O modelo que está por trás das projeções do Copom
Quando o Comitê de Política Monetária publica uma projeção de inflação para o horizonte relevante, o número não sai de uma opinião nem de um único modelo. Ele vem de um sistema de análise que combina projeções de especialistas para o curto prazo, modelos específicos para preços administrados e, no médio prazo, um conjunto pequeno de equações que descreve como juro, atividade, câmbio e expectativas se relacionam na economia brasileira. Esse conjunto é o modelo semiestrutural de pequeno porte, o MPP.
Ele é chamado de semiestrutural porque fica no meio do caminho entre dois extremos. Não é ateórico como um VAR, em que a teoria econômica se resume à escolha das variáveis e do número de defasagens. Também não é microfundamentado como um DSGE, em que cada equação é derivada do problema de otimização de famílias e firmas. As equações do MPP são inspiradas na teoria e em fatos consensuais, sem pretender identificar toda a estrutura da economia. É de pequeno porte porque tem cinco equações comportamentais, contra pouco mais de trinta do modelo semiestrutural médio.
Essa posição intermediária é deliberada. Existe um custo de oportunidade entre conteúdo econômico e capacidade preditiva: o VAR se ajusta bem aos dados de curto prazo mas explica pouco, porque seus parâmetros não têm leitura estrutural; o DSGE explica muito e costuma ajustar-se pior. O MPP fica onde o banco central precisa estar para projetar com prazo de dois anos e ainda conseguir dizer por qual canal um choque se propaga.
Onde o MPP se encaixa no conjunto de modelos do BCB
O Banco Central mantém uma família de modelos com graus distintos de estruturação econômica, e cada um responde a uma pergunta diferente:
- Indicadores antecedentes e núcleos de inflação — puramente estatísticos, servem à análise de conjuntura e ao curtíssimo prazo;
- Modelos VAR — ateóricos, usados como balizadores pela precisão relativa no curto prazo;
- Semiestruturais de pequeno porte — o MPP, nas versões agregada e desagregada, base das projeções condicionais de médio prazo;
- Semiestrutural médio — pouco mais de trinta equações, que foi perdendo espaço ao longo do tempo;
- DSGE Samba — microfundamentado, hoje usado sobretudo para contrafactuais, decomposição de choques e cenários de estresse.
O arcabouço teórico por trás do MPP é o mesmo do modelo básico novo-keynesiano: curva IS, curva de Phillips e regra de política. O MPP é a versão operacional desse arcabouço, adaptada às particularidades da economia brasileira e ao uso em projeção.
A versão original do modelo de metas está em Bogdanski, Tombini e Werlang (2000), publicada no primeiro Working Paper do BCB, e sua evolução é acompanhada nos boxes dos Relatórios de Inflação — hoje Relatórios de Política Monetária. O que segue descreve a estrutura atual, com as revisões de dezembro de 2021 e junho de 2024.
As cinco equações
A estrutura básica do MPP é definida por cinco equações comportamentais: uma curva de Phillips, uma curva IS, uma regra de Taylor, uma equação de paridade descoberta da taxa de juros e uma curva de expectativas de inflação. Uma sexta relação, que não é estimada, fecha o sistema no IPCA cheio.

A curva de Phillips
A curva de Phillips determina a inflação de preços livres como função da inércia inflacionária, das expectativas, da inflação importada, da variação cambial, do hiato do produto e das anomalias climáticas.
Modelar preços livres em vez do IPCA cheio é uma escolha com justificativa econômica direta: preços livres são determinados pelo mercado e refletem de imediato as condições de oferta e demanda do período, enquanto os administrados por contrato e monitorados são definidos após algum grau de intervenção governamental, com regras de reajuste próprias. Misturar os dois numa equação só obrigaria um mesmo coeficiente de hiato a explicar o preço do tomate e a tarifa de energia elétrica.
Três elementos dessa equação merecem atenção.
O primeiro é a restrição de verticalidade. Os coeficientes da inflação passada, das expectativas e da inflação importada são estimados sob a exigência de que somem um. A restrição garante que, no longo prazo, a curva seja vertical: se inflação passada e esperada convergirem para o mesmo valor e o hiato for nulo, a inflação corrente reproduz esse valor, e a política monetária não sustenta hiato positivo permanente à custa de inflação mais alta. As variáveis de controle não interferem na condição porque sua média não condicional é nula por construção. Mostramos a imposição dessa restrição na prática em estimando uma curva de Phillips para o Brasil no R.
O segundo é a inflação externa. Ela não entra como o IPC de um parceiro comercial, e sim como um índice de preços de commodities medido em dólar e convertido em reais. O BCB usa o Índice de Commodities Brasil (IC-Br), que ele mesmo calcula, decomposto em agropecuária, metal e energia. Como o índice é convertido pelo câmbio, ele carrega junto a variação cambial, e é por isso que o termo cambial separado na equação mede apenas os efeitos que não passam pelo preço de commodities.
O terceiro é o clima. Desde a revisão de 2017, a curva de Phillips inclui uma variável construída a partir do Oceanic Niño Index, do NOAA, que mede a temperatura do Pacífico e identifica episódios de El Niño e La Niña. A partir de 2021 os dois sinais entram separados, com dummies distintas, porque a resposta da inflação de alimentos à anomalia é assimétrica. A contribuição estimada dessa variável teve máximo em 2015-2016, refletindo o El Niño intenso do período.
A curva IS
A curva IS descreve o hiato do produto como função de suas próprias defasagens, do hiato de juro real, de uma variável fiscal e do hiato do produto mundial.
O termo de juro é a diferença entre o juro real ex-ante e o juro neutro. O juro real ex-ante vem da expectativa Focus para a Selic ao longo de doze meses, deflacionada pela expectativa de inflação do mesmo período. Usar expectativa em vez de juro observado é coerente com a ideia de que decisões de consumo e investimento respondem ao custo esperado do dinheiro no horizonte da decisão, não ao juro de ontem.
A variável fiscal é o resultado primário do governo central corrigido pelo ciclo econômico e por outliers, expresso como desvio de sua tendência. A correção cíclica evita confundir causa e efeito: parte da piora do primário numa recessão é consequência da própria recessão, e entraria com o sinal trocado se fosse usada bruta.
O bloco externo aparece como hiato do produto mundial relevante para o Brasil, construído a partir do PIB de vários países ponderado pela participação de cada um nas exportações brasileiras. Nós detalhamos a construção do lado doméstico dessa equação em como construir uma curva IS no Python.
A regra de Taylor
A função de reação do banco central responde ao desvio da expectativa de inflação em relação à meta, com duas defasagens da própria Selic captando a suavização. As duas defasagens não são um detalhe técnico: elas permitem que a resposta do juro tenha forma de ciclo, com aceleração e desaceleração, em vez do decaimento geométrico monótono que uma defasagem só produziria.
A regra estimada não tem termo de hiato do produto. O BCB registra que o coeficiente não se mostrou bem identificado e significativo na estimação, e adverte contra a leitura simplista de que o banco central não reagiria à atividade: como as expectativas de inflação são correlacionadas ao hiato, tendendo a ser mais altas quando o hiato é positivo, a resposta à atividade entra pela porta das expectativas.
Vale registrar uma diferença entre o modelo e a prática de projeção. A regra de Taylor descreve a reação média da autoridade monetária na amostra, e serve para fechar o sistema em simulações e funções de resposta ao impulso. Nas projeções publicadas, a trajetória da Selic costuma entrar como condicionante — juro constante, trajetória da Focus ou outra hipótese —, não como resultado do modelo. Para a versão estimada com dados brasileiros, ver criando uma regra de Taylor para o Brasil usando o Python.
A paridade descoberta e a equação do prêmio
O contato com o setor externo mudou de forma ao longo da história do modelo, e a mudança ilustra bem como escolhas de especificação servem ao uso prático.
Até 2017, o modelo tinha uma equação para o spread entre a taxa longa (swap pré-DI de 360 dias) e a Selic corrente. A revisão de 2017 substituiu essa formulação por uma decomposição: a taxa do swap passou a ser a Selic esperada ao longo da vigência do contrato mais um prêmio, e o prêmio virou a variável modelada, em função de suas defasagens e do risco-país medido por EMBI ou CDS. O ganho é de transparência na construção de cenários: como a Selic do condicionamento entra diretamente na composição da taxa longa, a trajetória do swap responde de forma direta à hipótese de juro adotada em cada cenário.
Nas versões bayesianas, o bloco externo é uma equação de paridade descoberta da taxa de juros: a variação cambial responde à variação do diferencial entre o juro doméstico e a Fed Funds rate, ajustada pelo prêmio de risco medido pelo CDS de cinco anos. A variação esperada do câmbio no longo prazo segue a paridade do poder de compra, dada pelo diferencial entre a meta de inflação doméstica e a inflação de equilíbrio externa.
A curva de expectativas
A quinta equação é a que mais distingue o MPP moderno de sua versão original. Ela faz as expectativas de inflação da pesquisa Focus reagirem endogenamente às demais variáveis do modelo, combinando três termos: a própria expectativa defasada, uma expectativa consistente com o modelo (model-consistent expectations) e a inflação passada.
Sem essa equação, um cenário alternativo com Selic mais alta reduziria a inflação apenas pelo hiato e pelo câmbio, mantendo as expectativas congeladas no valor observado da Focus — o que subestimaria o efeito da política monetária e produziria cenários internamente inconsistentes. Com ela, mudanças nos condicionantes se traduzem em mudanças nas expectativas, que realimentam a curva de Phillips. Tratamos da medição desse fenômeno com dados da Focus em ancoragem de expectativas no Python.
A identidade que fecha no IPCA
O IPCA cheio é a soma ponderada da inflação de preços livres, que sai da curva de Phillips, com a inflação de preços administrados, que vem de fora do bloco semiestrutural. Os administrados são projetados por um modelo próprio de 24 equações trimestrais, uma para cada item da cesta, desenhadas a partir das regras de reajuste de cada setor — reajuste de energia elétrica pela ANEEL, tabela da CMED para medicamentos, e assim por diante. São equações majoritariamente calibradas a partir do arcabouço institucional, não estimadas.
Como a inflação passada é um dos determinantes do reajuste de vários administrados, existe realimentação entre os dois blocos: mudanças na projeção de livres alteram automaticamente a projeção de administrados.
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Agregado e desagregado: duas versões do mesmo modelo
O BCB opera duas versões do MPP, e a diferença entre elas é mais estreita do que os nomes sugerem. As duas têm praticamente o mesmo conjunto de equações e diferem apenas na representação da inflação de preços livres: o modelo agregado usa uma única curva de Phillips para todos os preços livres; o desagregado usa três, uma para cada grupo — serviços, bens industriais e alimentação no domicílio —, cuja soma ponderada reproduz a inflação de livres.

O modelo agregado tem a vantagem da simplicidade: com uma hipótese direta sobre a agregação de preços, ele organiza a discussão entre atividade econômica e inflação. Dentro dos preços livres, porém, existem grupos com diferenças importantes de nível médio de inflação, de dinâmica e de determinantes. É o que a desagregação recupera.
Os coeficientes estimados reproduzem fatos estilizados conhecidos da inflação brasileira:
- Serviços tem a maior inércia, resultado da indexação formal e informal de contratos, e o maior coeficiente de hiato do produto. Em compensação, não é afetado diretamente pelo câmbio nem por commodities;
- Bens industriais responde a commodities metálicas, petróleo e câmbio, com sensibilidade menor ao hiato;
- Alimentação no domicílio responde a commodities agrícolas e ao câmbio, e é o único grupo em que a anomalia climática aparece.
Essa separação tem consequência prática na leitura de choques. Uma depreciação cambial de 10% atinge alimentação no domicílio com intensidade muito maior do que serviços, e serviços só é alcançado de forma indireta, pela inércia do IPCA e pelas expectativas — o que faz seu pico ocorrer mais tarde e durar mais. No modelo agregado, esses caminhos aparecem somados num coeficiente só; no desagregado, dá para dizer quanto veio de cada um.
A desagregação também permite separar efeito primário de efeito secundário de um choque, distinção que está no centro da decisão de política monetária. Quando uma quebra de safra eleva o preço dos alimentos, a reação apropriada não é combater a alta inicial, e sim evitar que ela contamine os demais preços. O modelo desagregado mostra essa propagação explicitamente, e mapeia com facilidade o núcleo EX0, que exclui alimentação no domicílio e administrados. Tratamos das medidas de núcleo em como analisar o núcleo de inflação no Brasil usando Python.
Houve uma terceira classe de desagregação. Na revisão de 2013, o BCB operava modelos em três recortes: agregado, desagregado por setores e CNC, que separava preços comercializáveis de não comercializáveis. Os boxes recentes descrevem apenas as versões agregada e desagregada.
Como o modelo é estimado
As equações do MPP mudaram pouco em vinte e cinco anos. O método de estimá-las mudou três vezes, e cada mudança resolveu um problema que a geração anterior deixava aberto.

Primeira geração: equação a equação
Nos primeiros anos do regime de metas, cada equação era estimada isoladamente, por mínimos quadrados ou variáveis instrumentais. O hiato do produto e o juro neutro entravam prontos, calculados antes por métodos externos ao modelo: extração de tendência linear, filtro Hodrick-Prescott, função de produção ou filtro de Kalman univariado.
Esse desenho tem duas fragilidades. A primeira é que o hiato usado como regressor é uma variável estimada tratada como se fosse observada, e a incerteza da sua medição não aparece nos erros-padrão dos coeficientes. A segunda é a simultaneidade: juro, hiato e inflação são determinados ao mesmo tempo, e estimar cada equação isolada ignora que a variável explicativa de uma é a variável dependente de outra. Discutimos a sensibilidade da primeira dessas escolhas em medindo o hiato do produto do Brasil usando Python, em que estimativas do mesmo trimestre chegam a divergir no sinal conforme o método.
Segunda geração: sistema, por GMM
O Relatório de Inflação de junho de 2011 registra a virada: "a consolidação do regime de metas e o alongamento do período amostral têm permitido identificar os parâmetros dos modelos utilizando técnicas econométricas de estimação conjunta". As equações passaram a ser estimadas em sistema, com instrumentos. O boxe de março de 2021, ao apresentar o novo modelo desagregado, é explícito sobre o método que ficava para trás: no modelo anterior, "era usado o Método Generalizado dos Momentos (GMM)".
A estimação conjunta traz três ganhos. Trata a simultaneidade, usando instrumentos para as variáveis endógenas. Permite impor restrições que cruzam equações, como a verticalidade da curva de Phillips, com erros-padrão corretos. E ganha eficiência ao usar a correlação entre os resíduos das diferentes equações.
Foi nessa geração que a regra de Taylor entrou no sistema sem aparecer nas equações publicadas. A nota de rodapé do boxe de 2017 é explícita: "a estimação conjunta dessas equações incluiu também a especificação de uma regra de Taylor, que relaciona a taxa Selic aos desvios da inflação esperada de sua meta, ao hiato do produto, ao nível de equilíbrio da Selic e a termos autorregressivos da Selic".
Uma dificuldade técnica atravessa toda essa geração. A regra de Taylor com suavização tem coeficientes que são produtos de parâmetros, do tipo (1−ρ)φπ. Isso torna a estimação um problema não linear nos parâmetros, e uma consequência incômoda é que a resposta de longo prazo fica mal identificada: com 1−ρ pequeno no denominador, uma diferença modesta na estimativa de ρ produz uma diferença enorme em φπ. Os dados identificam bem a resposta de curto prazo e mal a de longo prazo.
O GMM tem ainda dois problemas conhecidos nas amostras curtas com que se trabalha em macroeconomia brasileira. O primeiro é o viés de amostra pequena, agravado quando o número de condições de momento cresce. O segundo, mais sério, é a identificação fraca da curva de Phillips novo-keynesiana: quando os instrumentos têm correlação baixa com o termo de expectativas, as estimativas ficam mal determinadas e a inferência convencional deixa de valer. Mavroeidis, Plagborg-Møller e Stock (2014) revisam a literatura e mostram que boa parte da divergência empírica sobre o peso das expectativas na curva de Phillips vem daí, e não de diferenças econômicas reais entre as amostras.
Terceira geração: bayesiana, em espaço de estados
O Relatório de Inflação de setembro de 2020 apresentou o novo modelo agregado com estimação bayesiana, com os resultados publicados em dezembro daquele ano; o modelo desagregado equivalente veio em março de 2021, substituindo a versão anterior que usava GMM. É a estrutura em vigor, revisada em dezembro de 2021 e atualizada em junho de 2024.
A mudança tem duas partes que costumam ser confundidas: a representação em espaço de estados e a inferência bayesiana.
A representação em espaço de estados, resolvida por filtro de Kalman, permite que variáveis não observáveis sejam estimadas junto com os parâmetros, e não antes deles. O hiato do produto deixa de ser insumo externo e passa a ser resultado do modelo. Sua trajetória é alimentada por quatro indicadores de atividade — PIB, Nível de Utilização da Capacidade Instalada, taxa de desocupação e estoque de empregos formais do Novo Caged —, dos quais o filtro extrai o componente cíclico comum. Além disso, o hiato é disciplinado pelas próprias equações econômicas: ele precisa ser consistente com a inflação de livres pela curva de Phillips, com as expectativas e com a curva IS. O mesmo tratamento vale para o juro real neutro, estimado internamente de forma coerente com a estrutura do modelo.
A inferência bayesiana entra porque um modelo com muitos parâmetros e variáveis latentes, estimado em amostra trimestral curta, tem verossimilhança pouco informativa em várias direções. Declarar distribuições a priori regulariza o problema. A escolha do BCB é usar prioris pouco informativas, que na maior parte dos casos apenas limitam o suporte do parâmetro — uma uniforme entre 0 e 1, por exemplo. A intenção declarada é que o resultado reflita sobretudo o ajuste das equações aos dados observados, e não a opinião prévia de quem estimou.
O que se publica muda de natureza: em vez de coeficiente e erro-padrão, o BCB divulga a moda a posteriori e o intervalo de credibilidade de 90% de cada parâmetro. A leitura é mais direta que a de um intervalo de confiança clássico: dado o modelo, os dados e a priori, há 90% de probabilidade de o parâmetro estar naquele intervalo.
A amostra de estimação começa em 2003T4, o que exclui deliberadamente os primeiros anos do regime de metas, marcados por volatilidade alta. Até a revisão de 2021, ela terminava em 2019T4, para deixar a pandemia de fora. A atualização de 2024 estendeu a amostra até 2023T4 e passou a incluir o período da Covid-19, com um tratamento específico: em vez de descartar as observações, calibraram-se variâncias maiores para os choques entre 2020T2 e 2022T4, o que reduz o peso desses trimestres atípicos na estimação dos parâmetros. É a solução proposta por Lenza e Primiceri (2022) para estimar modelos macroeconométricos depois de março de 2020.
O que muda na prática entre GMM e bayesiano
Vale evitar duas leituras equivocadas dessa transição.
A primeira é achar que a estimação bayesiana tornou o modelo mais estrutural. Não tornou: as equações continuam sendo relações semiestruturais inspiradas na teoria, sem microfundamentação. O que mudou foi como os parâmetros e as variáveis latentes são recuperados.
A segunda é achar que a priori resolve o problema de identificação. Ela contorna o sintoma — a estimativa deixa de ser instável e a inferência passa a ser reportável —, mas se os dados carregam pouca informação sobre um parâmetro, o posterior fica próximo da priori naquela direção. O tratamento honesto é justamente o que o BCB adotou: prioris amplas, e intervalos de credibilidade largos quando os dados não determinam bem o parâmetro. O intervalo do coeficiente de resposta às expectativas na regra de Taylor, largo em todas as versões publicadas, é um exemplo direto disso.
O que o modelo diz sobre a economia brasileira
As funções de resposta ao impulso publicadas pelo BCB dão a leitura quantitativa do modelo, e três resultados organizam bem a discussão sobre política monetária no Brasil.
A política monetária é potente, mas lenta. Um aumento de 1 ponto percentual na Selic mantido por quatro trimestres reduz a inflação acumulada em quatro trimestres em cerca de 0,27 p.p. no modelo agregado, com efeito máximo alcançado no quarto trimestre após o choque. Essa defasagem é o argumento central para a atuação forward-looking: o juro de hoje alcança os preços daqui a mais de um ano, então responder à inflação corrente seria responder tarde.
O câmbio chega rápido aos preços. Uma depreciação permanente de 10% eleva o IPCA em cerca de 0,96 p.p. no acumulado em quatro trimestres. O repasse é bem maior nos administrados que nos livres, porque combustíveis e energia elétrica têm componentes indexados ao dólar.
O descasamento temporal entre choque de custo e resposta de política é o problema prático do Copom. O exercício publicado em dezembro de 2021 é o mais didático de todos: um choque de 10% nas commodities eleva a inflação em cerca de 0,6 p.p. já no primeiro trimestre e 0,9 p.p. em quatro trimestres, enquanto uma alta de 1 p.p. na Selic mitiga apenas 0,3 p.p. no mesmo prazo. Duas conclusões saem daí — mesmo com reação imediata, o impacto de curto prazo do choque de custos tende a prevalecer; e uma reação forte o bastante para neutralizar o choque no curto prazo produz efeito excessivo sobre a inflação mais adiante, quando a política monetária finalmente age com toda a força.
Os limites do modelo
Duas limitações merecem registro, uma do modelo e outra de quem tenta reproduzi-lo de fora.
A do modelo é o hiato do produto. Mesmo estimado dentro do sistema, ele continua sendo uma variável não observável, cuja trajetória depende das quatro séries de atividade escolhidas, das restrições impostas e do tratamento dado a períodos atípicos. Estimativas do mesmo trimestre variam conforme o método, e essa incerteza se propaga para toda a leitura do modelo. A vantagem do tratamento em espaço de estados é que ela ao menos aparece explicitamente, em vez de ficar escondida atrás de um filtro aplicado antes.
A de quem observa de fora é uma espécie de ilusão de transparência. O BCB publica as formas gerais das especificações econométricas e, desde 2020, as tabelas de parâmetros estimados, mas os detalhes das variáveis de controle efetivamente usadas, o número exato de defasagens de cada termo e as séries em sua construção precisa nem sempre aparecem. Quem quiser reproduzir o modelo precisa inferir a especificação particular a partir da teoria, de testes estatísticos e do material divulgado. O nível de abertura melhorou bastante com os boxes recentes; a reprodução exata continua sendo um exercício de inferência.
Considerações finais
O MPP é um sistema de cinco equações que descreve como o juro alcança a inflação na economia brasileira: pela demanda, via curva IS; pelo câmbio, via paridade de juros; e pelas expectativas, via curva de expectativas. Os três caminhos convergem na curva de Phillips, e a identidade de agregação fecha no IPCA cheio.
Sua história mostra que a estrutura econômica se manteve estável enquanto o método mudou bastante. Saiu-se de equações isoladas com hiato importado de um filtro externo, passou-se pela estimação conjunta por GMM e chegou-se a um modelo em espaço de estados que estima parâmetros e variáveis latentes ao mesmo tempo. Cada geração resolveu uma fragilidade da anterior e trouxe suas próprias escolhas discutíveis — a priori na bayesiana ocupa o lugar que os instrumentos ocupavam no GMM.
Para quem acompanha o Copom, o valor do modelo está menos no número exato de cada projeção e mais na disciplina que ele impõe ao raciocínio. Ao explicitar por quais canais um choque se propaga e com que defasagem, ele transforma a discussão sobre a próxima decisão numa discussão sobre parâmetros, cenários e condicionantes.
Perguntas frequentes
O que é o modelo de pequeno porte do Banco Central?
É o modelo semiestrutural que serve de base às projeções condicionais de inflação de médio prazo do Banco Central do Brasil. Sua estrutura tem cinco equações comportamentais: uma curva de Phillips para a inflação de preços livres, uma curva IS para o hiato do produto, uma regra de Taylor, uma equação de paridade descoberta da taxa de juros e uma curva de expectativas de inflação. É chamado de semiestrutural porque suas equações são inspiradas na teoria econômica sem microfundamentação completa, e de pequeno porte pelo número reduzido de equações.
Qual a diferença entre o modelo agregado e o desagregado?
As duas versões têm praticamente o mesmo conjunto de equações e diferem apenas na representação da inflação de preços livres. O agregado usa uma única curva de Phillips para todos os preços livres. O desagregado usa três curvas setoriais — serviços, bens industriais e alimentação no domicílio —, cuja soma ponderada reproduz a inflação de livres. A desagregação permite separar efeitos primários de secundários de um choque, identificar a dinâmica própria de cada setor e acompanhar o núcleo EX0.
Como o modelo de pequeno porte é estimado?
Desde 2020, por técnicas bayesianas em representação de espaço de estados, resolvida por filtro de Kalman. Antes disso, entre 2011 e 2019, a estimação era conjunta por Método Generalizado dos Momentos (GMM); e nos primeiros anos do regime de metas, equação a equação por mínimos quadrados e variáveis instrumentais. A mudança para o espaço de estados permite estimar as variáveis não observáveis — hiato do produto e juro real neutro — ao mesmo tempo que os parâmetros, em vez de calculá-las antes por um filtro externo.
Por que o Banco Central passou a usar estimação bayesiana?
Porque um modelo com muitos parâmetros e variáveis latentes, estimado em amostra trimestral curta, tem verossimilhança pouco informativa em várias direções, e a estimação clássica fica instável. As distribuições a priori regularizam o problema. O BCB usa prioris pouco informativas, que na maior parte dos casos apenas limitam o suporte do parâmetro, para que o resultado reflita sobretudo o ajuste das equações aos dados observados. O que se publica passa a ser a moda a posteriori e o intervalo de credibilidade de 90%, em vez de coeficiente e erro-padrão.
O que é a restrição de verticalidade da curva de Phillips?
É a exigência de que os coeficientes da inflação passada, das expectativas de inflação e da inflação importada somem um. Ela garante que, no longo prazo, a curva de Phillips seja vertical: se a inflação passada e a esperada convergirem para o mesmo valor e o hiato do produto for nulo, a inflação corrente reproduz esse valor, e a política monetária não consegue sustentar um hiato positivo permanente por meio de inflação mais alta. As variáveis de controle não afetam a condição porque sua média não condicional é nula por construção.
Por que a regra de Taylor do modelo não tem o hiato do produto?
Porque o coeficiente não se mostrou bem identificado e significativo na estimação. O próprio Banco Central adverte que isso não deve ser lido como ausência de reação à atividade econômica: as expectativas de inflação são correlacionadas ao hiato, tendendo a ser mais altas quanto mais positivo ele está, de modo que a resposta à atividade entra na regra pela via das expectativas.
Quanto tempo leva para a Selic afetar a inflação segundo o modelo?
Um aumento de 1 ponto percentual na Selic mantido por quatro trimestres reduz a inflação do IPCA acumulada em quatro trimestres em cerca de 0,27 p.p., com efeito máximo no quarto trimestre após o choque, segundo a versão agregada estimada com amostra até 2023. Essa defasagem é o principal argumento para a atuação forward-looking do banco central: como o juro de hoje só alcança os preços depois de vários trimestres, a política responde à inflação projetada, não à observada.
Qual a diferença entre o modelo de pequeno porte e o DSGE Samba?
A diferença está no grau de microfundamentação e no uso. O Samba é um DSGE de médio porte, em que cada equação deriva do comportamento otimizador de famílias e firmas, e hoje é usado sobretudo para exercícios contrafactuais, decomposição de choques e cenários de estresse macroeconômico. O modelo de pequeno porte tem poucas equações, inspiradas na teoria sem microfundamentação completa, e é a base das projeções condicionais de médio prazo publicadas nos relatórios.
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O modelo de pequeno porte é uma peça de um conjunto maior: séries temporais, modelos VAR, dados do Banco Central, projeção de inflação. O AM Black é a assinatura anual que dá acesso a todas as formações, em Python e em R.
Referências
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BANCO CENTRAL DO BRASIL. Modelo de preços desagregados de pequeno porte – 2018. Estudo Especial n. 18/2018. Divulgado originalmente como boxe do Relatório de Inflação, v. 20, n. 2, jun. 2018.
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