoje extinto Grupo de Estudos sobre Conjuntura Econômica (GECE-UFF). É também Visiting Professor da Universidade Veiga de Almeida, onde dá aulas nos cursos de MBA da instituição, Conselheiro do Instituto Millenium e um dos grandes entusiastas do uso do no ensino. Leia os posts de Vítor Wilher aquiCaso queira, mande um e-mail para ele: vitorwilher@analisemacro.com.br

Heterodoxia e evidência empírica

By | Artigos de Economia

Ontem saí para jantar com amigos dos tempos da faculdade. Falamos sobre coisas diversas, família, outros amigos, amenidades, cena política, etc, etc. Mas é difícil não falar de economia, não é mesmo? Pois lá fomos para esse tema que tanto amamos. E detestamos, em uma simetria que só as relações intensas e apaixonadas proporcionam... Falamos de muitas coisas, mas sobretudo sobre a falta de autocrítica dos heterodoxos em face da Nova Matriz Econômica, em particular, e do intervencionismo pós-2006, de modo geral.

Vamos aos fatos, leitor. Um heterodoxo de raiz vai sempre discordar da autorregulação do mercado. Com efeito, vai propor uma política macroeconômica ativa, seja para contrapor o desemprego do fator trabalho ou para combater a ociosidade do capital. Vai também propor intervenção na microeconomia, porque acha que os incentivos presentes no mecanismo de preço não são suficientes para gerar desenvolvimento econômico. Certo?

Há muita discordância entre os economistas heterodoxos sobre como fazer essas intervenções, na macro e na micro, mas, a meu ver, existe um consenso de que elas precisam ser feitas.

Não vou entrar no mérito das inúmeras receitas disponíveis para intervir no mercado, das diversas correntes de pensamento existentes Brasil a fora. Meu ponto aqui é o seguinte: os economistas heterodoxos precisam avançar na avaliação dessas intervenções.

Quer um exemplo? Recentemente, o ex-ministro Nelson Barbosa criticou o contingenciamento de gastos recém anunciado pelo governo. Para ele, esse contingenciamento vai prejudicar o crescimento da economia.

Na cabeça do ex-ministro está o princípio da demanda efetiva e alguma ideia sobre multiplicadores fiscais. Isto é, dado um gasto do governo de R$ 100, isso vai gerar efeitos multiplicados sobre o organismo econômico. É como jogar uma pedra no rio e ver seus efeitos se perfilarem não só no ponto onde a pedra caiu, mas ao redor dela.

Pois bem, leitor. Onde está o dado do efeito multiplicador do gasto? A política fiscal, afinal, tem sido amplamente expansionista nos últimos anos, por que, então, isso não gerou mais crescimento? O que impediu?

Os economistas heterodoxos precisam fazer a autocrítica no sentido de apresentar evidências empíricas para seus argumentos. Em outros termos, é preciso avaliar a intervenção sugerida.

Outro exemplo: por que os R$ 500 bilhões colocados no BNDES, via emissão de dívida por parte do Tesouro, não geraram mais investimento e crescimento econômico? O que deu errado?

Outro exemplo: por que a redução dos juros básicos em 2011 não gerou mais investimento e crescimento econômico? Por que deu errado?

Os economistas heterodoxos agem no momento como se a Nova Matriz fosse apenas um delírio da dupla Guido-Dilma, mas parecem não se dar conta que continuam sugerindo intervenções na macro e na micro, sem terem se quer avaliado por que as intervenções dos últimos anos não deram certo.

Não houve autocrítica. Mas eles continuam sugerindo o mesmo remédio: intervenção.

De novo: existem inúmeras receitas, mas você sempre vai ouvir ou ler alguma medida de intervenção na macro e na micro por parte dos economistas heterodoxos.

Quando você vai ler alguma autocrítica?

Creio que isso melhoraria muito o debate sobre os problemas que temos pela frente. Um economista, afinal, foi treinado para avaliar custos e benefícios de uma determinada política ou ação. Em termos de política pública, se os custos excedem os benefícios, ela precisa ser abandonada urgentemente. Sem apego.

O que tenho visto na realidade é justamente o contrário. O caso do gasto público, nesse contexto, parece ser emblemático. Mesmo diante do enorme custo imposto à sociedade pelo aumento dos gastos no pós-2006 - quem lembra da famosa frase gasto é vida? -, não são poucos os economistas que continuam sugerindo a mesma medida para enfrentar a recessão que vivemos.

Falta avaliação de custos e benefícios, não é mesmo? Falta, em resumo, saber lidar com a evidência empírica...

Quando bato na tecla de que a formação de um economista precisa ser absolutamente mainstream, composta por teoria econômica e por ferramentas quantitativas, estou implicitamente pensando em uma pessoa que vai ter instrumentos para avaliar custos e benefícios de uma ação qualquer. Seja na iniciativa privada, seja no governo.

Isso, claro, não impede que alguém abrace uma formação mais heterodoxa. Mas ele terá instrumentos para avaliar as intervenções que sugere ou pratica.

Isso dito, preciso perguntar: a autocrítica não vem porque não sabem lidar com a evidência empírica disponível?

Comentem aí! 🙂

Depois da ANPEC: e agora, qual mestrado escolher?

By | Artigos de Economia

Nos próximos dias 27/09 e 28/09, será realizado o Exame da Anpec, uma prova de seleção para mestrados em Economia. Nessa semana, a propósito, a CAPES divulgou a avaliação quadrienal da pós-graduação no país. Esses dois eventos me motivaram a escrever um pouco sobre mestrados em economia. Nas linhas que seguem, faço um comentário sobre alguns mestrados que conheço, seja por ter pesquisado sobre os mesmos na época em que fiz a prova da Anpec, seja porque conheci alunos e professores desses programas. É, por suposto, um relato bastante pessoal, de alguém que preferiu seguir o mainstream na sua dissertação, voltada para política monetária. Feita a ressalva, vamos aos comentários.

Antes de mais nada, gostaria de comentar a nota da CAPES voltada para economia. Há muitas ressalvas que poderiam ser feitas a essa avaliação, mas esse não é o ponto aqui. Vou apenas tecer uma breve descrição sobre as notas, que variam de 3 a 7. Entre os programas em economia com nota máxima (7), estão: EPGE (FGV Rio), EESP (FGV SP), PUC-Rio e USP. Para quem vai fazer o Exame da ANPEC, ter acesso a essas escolas implica em ficar nas 60 primeiras colocações, o que inclui boa performance nas provas de macroeconomia, microeconomia, matemática e estatística. Isso mesmo, nada de economia brasileira. Cada uma dessas provas tem peso de 25% na nota final do aluno. São programas com forte viés mainstream, que proporcionarão contato com ótimos professores, ótimos alunos e boas perspectivas de fazer doutorado no exterior (ou obter um bom emprego, por que não, após o término do curso).

 

Com nota 6, estão os seguintes programas: UFF, UFMG, UNB, UCB e UFRJ. Conheci a UCB em 2015, por intermédio de uma palestra que realizei por lá. Mas não conheço o programa de pós-graduação, logo não posso comentar a respeito. O mesmo para a UFMG. A UNB, por sua vez, eu conheço por intermédio dos seus alunos e alguns professores. Todos muito bons. Destaque aqui para a ênfase em pesquisas voltadas para economia do setor público. As duas restantes, comento a seguir.

Sou suspeito para falar sobre a UFRJ e sobre a UFF, fica o alerta de antemão. Estudei nas duas escolas e posso falar um pouquinho sobre elas. Na UFRJ, eu destacaria dois núcleos: economia industrial e economia da energia. O IE é conhecido pela qualidade dos professores na área de economia industrial, então, falar sobre isso é meio que chover no molhado. Para quem quer aplicar conceitos de industrial na área de energia, lá também tem um dos principais grupos de pesquisa na área do país. Para macroeconomia, uma observação importante, o mainstream anda meio solitário por lá, então se esse é o seu objetivo, melhor pesquisar antes de ir.

Deixei a UFF por último lugar por questões óbvias - fui aluno do mestrado. O programa já merecia a avaliação há algum tempo, e não é surpresa para quem o conhece que tenha, enfim, chegado lá. Os destaques do programa são as áreas de macroeconomia e desigualdade. Em ambas, você encontrará bons orientadores para desenvolver sua dissertação em macroeconomia aplicada e temas de microeconomia aplicada voltados para desigualdade, com amplo uso de econometria. Um último ponto que gostaria de chamar atenção é que muita gente ainda acha que a UFF seja um centro marxista. Isso não é mais verdade. A pesquisa nessa área está concentrada em três, quatro professores no máximo. Logo, você terá uma boa formação mainstream por lá.

Entre os programas com nota 5 ficaram: UFPE, UFPR, UFRGS, UFSC, UFV, Unicamp, USP-ESALQ e USP-RP. Dessas, conheço alunos e/ou professores da UFRGS, USP-ESALQ, USP-RP e Unicamp. Na UFRGS, você poderá se desenvolver muito bem em macroeconomia aplicada, com forte aplicação de técnicas econométricas. NA ESALQ, há um forte viés em economia agrícola, por questões óbvias. Conheço muitas pessoas que passaram por lá e foram trabalhar no mercado de commodities. A USP-RP, por sua vez, tem um programa mais micro, ligado também a questões mais aplicadas. E a Unicamp é a Unicamp, acho que todo mundo conhece o viés de lá. Sem comentários.

Entre os programas com nota 4 destacaria a UFC, seja por já ter palestrado por lá, seja por conhecer diversos alunos e professores (que fizeram os cursos da AM). É um bom programa, com boas pesquisas sendo produzidas na área de macroeconomia aplicada. Certamente, deve avançar nos próximos anos, alcançando melhor pontuação na avaliação da CAPES. Os demais programas com essa nota eu não conheço, logo não posso comentar a respeito.

 

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Uma dúvida muito comum entre os alunos é se dá para fazer um bom mestrado fora do eixo FGV-USP-PUC/RJ. A minha resposta é um sonoro sim. Entre os programas com nota 4 a 6 que comentei acima, certamente você poderá obter uma boa formação, ter um bom orientador e produzir uma dissertação de qualidade. Poderá também acessar um bom programa de doutorado ou ir direto para o mercado de trabalho, sem grandes dificuldades. Uma única ressalva é se você quiser fazer doutorado fora. Fora do eixo FGV-USP-PUC/RJ isso é mais raro de ocorrer. Então, se esse é o seu objetivo, seria bom ponderar em tentar novamente o Exame da Anpec em outra oportunidade, focando nessas escolas. Se o seu objetivo é trabalhar depois, qualquer um dos mestrados citados poderá lhe servir.

Gostaria de fazer, por suposto, um breve comentário sobre o mestrado em si, seja qual for o programa que você escolher. E aqui o relato é mais pessoal. No meu caso, a experiência foi maravilhosa. Pude criar um grupo de pesquisa focado em análise de conjuntura que mais tarde serviria de inspiração para criar a Análise Macro, tive contato com diversos professores de outras universidades, por meio do Encontro da ANPEC, realizado no final de cada ano (que eu recomendo fortemente que você vá!), tive aulas aplicadas sobre coisas que gostaria de estudar em macroeconomia, bem como pude apresentar uma dissertação em política monetária usando um monte de coisa bastante inovadora para a época. Foi uma época muito legal na minha vida, onde pude conhecer inúmeras pessoas e assistir a um monte de seminários. Ah, sim, e beber muita cerveja no bar da esquina, para comemorar as boas notas ou chorar as frustrações da vida de mestrando...

Recomendo fortemente que você leve o seu mestrado a sério. Caso ainda não saiba qual área lhe apetece em economia, o mestrado pode ser uma ótima oportunidade de se descobrir. Estude muito a teoria que será ensinada em sala de aula, mas também procure desde o primeiro semestre a ler papers. Aproveite o acesso aos periódicos da CAPES para poder ler o máximo de artigos que puder. Participe dos seminários da sua faculdade. Organize alguns se puder. Crie um grupo de pesquisa sobre o tema que deseja se dedicar. E sobretudo aproveite esse tempo para melhorar seus skills em coleta, tratamento, análise e apresentação de dados. Isso mesmo: procure desde o início a trabalhar com bases de dados, com evidência empírica. Isso implica em aprender econometria e alguma linguagem de programação. Quanto antes você resolver isso, menos você sofrerá para preparar uma boa dissertação.

Por fim, divirta-se! O mestrado em economia não é a coisa mais fácil que você irá fazer na vida. Vai doer e se não doer é porque você não está fazendo direito. Mas vale muito a pena! 🙂

Vítor Wilher

Vítor Wilher

Data Scientist

Vítor Wilher é Bacharel e Mestre em Economia, pela Universidade Federal Fluminense, tendo se especializado na construção de modelos macroeconométricos, política monetária e análise da conjuntura macroeconômica doméstica e internacional. Tem, ademais, especialização em Data Science pela Johns Hopkins University. Sua dissertação de mestrado foi na área de política monetária, titulada "Clareza da Comunicação do Banco Central e Expectativas de Inflação: evidências para o Brasil", defendida perante banca composta pelos professores Gustavo H. B. Franco (PUC-RJ), Gabriel Montes Caldas (UFF), Carlos Enrique Guanziroli (UFF) e Luciano Vereda Oliveira (UFF). Já trabalhou em grandes empresas, nas áreas de telecomunicações, energia elétrica, consultoria financeira e consultoria macroeconômica. É o criador da Análise Macro, startup especializada em treinamento e consultoria em linguagens de programação voltadas para data analysis, sócio da MacroLab Consultoria, empresa especializada em cenários e previsões e fundador do hoje extinto Grupo de Estudos sobre Conjuntura Econômica (GECE-UFF). É também Visiting Professor da Universidade Veiga de Almeida, onde dá aulas nos cursos de MBA da instituição, Conselheiro do Instituto Millenium e um dos grandes entusiastas do uso do no ensino. Leia os posts de Vítor Wilher aquiCaso queira, mande um e-mail para ele: vitorwilher@analisemacro.com.br

Vale a pena fazer economia no Brasil?

By | Artigos de Economia

De tempos em tempos, recebo alguma mensagem ou e-mail de alunos nos primeiros períodos do curso de economia ou que ainda nem entraram na faculdade sobre o ensino da disciplina e as possibilidades depois de formado. Se vale a pena fazer mestrado/doutorado ou o melhor mesmo é ir direto para uma empresa ou um banco de investimento, se especializando via um MBA em alguma área. Alguns desses alunos fazem referência a um artigo que escrevi há muito tempo, titulado Ensino heterodoxo: notas de uma testemunha - disponível na base de dados desse blog. Relatam, invariavelmente, angústia parecida àquela que descrevo no texto. Dizem que gostariam de estar mexendo com dados, gráficos e modelos. Mas são obrigados a assistir a professores aborrecidos com o capitalismo, fazendo uso de Marx, Schumpeter, Keynes, Kalecki, dentre outros, para criticar a teoria econômica convencional, supostamente baseada em concorrência perfeita e pleno emprego. E me perguntam se não é melhor abandonar o curso e ir para outro, como engenharia, estatística ou mesmo matemática aplicada. Aproveitei uma rara tranquilidade pós almoço de domingo para tecer algumas palavras sobre o assunto.

Muita coisa, muita mesmo, aconteceu na minha vida pessoal e profissional desde a época em que escrevi aquele texto. Participei de muitos projetos, passei por algumas empresas, montei outras, além de ter terminado um mestrado acadêmico em economia. Fui convidado para muitos seminários, palestras, debates e encontros eminentemente acadêmicos, sobre temas dos mais variados. A frustração com o ensino da economia, entretanto, manteve-se. Com alguns graus de deterioração.

Os professores aborrecidos com o capitalismo, para fazer referência a um desses simpáticos e-mails que recebo, afinal, não se deram por vencidos. Não atualizaram o discurso: continuam com suas bíblias em punho. Usam algum economista defunto para confrontar a teoria econômica convencional supostamente baseada em concorrência perfeita e pleno emprego. O pior? Os meninos e meninas aprendem desde muito cedo a replicar o discurso.

O que os professores aborrecidos com o capitalismo não dizem, por desonestidade ou por desconhecimento, é que um dos maiores desenvolvimentos da teoria econômica no século passado foi justamente incorporar as imperfeições de mercado. Hoje, o modelo básico na cabeça dos macroeconomistas é microfundamentado, com tantas imperfeições quanto forem necessárias para tornar a análise mais interessante. Ninguém tem na cabeça um modelo com concorrência perfeita e o pleno emprego não passa de uma situação estacionária. No curto prazo, há inúmeras falhas de mercado que afastam a economia da plena alocação de recursos. Desde uma simples rigidez de salários nominais até instituições mal desenhadas que geram incentivos equivocados.

Ademais, há um enorme esforço em confrontar esses modelos teóricos com a evidência empírica. Faz-se uso extensivo de métodos estatísticos e de bases de dados novíssimas, verdadeiros parques de diversão para os que conhecem o aperto de mão secreto. A partir da adequação do modelo à evidência empírica, algumas conclusões podem ser tiradas, sempre tendo em mente as restrições envolvidas. É um trabalho difícil, quando não frustrante, por ver que muitas vezes o seu modelo não gera boas previsões. Entretanto, é o método que tem proporcionado inúmeros insights, seja para economistas acadêmicos, profissionais de mercado ou policymakers.

Há problemas com esse jeito careta e convencional de fazer ciência econômica? Sim, inúmeros. Para ficar no que acho o mais grave, há um monte de pesquisador por aí que tortura os dados até que eles se adequem ao modelo proposto. E os resultados encontrados são publicados em journals de grande relevância internacional. Há muito pouca transparência no trabalho científico de economia, sendo praticamente impossível replicar de forma perfeita a enorme maioria dos papers. E isso é um problema realmente muito grave.

Mas como dizem meus amigos paulistas, para hoje é o que tem. Mesmo que não seja possível replicar os mesmos resultados encontrados por um determinado pesquisador, porque não se tem conhecimento exato sobre o conjunto de dados  e o método estatístico utilizados, sempre é possível chegar próximo. E à medida que muitos pesquisadores chegam a resultados muito próximos um do outro, é possível tirar algumas conclusões. Por exemplo, se um indiano e um australiano, de forma totalmente descentralizada, conseguem encontrar evidências de que oferta de moeda e inflação estão positivamente relacionadas no tempo, não seria o caso de começar a atentar para essa hipótese?

Os professores aborrecidos com o capitalismo pensam que o melhor é recuperar o que Keynes disse sobre a moeda e que o tema é complexo demais para ser tratado da forma acima. Ignoram, uma vez mais, o fato de que Keynes foi devidamente incorporado à teoria econômica convencional. E que contribuiriam muito mais para a construção de uma teoria econômica se estivessem envolvidos na incorporação de temas até então heterodoxos.

E por que estou fazendo referência a isso, dando um enorme rodeio antes de responder a pergunta? Afinal, é para abandonar ou não é para abandonar o curso de economia? 

Tive a preocupação de fazer esse preâmbulo antes de responder para que não fique a impressão que é mau humor meu. Isto porque, acaso você decida entrar ou continuar em uma faculdade de economia, existe uma grande probabilidade de que você venha ter aulas com esses professores aborrecidos com o capitalismo. Eles vão falar para você estudar sociologia, filosofia, direito, Marx, Hegel, Rosa Luxemburgo, Kalecki, Ricardo, Smith, etc, etc. O que eles provavelmente não lhe ensinarão é como você pode usar uma programa estatístico para coletar, tratar, analisar e apresentar dados.

Ademais, grande parte da teoria econômica convencional, composta pelas disciplinas de macro e microeconomia, que esses professores lhe ensinarão será extensivamente criticada. As hipóteses simplificadoras de modelos construídos no século XIX - portanto, longe dos desenvolvimentos mais recentes da disciplina - serão taxadas como heroicas, sempre em tom pejorativo; de modo que o aluno seja inconscientemente levado a crer que o estudo da teoria dita ortodoxa ou neoclássica é uma perda de tempo. E daí para recorrer a algum economista defunto dotado de onisciência sobre os problemas do mundo será um pulo. Toda aquela forma careta e convencional de fazer economia é sentenciada à morte logo nos primeiros períodos na enorme maioria dos cursos de graduação do país.

Por isso, leitor, minha resposta é... depende de onde você quer estudar. Posso colocar minha mão no fogo que você aprenderá economia careta e convencional apenas na PUC-Rio, na FGV-Rio, no Insper (SP) e no IBMEC (MG e RJ). Não posso garantir que você conseguirá fugir de professores aborrecidos com o capitalismo em mais nenhum outro lugar. Logo, caso você não possa estudar nessas escolas, por qualquer que seja o motivo, eu lhe convido a mudar de ideia: pense, sim, em cursar matemática aplicada, estatística ou engenharia de produção, por exemplo. São ótimos cursos, que podem lhe despertar o raciocínio lógico, lhe fazer pensar fora da caixa, munido que estará de forte instrumental quantitativo.

Mas, calma, minha recomendação não pára por aí. Uma vez que você tenha feito um desses cursos, creio que você deva entrar em um mestrado (ou mesmo doutorado) acadêmico em economia. E aqui as opções se abrem, porque aqueles professores aborrecidos com o capitalismo são improdutivos o suficiente para não serem aceitos na enorme maioria dos programas de pós-graduação em economia. Ou seja, mesmo que você não possa cursar uma daquelas faculdades citadas acima, ainda assim você conseguirá ter uma formação razoável em economia, com o plus de ter tido uma boa base em métodos quantitativos.

Espero que essas curtas palavras, em um domingo pós-macarronada, possam lhe ajudar no que está procurando. E, por fim, lembre-se: economia não é religião, logo não precisa de bíblia... 🙂

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(*) Para saber mais sobre esse jeito careta e convencional de fazer ciência econômica, leia The Methodology of Positive Economics, disponível aqui.

Vítor Wilher

Vítor Wilher

Data Scientist

Vítor Wilher é Bacharel e Mestre em Economia, pela Universidade Federal Fluminense, tendo se especializado na construção de modelos macroeconométricos, política monetária e análise da conjuntura macroeconômica doméstica e internacional. Tem, ademais, especialização em Data Science pela Johns Hopkins University. Sua dissertação de mestrado foi na área de política monetária, titulada "Clareza da Comunicação do Banco Central e Expectativas de Inflação: evidências para o Brasil", defendida perante banca composta pelos professores Gustavo H. B. Franco (PUC-RJ), Gabriel Montes Caldas (UFF), Carlos Enrique Guanziroli (UFF) e Luciano Vereda Oliveira (UFF). Já trabalhou em grandes empresas, nas áreas de telecomunicações, energia elétrica, consultoria financeira e consultoria macroeconômica. É o criador da Análise Macro, startup especializada em treinamento e consultoria em linguagens de programação voltadas para data analysis, sócio da MacroLab Consultoria, empresa especializada em cenários e previsões e fundador do hoje extinto Grupo de Estudos sobre Conjuntura Econômica (GECE-UFF). É também Visiting Professor da Universidade Veiga de Almeida, onde dá aulas nos cursos de MBA da instituição, Conselheiro do Instituto Millenium e um dos grandes entusiastas do uso do no ensino. Leia os posts de Vítor Wilher aquiCaso queira, mande um e-mail para ele: vitorwilher@analisemacro.com.br

Sobre economistas que não sabem econometria e outras ilicitudes

By | Artigos de Economia

A graduação em economia no Brasil é uma espécie de cemitério de ideias mortas, onde teorias já abandonadas na maior parte do mundo encontram refúgio, recebem aconchego e florescem. A causa disso, sabe o leitor amigo, tenho tratado ao longo dos últimos anos nesse espaço. Ainda que a realidade esteja lentamente sendo modificada, com cada vez mais informação disponível para os jovens estudantes de economia, há ainda uma séria disposição de alguns em aceitar o que lhes dizem os seus professores. O que, por suposto, podemos fazer para modificar essa triste realidade?

Frequentemente, leitor, recebo mensagens e comentários que contam a surrada estória do multiplicador keynesiano, donde o gasto do governo é apontado para resolver a crise que vivemos. Peço, então, alguma demonstração sobre como esse gasto viraria, magicamente, crescimento. Em nenhum momento, entretanto, minhas preces são atendidas. Nenhum exercício empírico é mostrado, nenhum artigo é citado. Nada, apenas estórias, narrativas sobre o poder mágico da multiplicação dos pães e do vinho...

O aluno ouviu o professor dizer que o multiplicador funciona. Ele, então, leu o livro-texto e, como faz sentido, resolveu se agarrar ao argumento. A narrativa se constituiu, então, em verdade auto-evidente.

Testes empíricos, por outro lado, dão enorme trabalho. É preciso ter tido alguns cursos de cálculo, estatística e econometria. Mas não apenas teoria, é preciso ter aprendido a lidar com algum pacote estatístico ou mesmo uma linguagem de programação voltada para data analysis. Só assim, será possível testar alguma teoria que se ouviu falar por aí. É preciso ter um pouco de São Tomé, só acreditar nas teorias que podem ser falseadas por testes empíricos minimamente controlados.

Certamente, aqui, já é possível dizer que o problema não é do aluno. Há uma relação de confiança entre ele e o seu professor, geralmente um cara com boas credenciais acadêmicas, doutor e pós-doutor na arte que lhe ensina. Por que o aluno deveria desconfiar?

Desconfie de tudo, disse em uma aula, Mário Possas, o engenheiro que virou professor de economia. Provavelmente uma das mentes mais brilhantes com quem pude ter aulas. Inclusive de mim, completou... Engenheiros têm, por dever de ofício, obrigação de desconfiar e confrontar a teoria exposta com a prática. Afinal, se não o fizer, a ponte pode cair ou o sistema não funcionar... São coisas muito práticas.

Mas também não são práticas as coisas que estudam os economistas? O gasto que não vira crescimento pode perfeitamente ser testado empiricamente, assim como a expansão monetária que vira inflação. Por que raciocínios perfeitamente falseáveis pela evidência empírica precisam ficar confinados às narrativas de nossos professores?

É preciso desafiar as ilicitudes de nossos mestres, leitor. Economia, afinal, não é questão de opinião. Toda vez, portanto, que o seu professor lhe disser que Y causa X, peça que ele mostre. Peça provas, artigos, papers ou mesmo algum exercício no R, que tal? Só assim para acabarmos com a fanfarronice de pessoas que acham que econometria é coisa de neoliberal. Em pleno 2017, por favor, né? 🙂

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Update: interessados na discussão metodológica implícita aqui, ver Friedman (1953), disponível, por exemplo, aqui

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