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Política Monetária

Explicando a deflação de junho e a desinflação da economia brasileira

By | Inflação, Política Monetária
O IPCA de junho, divulgado no início desse mês, mostrou avanço de -0,23%. A número negativo, em mais de 10 anos - os três últimos, diga-se, também foram em junho, em 2003, 2005 e 2006 - suscitou um grande debate entre os economistas. Para alguns desses, esse seria o sinal inequívoco dos erros na condução da política monetária. Para outros, apenas a soma de alguns efeitos pontuais. Nesse post, divulgamos o relatório Explicando a deflação de junho, enviada para os membros do Clube do Código. Nele, abrimos o índice, de modo a visualizar os fatores que causaram essa deflação, bem como explicamos a desinflação em curso no país. Os membros do Clube, como de hábito, têm acesso a todos os códigos que geraram o relatório.

No acumulado em 12 meses, o índice fechou em 3%. Esse valor é -0.6 p.p. em relação ao de maio e de -5.84 p.p. em relação a junho do ano passado. Ademais, a difusão da inflação foi calculada em 47.18% , ante 55.23% no mesmo mês do ano anterior. É o menor valor para essa série, disponibilizada pelo Banco Central. A tabela 1 traz um resumo do comportamento do índice e dos núcleos de inflação.

IPCA vs. Núcleos de Inflação (%)
Mensal Jun/17 Mensal Jun/16 Anual Jun/17 Anual Jun/16
IPCA -0,23 0,35 3,00 8,84
Médias Aparadas com Suaviz. 0,28 0,59 4,42 8,56
Médias Aparadas sem Suaviz. 0,22 0,31 3,68 7,14
Exclusão Monit. e Adm. 0,22 0,29 3,92 6,83
Exclusão 2 0,08 0,39 4,18 7,70
Dupla Ponderação 0,24 0,49 4,32 8,43

A média da variação mensal dos cinco núcleos de inflação construídos pelo Banco Central evoluiu -0.21 p.p. na comparação interanual. Em junho de 2016, ela foi de 0.41%, enquanto em 2017 foi de 0.21%. No acumulado em 12 meses, por outro lado, a média saiu de 7.73% para 4%, mostrando que, de fato, há um processo consistente de desaceleração do processo inflacionário, mas que também o índice cheio está contaminado por choques positivos de oferta. Em particular, como se pode ver na análise desagregada abaixo, o grupo alimentos saiu de uma inflação de 12.81% em junho de 2016, no acumulado em 12 meses, para 1.12% esse ano. Esse choque de oferta positivo explica, em grande medida, a distância entre a média dos núcleos e o índice cheio, corroborando um processo consolidado de desinflação da economia brasileira. Isso, diga-se, permite uma flexibilização um pouco mais intensa do que o anteriormente previsto da política monetária nos próximos meses. Mesmo diante do caos político que vive o país.

O gráfico acima mostra o comportamento da inflação desde janeiro de 2006, quando a meta passou a ser de 4,5% e o intervalo de tolerância de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. A área hachurada, por seu turno, destaca o arrefecimento da inflação no período recente. Desde agosto do ano passado, por suposto, o processo de desinflação tem sido intensificado. Cabe, nesse ponto, a ressalva de que a inflação brasileira não apenas tem sido persistente e crescente, como também difundida nos últimos anos. O comportamento do índice de difusão abaixo deixa isso bastante claro. Na margem, ademais, a difusão também tem caído, o que mostra um processo de desinflação consolidado.

Destacado o quadro geral da inflação no país, vamos nesse relatório destrinchar um pouco melhor o dado mensal. Como veremos a seguir, quatro pontos são chaves para explicar a inflação negativa de junho, a saber: (i) a sazonalidade favorável; (ii) mudança da bandeira tarifária da energia elétrica de vermelha para verde; (iii) queda no preço da gasolina; (iv) continuação do choque de alimentos;

A sazonalidade da inflação

Antes de tudo, é preciso explicar que o mês de junho é tradicionalmente favorável para a inflação medida pelo IPCA. O gráfico abaixo ilustra.

O gráfico acima computa o comportamento da inflação nos doze meses do ano. Observa-se que a inflação apresenta uma tendência de queda ao longo da primeira parte do ano, elevando-se na segunda parte. As linhas vermelhas, por suposto, apresentam a média da inflação em cada um dos meses. Destaca-se, assim, que a própria sazonalidade da série já explica um valor mais baixo em junho.

Análise desagregada do IPCA

O histograma abaixo traz a distribuição da variação mensal dos 373 subitens da inflação de junho. É um detalhamento da difusão, que mostra um avanço positivo em 47.18% dos subitens no mês.

Comportamento dos Grupos do IPCA

Vamos, agora, abrir o IPCA em camadas de forma a entender a inflação negativa em junho. Primeiro, vamos verificar como a desaceleração da inflação se deu entre os nove grupos do índice. A tabela 2 traz a variação mensal e acumulada em 12 meses dos grupos em junho desse ano e no ano passado.

Grupos do IPCA (%)
Mensal Jun/17 Mensal Jun/16 Anual Jun/17 Anual Jun/16
IPCA -0,23 0,35 3,00 8,84
Alimentação -0,50 0,71 1,12 12,81
Habitação -0,77 0,63 2,63 7,38
Artigos de Residência -0,07 0,26 -0,73 6,05
Vestuário 0,21 0,32 2,24 5,44
Transportes -0,52 -0,53 1,86 6,36
Comunicação 0,09 0,04 1,94 3,06
Saúde e Cuidados Pessoais 0,46 0,83 7,44 11,79
Despesas pessoais 0,33 0,35 5,30 8,12
Educação 0,08 0,11 8,00 9,14

Por essa abertura, observamos que quatro grupos apresentaram variação negativa no mês. A tabela 3, abaixo, ilustra por sua vez a contribuição dos nove grupos para o dado mensal.

Contribuição dos 9 grupos para o IPCA (p.p.)
Jun/17
IPCA Mensal -0,23
Alimentação -0,13
Habitação -0,12
Artigos de Residência 0
Vestuário 0,01
Transportes -0,09
Saúde e Cuidados Pessoais 0,05
Despesas pessoais 0,04
Educação 0
Comunicação 0

Em termos de contribuição, a deflação de junho está concentrada em três grupos: alimentos, habitação e transportes. Como introduzimos acima, existem motivos pontuais para que isso tenha ocorrido. O gráfico abaixo, por suposto, destaca a contribuição desses grupos para a deflação de junho.

Subgrupos

É possível, a propósito, detalhar o que foi visto anteriormente pelo corte dos subgrupos. A tabela a seguir resume essas contribuições.

Contribuição dos 19 subgrupos para o IPCA (p.p.)
Jun/17
IPCA Mensal -0,23
11.Alimentação no domicílio -0,16
12.Alimentação fora do domicílio 0,03
21.Encargos e manutenção 0,07
22.Combustíveis e energia -0,19
31.Móveis e utensílios 0
32.Aparelhos eletroeletrônicos 0
33.Consertos e manutenção 0
41.Roupas 0,01
42.Calçados e acessórios 0
43.Joias e bijuterias 0
44.Tecidos e armarinho 0
51.Transportes -0,09
61.Produtos farmacêuticos e óticos 0,01
62.Serviços de saúde 0,05
63.Cuidados pessoais 0
71.Serviços pessoais 0,04
72.Recreação, fumo e fotografia 0
81.Cursos, leitura e papelaria 0
91.Comunicação 0

Itens

Contribuição dos 52 itens para o IPCA (p.p.)
Jun/17
IPCA Mensal -0,23
1101.Cereais, leguminosas e oleaginosas 0,05
1102.Farinhas, féculas e massas -0,01
1103.Tubérculos, raízes e legumes -0,08
1104.Açúcares e derivados 0
1105.Hortaliças e verduras 0
1106.Frutas -0,06
1107.Carnes -0,03
1108.Pescados -0,01
1109.Carnes e peixes industrializados 0
1110.Aves e ovos -0,01
1111.Leites e derivados -0,02
1112.Panificados 0,01
1113.Óleos e gorduras 0
1114.Bebidas e infusões 0,01
1115.Enlatados e conservas 0
1116.Sal e condimentos 0,01
1201.Alimentação fora do domicílio 0,03
2101.Aluguel e taxas 0,06
2103.Reparos 0
2104.Artigos de limpeza 0
2201.Combustíveis (domésticos) 0,01
2202.Energia elétrica residencial -0,20
3101.Mobiliário 0
3102.Utensílios e enfeites 0
3103.Cama, mesa e banho 0
3201.Eletrodomésticos e equipamentos 0
3202.TV, som e informática 0
3301.Consertos e manutenção 0
4101.Roupa masculina 0,01
4102.Roupa feminina 0
4103.Roupa infantil 0
4201.Calçados e acessórios 0
4301.Joias e bijuterias 0
4401.Tecidos e armarinho 0
5101.Transporte público 0,02
5102.Veículo próprio 0,03
5104.Combustíveis (veículos) -0,14
6101.Produtos farmacêuticos 0,01
6102.Produtos óticos 0
6201.Serviços médicos e dentários 0,01
6202.Serviços laboratoriais e hospitalares 0
6203.Plano de saúde 0,04
6301.Higiene pessoal 0
7101.Serviços pessoais 0,04
7201.Recreação 0
7202.Fumo 0
7203.Fotografia e filmagem 0
8101.Cursos regulares 0
8102.Leitura 0
8103.Papelaria 0
8104.Cursos diversos 0
9101.Comunicação 0

A análise desagregada da inflação medida pelo IPCA ilustra que prossegue o choque positivo da alimentação no domicílio, que em junho contribuiu com -0,16 pontos percentuais. Isso se soma a outros dois fatores pontuais. A mudança de bandeira vermelha para verde retirou 0,2 pontos percentuais da inflação, enquanto a redução do preço da gasolina e e do diesel nas refinariais retirou 0,14 pontos percentuais. Esses três processos explicam, com a permissão da sazonalidade, a inflação negativa no mês.

Comportamento das Categorias do IPCA

Uma outra leitura interessante sobre a inflação é aquela feita através das categorias. A tabela 6 ilustra.

Categorias do IPCA (%)
Mensal Jun/17 Mensal Jun/16 Anual Jun/17 Anual Jun/16
IPCA -0,23 0,35 3,00 8,84
Comercializáveis -0,24 0,56 1,77 9,42
Não Comercializáveis 0,14 0,24 3,88 7,71
Preços Monitorados -0,83 0,24 3,30 9,94
Preços Livres -0,04 0,39 2,92 8,50
Bens não-duráveis -0,81 0,68 0,47 13,90
Bens semi-duráveis 0,11 0,25 2,42 5,52
Bens duráveis 0,11 -0,13 -1,20 2,66
Serviços 0,43 0,33 5,72 7,02

Um último ponto a ressaltar, nessa análise desagregada, é a dificuldade de reduzir a inflação de serviços. Como evidenciado na tabela acima, em junho do ano passado ela era de 7,02%, enquanto nesse ano ela cedeu para 5,72%, um número ainda bastante elevado. O gráfico abaixo ilustra mais detidamente a desinflação nessa categoria.

Conclusão

Na comparação interanual, a inflação acumulada em 12 meses cedeu 5,84 pontos percentuais, situando-se no limite inferior de tolerância do regime de metas. Isso foi possível graças a uma combinação de dois fatores principais. Por um lado, a nova equipe econômica conseguiu reancorar as expectativas de inflação, o que fez reduzir a inércia. Esse fator garantiu a convergência da inflação, dado o efeito da política monetária sobre o hiato do produto. Por outro lado, o choque de alimentos, em curso desde o segundo semestre de 2016, aprofundou esse processo de desinflação, levando o índice cheio abaixo da meta, algo que não ocorria desde 2007.

O dado mensal de junho, por seu turno, mostra uma combinação de eventos favoráveis, abraçados pela sazonalidade do período. A continuação do choque positivo no subgrupo alimentos no domicílio se somou à mudança na bandeira tarifária da energia elétrica e à queda nos preços dos combustíveis, como vimos. Tudo isso, por fim, em conjunto corrobora a expectativa de continuação do processo de flexibilização da política monetária, a despeito das dificuldades políticas em se aprovar a agenda de reformas.

Conheça o Clube do Código

E se você tivesse acesso a scripts de relatórios, apresentações e exercícios macroeconométricos que fazem uso do R? Após fazer um Curso de Introdução ao R ou mesmo no processo de aprendizado do R, muitas vezes, é difícil prosseguir pelo fato simples de não ter exemplos práticos de como usar a linguagem. E se isso existisse? Se houvesse um lugar onde você tivesse acesso a exemplos aplicados à realidade brasileira? E se houvesse atualizações semanais desses exemplos? Isso existe: é o Clube do Código! Ao lado o Monitor de Inflação destacado nesse post. 

Laura Carvalho vs. Ilan Goldfajn: quem tem razão?

By | Política Monetária

Todos os anos, o Banco Central publica em seu Relatório Trimestral de março uma decomposição da inflação ocorrida no ano anterior. Isto é, ele busca ilustrar a contribuição de alguns "fatores" para a inflação no período. Laura Carvalho, professora da FEA-USP, utilizou esse exercício para refutar a "tese" do presidente da autoridade monetária, para quem a mudança na equipe econômica teria "quebrado a espinha dorsal da inflação". Nesse embate, quem está certo: Laura ou Ilan?

Em sua coluna de ontem na Folha, Laura teve o cuidado de não fazer menção ao aumento da inércia inflacionária entre 2015 e 2016, mostrado no mesmo exercício do Banco Central. Certamente, porque isso causaria embaraços à sua narrativa. Nesse post, explico os motivos. Antes, por suposto, é de bom tom dizer ao leitor que a inflação no curto prazo pode ser explicada conforme a seguinte equação

(1)   \begin{equation*} \pi_t = \alpha_0 + \alpha_1 \pi_{t-1} + \alpha_2 E_t \pi_{t+1} + \alpha_3 h_t + \alpha_4 \Delta e_t + \varepsilon_t \end{equation*}

onde \pi_t é a inflação, E_t \pi_{t+1} é a expectativa de inflação para o próximo período, h_t é o hiato do produto, \Delta e_t é a primeira diferença da taxa de câmbio e \varepsilon_t um termo de erro, supostamente um ruído branco. Isso dito, observemos a inflação acumulada em 12 meses medida pelo IPCA nos últimos anos no gráfico abaixo.

Além da inflação, o gráfico também traz a média dos cinco núcleos construídos e divulgados pelo Banco Central mensalmente. A ideia de um núcleo de inflação é basicamente retirar fatores idissiocráticos, concentrando-se na tendência de longo prazo da inflação. O que fica nítido no gráfico acima, por suposto, é que a inflação medida pelo IPCA encontrava-se em elevação desde 2010, distanciando-se assim da meta, ilustrada pela linha azul.

Esse comportamento da inflação, diga-se, tem nítidos efeitos sobre os agentes econômicos. O mais óbvio é que a meta de inflação deixa de ser uma âncora, bem como a inflação passada ganha importância na determinação da taxa de crescimento dos preços. Isso, a propósito, pode ser capturado pela estimação da equação (1). Acaso o leitor interessado fizer o exercício, irá verificar que o coeficiente do componente regressivo \pi_{t-1}, isto é, da inflação passada, passará a ter maior importância para explicar o crescimento dos preços. O gráfico abaixo ilustra, no exercício que fizemos no Clube do Código sobre assunto.

O aumento da inércia torna a desinflação do organismo econômico muito mais custosa, em termos de hiato do produto e, portanto, de taxa de desemprego. É justamente por isso que é prejudicial desviar de forma rotineira da meta de inflação, dado que isso contribui inexoravelmente para o aumento da inércia inflacionária. Isso dito, o que podemos dizer sobre as alegações de Laura Carvalho em relação ao que disse o presidente do BC?

Laura Carvalho se baseia no exercício de decomposição da inflação do Banco Central para confrontar o que disse Ilan, mas isso faz pouco sentido se considerarmos os parágrafos anteriores. O presidente da autoridade monetária fez referência justamente à quebra da inércia, medida pela convergência das expectativas de inflação para a meta. Laura, por seu turno, se concentra em uma avaliação contábil da inflação, deixando cuidadosamente de lado o aumento da inércia no período.

Isso não é correto, uma vez que esse aumento da inércia está associado justamente aos erros de condução da política econômica no período anterior a Ilan. Dentre esses erros, cabe mencionar o controle dos preços administrados de forma paralela à redução forçada da taxa de juros. Em outras palavras, em algum momento entre 2011-2013, o governo resolveu acreditar em mecanismos não monetários de controle da inflação, levando a mesma à tendência crescente ilustrada no primeiro gráfico.

A volta aos cânones da profissão, patrocinada pela nova equipe econômica, fez com que a inflação efetiva convergisse de forma mais rápida para a meta, como pode ser visto na área hachurada do primeiro gráfico. Certamente, a inflação cederia, dada a abertura do hiato do produto, mas provavelmente não com a velocidade verificada, uma vez que era preciso romper com o aumento da inércia dos últimos anos e, ademais, a taxa de câmbio dificilmente teria se valorizado do jeito que se valorizou com a equipe econômica anterior.

Em assim sendo, leitor, não me parece que a professora da FEA USP tenha refutado o presidente da autoridade monetária, dado que cuidadosamente evitou discorrer sobre o aumento da inércia inflacionária nos últimos anos. Talvez fosse o caso de fazê-lo em sua próxima coluna... 🙂

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Apêndice: Código no R que gerou o gráfico "Inflação medida pelo IPCA vs. Núcleos de Inflação".

## Importar séries do Banco Central diretamente para o R
library(BETS)
series = c(433, 4466, 11426, 11427, 16121, 16122)
dates = seq(as.Date('2006-02-01'), as.Date('2017-05-01'), by='1 month')
data = matrix(NA, nrow=length(dates), ncol=length(series))
colnames(data) = c('ipca', 'n1', 'n2', 'n3', 'n4', 'n5')

for(i in 1:length(series)){

  data[,i] = BETS.get(series[i], from = '2006-02-01', to='2017-05-01')
  
}

data = ts(data, start=c(2006,02), freq=12)

## Acumular em 12 meses
fator = 1+data/100
acumulado = (fator*lag(fator,-1)*lag(fator,-2)*lag(fator,-3)*
                lag(fator,-4)*lag(fator,-5)*lag(fator,-6)*lag(fator,-7)*
                lag(fator,-8)*lag(fator,-9)*lag(fator,-10)*lag(fator,-11)
              -1)*100
colnames(acumulado) = colnames(data)

## Fazer o gráfico
library(forecast)
library(ggplot2)
library(scales)

nucmean = rowMeans(acumulado[,2:6])
dates = seq(as.Date('2007-01-01'), as.Date('2017-05-01'), by='1 month')
df = data.frame(time=dates, ipca=acumulado[,1], nucmean=nucmean)
ggplot(df, aes(x=time))+
  geom_line(aes(y=ipca, colour='Inflação IPCA'), size=.8)+
  geom_line(aes(y=nucmean, colour='Média dos Núcleos'), size=.8)+
  geom_hline(aes(yintercept=4.5, colour='Meta'), size=.8)+
  scale_colour_manual('', values=c('Inflação IPCA'='black',
                                   'Média dos Núcleos'='red',
                                   'Meta'='blue'))+
  theme(legend.position = 'top')+
  xlab('')+ylab('% a.a.')+
  labs(title='Inflação medida pelo IPCA vs. Núcleos de Inflação')+
 scale_x_date(breaks = date_breaks('1 years'),
 labels = date_format('%Y'))+
 annotate('rect', fill = 'orange', alpha = 0.5, 
 xmin = as.Date('2016-08-01'), 
 xmax = as.Date('2017-05-01'),
 ymin = -Inf, ymax = Inf)
  

 

 

 

Efeito da JBS na Curva de Juros

By | Política Monetária

A delação da JBS causou um abalo sísmico no mercado financeiro brasileiro, capturado pela taxa de câmbio, pela Bolsa de Valores e pela Curva de Juros, como pode ser visto na figura abaixo. Não é para menos. O afastamento de Michel Temer pode causar uma reviravolta na aprovação da reforma da Previdência, fundamental para o ajuste nas contas públicas no médio prazo. A dúvida é se o eventual presidente eleito de forma indireta terá força ou mesmo vontade política para levar adiante a agenda de reformas. O mercado, claro, coloca tudo isso no preço...

O código para construir a Curva de Juros no R é do meu colega Wilson Freitas.

Copom Watch: política monetária entrou no terreno expansionista

By | Copom Watch, Política Monetária

Ontem, o Banco Central deu prosseguimento ao ciclo de relaxamento da política monetária. Como antecipado na seção Copom Watch, veio o corte de 100 pontos-base, levando a taxa básica de juros para 11,25% a.a. Desde o primeiro corte em novembro do ano passado, já houve redução de 300 pontos-base, suficiente para mudar a posição da política monetária. Considerando as expectativas médias para a inflação nos próximos 12 meses coletadas pelo Focus e o swap 360 dias, no último dado diário disponível para aquelas, o juro real ex-ante está na casa de 4,79% a.a., o que dada nossas estimativas de juro neutro, posiciona a política monetária em terreno levemente expansionista. Como mostra o gráfico abaixo, utilizando dados mensais, é a primeira vez que isso ocorre desde 2013.

 

O juro real ex-ante, como pode ser visto no segundo gráfico abaixo, antecipa a trajetória do juro ex-post, sendo relevante para determinar os movimentos da política monetária. Desse modo, passamos a ver nos próximos trimestres uma mudança nos impulsos monetários sobre o nível de atividade, o que deve, ceteris paribus, se refletir no ciclo econômico. A saber, entre uma mudança na taxa básica e seu efeito total sobre os preços, passando pelo hiato do produto, leva-se entre 6 e 8 trimestres.

 

Nesses termos, portanto, um efeito mais vigoroso da política monetária sobre o nível de atividade será visto somente em 2018, ainda que haja algum efeito esse ano. Dado o tamanho da abertura do hiato do produto, em 2017, ainda estaremos crescendo abaixo do potencial - que, diga-se, se reduziu nos últimos anos. Em outras palavras, esse quadro favorece apostas em uma aceleração no ritmo de relaxamento monetário, nos termos discutidos em post anterior dessa seção: Copom Watch: corte de 100 pontos-base virou piso. Essa aceleração no ritmo de corte é o que o Comitê de Política Monetária (COPOM) tem chamado de antecipação do ciclo, que em suas palavras depende de alguns fatores para se consolidar.

.

 

 

Há entre esses fatores, questões conjunturais como o grau de reação do nível de atividade e questões estruturais como a reforma da previdência. Essa, por sua vez, tem impacto direto sobre o nível de juro neutro. Consolidar, por suposto, um juro real baixo no Brasil, que não interfira justamente nesse grau de impacto monetário vai depender e muito da agenda de reformas em discussão. Isso porque, uma redução muito forte na taxa básica, como ocorreu no passado, que a deixe muito distante do juro neutro, irá gerar incentivos expansionistas em demasia, o que desancorará as expectativas de inflação, levando mais à frente a novas rodadas de aumento no juro nominal.

Garantir, portanto, um juro real menor depende, soberbamente, dessa agenda de reformas. Há e sempre houve no Brasil pressão por juros reais menores. Difícil, entretanto, é fazer o vínculo entre juros menores e reformas estruturais, como tenho chamado atenção nesse espaço. Dessa vez será diferente?

Os juros e o novo regime fiscal

By | Artigos de Economia, Política Fiscal, Política Monetária

Existe no Brasil um apetite voraz para encontrar e difundir soluções fáceis para problemas complexos. No que tange aos juros, não surpreende por suposto que o governo tenha levado a cabo a redução forçada a partir de 2011, contando com o apoio de analistas e professores de economia reconhecidos. Há ai e em muitos outros episódios da história econômica brasileira uma espécie de malandragem macunaíma, que prefere os atalhos às soluções difíceis, porém definitivas. É o que se observa quando a discussão envolve política fiscal e juros. A rejeição ao teto de gastos e à reforma da previdência, que têm efeitos claros sobre os juros, é uma unanimidade entre os analistas e professores de economia que apoiaram a solução simples - e errada.

Antes de mais nada, nunca é demais explicar como juros e política fiscal se relacionam. Um governo perdulário pressiona a curva de demanda (chamada de Curva IS), o que eleva o juro de equilíbrio da economia. Ademais, governos que gastam muito e de forma crescente vão precisar cobrar mais impostos, se endividar mais ou, no limite, emitir moeda, todas essas tendo consequências graves para o organismo econômico. Naturalmente, portanto, moderar a trajetória do gasto é essencial em qualquer economia civilizada.

E onde está o Brasil nesse empreitada? Em fevereiro desse ano, o setor público consolidado registrou um déficit primário real, que não inclui despesas financeiras, de R$ 149,5 bilhões, no acumulado em 12 meses. O gráfico abaixo, por suposto, ilustra a trajetória dessa métrica ao longo do tempo. Significa dizer, leitor, que o setor público brasileiro não consegue pagar contas primárias, como salários de funcionários ou aposentadorias e pensões, sem recorrer a mais endividamento - emissão de títulos públicos no mercado.

Nessas condições, por suposto, se algo não fosse feito, a nossa dívida, o estoque de títulos públicos em poder do público, só faria aumentar, chegando a um ponto onde não seria mais possível rolá-la, restando ao governo apenas a emissão de moeda para se financiar. É o que ocorre na Venezuela, a título de exemplo. Limitar o crescimento da despesa, que é de 6% ao ano em termos reais há mais de vinte anos, era o caminho mais do que razoável para enfrentar esse problema.

O segundo passo era enfrentar a rubrica com maior peso no orçamento do setor público: a previdência pública. Hoje, com 5,7% da população com 65 anos ou mais, o Brasil gasta cerca de 12,6% do PIB com previdência. O japão, por exemplo, com 19,8% da população com 65 anos ou mais, gasta 8,7% do PIB. Se nada for feito, portanto, tudo o que faremos daqui a algumas décadas será pagar aposentadorias, pensões e salários de servidores, não restando muita coisa para toda a sorte de bens e serviços públicos.

E os juros, pergunta o leitor. E aqui é incrível como o mercado responde às soluções estruturais. A despeito de um déficit primário de 2,3% do PIB, a simples aprovação do teto de gastos e o encaminhamento de uma reforma da previdência foram suficientes para inverter a deterioração dos juros de equilíbrio da economia brasileira. Como capturar isso? Basta obter a tendência dos juros de um título público de longo prazo, como a NTN-B com vencimento em 2045. O gráfico abaixo ilustra.

Os críticos das soluções estruturais e definitivas, comprometidos que estão com suas narrativas, não conseguem ver o que diz a evidência empírica. Ao combater a trajetória insustentável das finanças públicas com o teto de gastos e a reforma da previdência o que se produz é uma queda dos juros, que beneficia todo o organismo econômico. E isso não é estória, pode ser verificado pelos dados.

Resta perguntar a esses economistas e professores alternativos, portanto, por que não querem dar atenção ao que diz a evidência. Será que querem juros mais altos?

 

 

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