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A economista indecisa em um domingo diferente

By | Eleições 2014

salariominimoUm domingo diferente, foi a sensação que tive ao acordar hoje cedo. Dia de mudar o Brasil? Não sou mais tão romântico assim. Já fui, confesso. Hoje, entretanto, fui contaminado pelo vírus do pragmatismo. Um domingo diferente porque era o dia de manifestar o sagrado direito de votar. Mas não apenas isso: era dia de tirar o governo atual do poder. A eleição desse dia 26, afinal, começou há muito tempo para mim. Para ser mais preciso, começou logo após terem se desenhado os dois principais candidatos a presidente da eleição anterior. Afinal, Serra ou Dilma, para um economista, eram a mesma coisa: o início da volta à macroeconomia tropical dos anos 60. Diferenças pontuais teriam se seguido, acaso Serra lá hoje estivesse. Mas teria também minha oposição, como teve Dilma ao longo dos últimos quase quatro anos.

Aliás, foi graças à presidente que decidi voltar a escrever nesse espaço. Em março de 2011, tão logo o governo atual se ajeitava no poder, eu voltei a por a pena entre os dedos. Após toda a sorte de incentivos de política econômica [monetária, fiscal e parafiscal], a economia brasileira crescera 7,5% em 2010. Convenhamos: crescimento desse jeito só se for contra uma base muito fraca [verdade] ou se for anabolizada [também verdade]. Não dá para o país crescer nesse nível sem gerar desequilíbrios [novamente, verdade]. Era, afinal, o que ficaria claro nos anos seguintes: o crescimento de 2010 foi mais um ponto nos ciclos políticos que tanto experimentamos em nosso país.

Desde então tenho analisado a tal macroeconomia tropical do governo Dilma. Nada muito novo, para minha decepção. Um arranjo vintage, foi o que entendi quando fiquei sabendo dos pilares da nova matriz econômica, ao final de 2012. Afinal, quer coisa mais velha do que querer mudar juros e câmbio por decreto? A História brasileira está cheia de episódios como esse, em que a vontade do comandante em chefe parece ser mais importante do que décadas de ciência. Como, desse modo, não ser oposição a tudo isso que está ai?

Não cansarei o leitor, entretanto, de todos os passos de minha oposição a esse governo. Não sou importante a tal ponto e também está tudo documentado nesse espaço, para os que se dispuserem a entender os equívocos dilmistas - é o caso de servirem para uma "cpi da inflação", me disse outro dia amigo de longa data. Para hoje apenas lembrarei da última pergunta do debate da rede Globo. De uma colega de profissão, que estava indecisa sobre quem votar.

Elisabete Costa Timbó, 55 anos, desempregada. Queria saber quais as propostas dos candidatos para que pessoas como ela, na sua idade, mas plenamente qualificadas, pudessem permanecer no mercado de trabalho. Difícil, eu sei. E também não tenho resposta satisfatória, como não tiveram Dilma ou Aécio. Certamente, entretanto, não mandaria Elisabete fazer um curso do pronatec, como fez a atual presidente. Talvez dissesse que o melhor é fazer a economia crescer, meio que concordando com Aécio Neves. Afinal, com a economia crescendo 0%, difícil empregar economistas de qualquer idade, não é mesmo?

O drama de Elisabete, afinal, não é só dela: é de todos os profissionais qualificados que estão desempregados. Como mostra o gráfico que ilustra esse post, a geração líquida de vagas formais está, hoje, concentrada em empregos de 1,5 salário mínimo. A indústria tem demitido ao longo de todo o ano. Só quem contrata no país, ainda, é o comércio e serviços em geral, mas apenas para salários mais baixos. Entende-se, desse modo, porque Elisabete não encontra refúgio no mercado de trabalho. É o caso da colega de profissão mudar de carreira? Fazer um curso no Senac, por exemplo, e ir para alguma área que ainda emprega? Provavelmente não, leitor, seja pelo absurdo evidente da proposta da presidente, seja pela tendência decrescente mostrada no gráfico também para salários menores.

Comércio e serviços mantiveram vigor um pouco maior que a indústria nesses anos, dado que não sofrem a competição externa. Enquanto a indústria compete com produtos de todo o mundo, é difícil ir cortar cabelo ou fazer as compras do mês no exterior, não é mesmo? Esse aspecto dos serviços permitiram que o setor se beneficiasse mais do que a indústria daqueles incentivos de política econômica que citei. Mas, com o aumento do endividamento das famílias e o menor crescimento dos salários, essa proteção contra a competição do exterior não será suficiente para que o setor se mantenha incólume a despeito do baixo crescimento da economia. As pesquisas de alta frequência já indicam que o setor sofre como todos os outros. Logo, em breve e se nada for feito, a geração líquida de emprego no setor também deixará de ser positivo. É precisamente isso que já mostra aquela tendência de queda do gráfico.

Melhor, portanto, é abandonar o atual regime de política econômica. Voltar ao tripé macroeconômico [superávit primário, câmbio flutuante e meta de inflação], aprovar reformas estruturais e reduzir a intervenção do Estado na economia. Isso aumentaria investimento e produtividade, o que em um ambiente com baixa procura por emprego, traria maior crescimento econômico.

Mas isso, leitor, é só o economista, que não está indeciso há muito tempo, falando. Não sei o que o Brasil irá decidir. Se acaso optar por continuar, também continuarei: na crítica ao atual governo. Se optar por mudar, continuarei tentando entender a economia. O importante a ressaltar é que após ler o jornal e tomar um descansado café da manhã, fui votar com absoluta tranquilidade e sem maiores transtornos. Não pude, claro, deixar de lembrar dos irmãos venezuelanos, que ao invés de usarem a biometria para votar, a usam para comprar comida. Mas isso já não é assunto para hoje, não é mesmo? Hoje só comemoro a democracia.

O fim do dilmês

By | Eleições 2014

Não é fácil, leitor, estar ao vivo, em horário nobre, na maior emissora do país. Para agravar: diante do grande público a concorrer ao mais importante cargo eletivo da federação. Provavelmente por isso, nos aproximamos do fim do dilmês, a língua interpolada pela perturbação do silêncio. São sete atos, diga-se, para que o fim chegue. O primeiro de todos, logo ao abrir da cortina da arena das ilusões, foi o próprio exercício do poder. Dilma e seu dilmês geraram confusão nos agentes, ao aplicarem teorias, faladas e escritas, equivocadas, desnorteando possibilidades, colhendo um estado inchado, com 39 ministérios, escândalos, baixo crescimento, inflação sem controle, obras inacabadas, setor elétrico descapitalizado. Tudo em favor da atrasada e retrógrada maior presença do estado. Que estado, cara pálida?

O segundo ato, um sinal de que as coisas não vão bem, foi a campanha. Ao ver seus preciosos pontos nas pesquisas minguarem, a presidente empreendeu uma das piores campanhas dos últimos tempos. O discurso não do medo, mas do apavoramento. É preciso, afinal, apavorar o povo com um banco central que rouba-lhe a comida, acaso lhe seja dado o direito, veja, de controlar a inflação. É preciso, novamente, incutir no eleitor o apavoramento das privatizações, repetindo a mentira vencedora de 2002, 2006 e 2010. Há ainda outros apavoramentos, como o de que os programas sociais serão descontinuados, que o Brasil será guiado por banqueiros e que a indústria será desmamada das benesses.

O terceiro ato, a reviravolta, quando as pesquisas indicam reação às mentiras. A guinada à esquerda gera aversão ao risco no mercado financeiro. Em seu setembro negro, a bolsa cai 11% e o dólar chega a R$ 2,50. Aqui os barcos são queimados: não é mais possível voltar à racionalidade do superávit primário, da meta de inflação ou do câmbio flutuante. As pernas do tripé foram cortadas e tudo se desemboca para o clímax das urnas.

No setembro negro, Marina cai, Aécio sobe. As inserções cirúrgicas do pt trazem o efeito desejado: o PSDB. Até aqui desacreditado, Aécio chega ao quarto ato, ao debate na Globo, com renovado vigor. Mostra-se seguro, defende o passado do partido, em particular FHC e seu governo. Defende as privatizações, da telefonia, da siderurgia e da embraer. Cita a difícil conjuntura da época, ter de lidar com uma inflação de 916,4% em 1994.  Mostra os desmandos atuais nas estatais, na petrobras e nos correios. Cita os problemas com a inflação, com o setor elétrico, com o aparelhamento do estado.

O dilmês está nas cordas nesse momento. Engasga-se, encolhe-se, tenta balbuciar números desconexos, interpolações estanques, no que se refere, ao não referido. O dilmês respinga um "candidato Aécio", ao que mostra nervosismo de quem não se acostuma aos debates públicos, de quem tem dificuldades para estabelecer um raciocínio linear - talvez por inspirar-se na presidente, o banco central tenha escolhido a tal convergência não linear da inflação.

O dilmês se encontra, às vesperas do quinto ato, o 1º turno, quase morto. Resiste por aparelhos, diante de quatro déficits primários. Será que dá para ser contra as privatizações, afinal, diante dos escândalos sucessivos na petrobras? O que teriam feito com as empresas de telefonia, acaso FHC não tivesse privatizado? Seria, agora, muito mais simples, afinal, implantar o tal controle social da mídia, pensam os representantes do dilmês.

Há ainda três atos: o desse domingo é o quinto. O sexto, a campanha plebiscitária do 2º turno e o sétimo, e último, as urnas finais. Que o dilmês descanse em paz.

Por que votar na oposição?

By | Eleições 2014

O Partido dos Trabalhadores completará 12 anos no controle do governo federal. Três mandatos com expectativa de um quarto a partir de 2015 e um quinto, a partir de 2019, com a volta do ex-presidente Lula. Ao menos esse é o plano de voo do presidente do partido, Rui Falcão, declarado recentemente em entrevista ao Valor Econômico. Se assim for, portanto, os petistas ficarão no poder por 20 anos. A pergunta que fica: isso seria bom para o país?

Minha avaliação é que a resposta para essa pergunta tende a ser negativa. Em primeiro lugar, em um país com uma democracia jovem como a brasileira, com instituições de controle ainda em construção, é no mínimo preocupante ter o mesmo partido no governo da máquina estatal por tanto tempo. Questiono: em qual país, com características parecidas com a brasileira, a presença de um mesmo partido no poder por duas décadas gerou aumento de bem estar para a sociedade? A democracia saiu fortalecida?

Tenho sérias dúvidas sobre a resposta para essas perguntas. Adicione-se a essa preocupação, um tanto quanto abstrata a princípio, o nítido desconforto do PT com as críticas que recebe da imprensa. Algo que ficou muito claro no ocaso do Santander, na censura à Empiricus ou na edição de perfil de jornalistas na wikipedia.

O desconforto do partido e do governo com a crítica é igualmente visível nos pronunciamentos oficiais. Sempre na defensiva, chamando de pessimistas aqueles que, como eu, demonstram preocupação com a trajetória macroeconômica do país. Avalio que isso não é positivo para a democracia: esse desconforto é o que motiva a defesa de projetos de controle social da mídia, por exemplo.

Para além das minhas preocupações com a presença de um partido durante tanto tempo em uma democracia jovem como a brasileira, com instituições de controle ainda sob maturação, vem a delicada condução da política econômica. Assunto dos mais técnicos, que trato aqui nesse espaço já há algum tempo. Listo a seguir o meu desconforto enquanto economista ao que tem sido feito nos últimos anos nessa seara:

1) Repasse de recursos do Tesouro ao BNDES para prover subsídio a empresas privadas, com muito pouca transparência. Atualmente esse repasse está acima de R$ 400 bilhões e o subsídio embutido nas operações do banco ultrapassam os R$ 20 bilhões anuais. Quem são as empresas que receberam esses recursos? Qual o impacto que isso teve sobre a taxa de investimento do país?

2) Criação de mecanismos pouco ortodoxos para gerir as finanças públicas, classificados como "contabilidade criativa", gerando perda de credibilidade da política fiscal e perspectiva de perda do grau de investimento em 2015;

3) Redução da taxa básica de juros sob pretexto meramente político, sem preocupação com a trajetória da inflação ou das expectativas de inflação. Não à toa, após chegar a 7,25%, a taxa de juros teve de ser elevada, dado que a inflação mantém-se longe da meta há 4 anos;

4) Abandono da agenda de reformas estruturais, como a política, tributária, trabalhista, do judiciário, dentre outras, que poderia elevar a taxa de crescimento da economia brasileira;

5) Enfraquecimento das agências de regulação (ANATEL, Aneel, ANP etc), aumentando a incerteza, reduzindo os investimentos, prejudicando a taxa de crescimento da economia;

6) Intervenção política no setor elétrico, sob o pretexto de gerar modicidade tarifária, gerou redução da oferta de energia, bem como aumento da demanda. Isso gerou não apenas riscos crescentes de racionamento, como aumento dos custos para o contribuinte;

7) Controle de preços administrados, notadamente no grupo energia e combustíveis, com vistas a controlar a inflação - pelo uso político dos juros - gerou um desalinhamento de preços, com a existência hoje de "inflação represada". Algo que remete ao que foi feito, com grande insucesso, nas décadas de 70 e 80 no país;

8) Desarticulação da Petrobras, dado que precisa manter o preço da gasolina congelado (para "controlar" a inflação, como apontado acima) e entende que a estatal deve ser protagonista nos campos do pré-sal. Isto é, de um lado mantém as receitas da empresa desalinhadas em relação aos preços internacionais, de outro exige dela investimentos vultuosos no pré-sal, causando aumento do seu endividamento e, portanto, desvalorização de suas ações;

9) Aumento exponencial do número de ministérios, dada a necessidade pura e simples de acomodar a ampla aliança política, causando aumento da burocracia e perda de dinamismo das políticas públicas. Uma ampla base política que, ao menos, poderia ter sido utilizada para aprovar as reformas estruturais, mas não foi;

10) Excessiva visão ideológica sobre as privatizações, que retardou investimentos privados em infraestrutura. Tentivas frustradas de gerar uma taxa interna de retorno incondizente com as necessidades de investimento nesses setores causou perda de qualidade nas concessões realizadas nos últimos anos.

Observe o leitor que essas 10 críticas tem um ponto comum que é o desprezo pelos cânones da teoria econômica, bem como a adoção de um modelo de capitalismo de estado, dada a forte intervenção do governo na economia e cooptação de empresas privadas via BNDES. Isso faz com que seja mais importante montar um escritório em Brasília do que investir em pesquisa e inovação. Não é, em absoluto, a maneira mais eficiente de aumentar a taxa de crescimento da economia ou gerar estabilidade macroeconômica, como demonstram o comportamento do PIB, da inflação, dos juros, do rating brasileiro, entre outras variáveis.

Em assim sendo, leitor, por entender que a manutenção de um mesmo partido durante tanto tempo no poder é, no mínimo, problemática e por verificar que a condução da política econômica e o entendimento do governo sobre o papel do estado na economia são equivocados, eu voto na oposição esse ano. Espero que essas breves linhas lhe ajudem a tomar uma decisão na mesma direção. Sempre, claro, se informando sobre todos os lados da discussão.

 

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